Capítulo 2

1618 Words
Jasmine: Revirei os olhos pela enésima vez ao ouvir, mais uma vez, o epíteto vulgar que me era dirigido com insistência repulsiva. Curvei-me, resignada, diante da imundície que se espalhava pelo piso do bar onde trabalho, um recinto em ruínas que m*l poderia ser classificado como estabelecimento comercial. A matéria orgânica que cobria o chão exalava um odor acre e penetrante, cujo alcance já contaminava cada canto daquele espaço moribundo. Com o pano embebido em desinfetante barato, tentava inutilmente remover as marcas do descaso. O suor escorria pelas têmporas, misturando-se à aspereza do ambiente, enquanto eu limpava a entrada do banheiro, um cubículo insalubre que jamais deveria estar acessível ao público. Se a vigilância sanitária cogitasse adentrar Austreet, bairro periférico onde este bar se localiza, selaria seu fechamento imediato antes mesmo de cruzar a soleira. Contudo, era justamente essa condição marginal que o tornava propício aos propósitos de seu proprietário. A localização em uma zona negligenciada pelo poder público garantia que nenhuma autoridade, seja policial ou sanitária, se dignasse a intervir. Era um reduto de desinteresse, onde a ausência de lei sustentava uma liberdade espúria. E, apesar de tudo, eu deveria sentir-me agradecida. O fechamento do “Caverna do Rock” significaria a perda do único emprego fixo que ainda possuo, restando-me apenas um turno parcial como atendente em uma cafeteria da Quinta Avenida, função que, por si só, não seria suficiente para manter-me nesta cidade c***l, na qual me vejo enraizada por circunstâncias que recuso recordar. Retornar à cidade de onde vim seria um retrocesso inadmissível. Permanecer aqui, mesmo à margem, era minha única alternativa. Mas seria hipocrisia admitir gratidão enquanto, no silêncio pútrido da madrugada, removo resíduos de vômito do piso ou recolho preservativos descartados com desdém nos cantos escuros do salão. A julgar pela substância regurgitada, alguém sucumbiu a alguma iguaria duvidosa servida no próprio recinto, ou talvez às substâncias ilícitas que ali circulam com a mesma naturalidade com que se serve cerveja. Pelo corredor exíguo, meus olhos captaram uma cena repulsiva: corpos entrelaçados em atos depravados, alimentados por drogas e ausência de pudor. Homens recebendo favores orais de mulheres visivelmente entorpecidas, que trocavam dignidade por migalhas de alívio químico. O ar, saturado por fumaça de entorpecentes, fazia o ambiente parecer ainda mais irrespirável. Para muitos, aquilo seria uma aberração. Para mim, era apenas mais um episódio rotineiro. Austreet não escondia sua natureza: era o epicentro da degradação urbana, um território dominado pelo tráfico, pela prostituição e pela falência moral. Era também o lugar onde, recentemente, estabeleci minha existência. E embora tais visões me fossem frequentes, jamais deixaram de ser perturbadoras. A repetição não as tornava menos abjetas, apenas mais familiares. Não se tratava apenas de decadência. Tratava-se de desumanidade em seu estado mais cru. E, o mais trágico, era o fato de tudo isso ser irrefutavelmente real. Sem qualquer possibilidade de fuga, reuni os resquícios da coragem que me restavam, e não eram muitos. Naquela altura, o que me movia não era o instinto de autopreservação, mas a necessidade urgente de dinheiro, o que, por si só, explicava minha permanência naquele lugar degradante. Respirei fundo e, enfim, adentrei o banheiro. A cada passo, o odor pútrido se intensificava, ultrapassando com facilidade os vãos da máscara fina que m*l cobria o rosto. Empurrava o carrinho de limpeza como quem carrega uma sentença, vestindo um uniforme curto demais para meu corpo, cedido sem qualquer preocupação com medidas. As luvas emborrachada, tão desgastadas quanto a sola dos meus sapatos, pouco protegiam. Ainda assim, eram a única barreira entre mim e aquilo que me aguardava ali dentro. Meus olhos se encheram de lágrimas. Não apenas pelas emanações nauseantes que cortavam o tecido barato da máscara, mas pelo sentimento devastador que me tomou ao perceber o quanto estava derrotada. Para qualquer outro ser humano, aquilo seria o fundo do poço. Para mim, era apenas mais um capítulo inevitável. Voltar? Não havia essa possibilidade. Eu não tinha para onde ir. Por isso, engolia cada frustração que envenenava meu sangue sempre que acumulava turnos na cafeteria, apenas para, horas depois, me ver ajoelhada nesse chão contaminado. Cada noite trazia um novo tipo de humilhação e, por vezes, um fluido humano que eu sequer imaginava existir. Era como se o universo zombasse da minha ignorância. Forcei-me a cumprir a tarefa, mesmo sentindo que algo em mim morria a cada movimento. Não que eu já não estivesse em pedaços antes mesmo de chegar a esta cidade. Os estilhaços que me compõem sempre estiveram espalhados por dentro, ocultos e difíceis de nomear. Talvez meu erro tenha sido tentar catalogá-los, como quem busca sentido na dor, ou quem se torna viciado em ser ferido. Era a única explicação plausível para minha permanência ali. Ou, talvez, eu já houvesse perdido por completo a sanidade, considerando que estava removendo camisinhas sujas e restos abortados de vasos sanitários. Joguei um desinfetante com aroma de lavanda, como se aquela fragrância artificial fosse capaz de redimir o horror que se alojava naquele recinto. Quis correr dali. Quis voltar para minha antiga casa. Mas, ainda que Nova York fosse infinitamente maior do que a cidade de onde vim, e contasse com a vantagem de estar a inúmeros estados de distância do que deixei para trás, a verdade é que, no fundo, não era tão diferente assim. Todas as cidades guardam os mesmos fantasmas: desigualdade, podridão, violência. O que tornava Nova York peculiar era sua duplicidade. Ela era capaz de seduzir com promessas de reinvenção, ao mesmo tempo em que devorava, sem piedade, aqueles que ousavam se aproximar demais. Era por isso que tantos vinham até aqui, de todas as partes do mundo. Queriam recomeçar. Queriam fugir. Um ruído grave irrompeu de meu abdômen, despertando-me dos devaneios. Surpreendi-me por sentir fome em meio àquela circunstância tão insalubre. Era como se meu corpo já houvesse se habituado à degradação mais do que minha mente queria admitir. Limpei as seringas abandonadas, os resíduos de pó e outras substâncias que jaziam sobre o chão, e higienizei na medida do possível aquele banheiro. Levei pouco menos de duas horas até concluir o serviço. E, quando o relógio apontou três e meia da manhã, um suspiro escapou de meus pulmões. Era hora de ir para casa. Refiz o mesmo caminho de todas as noites, atenta a cada ruído, cada sombra, cada olhar prolongado. Aprendi, desde que pus os pés nesta cidade, a memorizar os rostos à minha volta. Eram sempre os mesmos. Os viciados que dividiam comigo o último vagão do trem. Os que vagavam pelas ruas como fantasmas de carne e osso, repetindo ciclos sem fim. Eu fazia parte disso agora. Ainda que, em silêncio, desejasse não ser. Apertei o passo enquanto atravessava os quarteirões até o prédio onde resido, ignorando a imagem que provavelmente transmitia ao correr por uma rua deserta no meio da madrugada. Ainda que parecesse insana aos olhos de quem, por acaso, me visse naquela pressa descompassada, o que me guiava era o impulso incontrolável de alcançar um lugar onde, ao menos por algumas horas, pudesse me sentir minimamente a salvo. Apenas permiti-me relaxar, de forma tênue e breve ao encostar as costas contra a madeira áspera da porta do meu apartamento, cuja tranca, tomada pela ferrugem, m*l oferecia qualquer segurança real. Suspirei, afastando-me logo em seguida, e caminhei até o banheiro para um banho rápido antes de me deitar. Não acendi nenhuma luz durante o trajeto. O proprietário havia me advertido: o consumo mensal de energia estava elevado, e eu precisava economizar. A água do chuveiro, naturalmente, estava fria. Não dispunha de recursos para manter o sistema de aquecimento, embora soubesse que, com a chegada iminente do inverno, tal privação se tornaria inviável. Seria uma questão de sobrevivência manter as extremidades do corpo aquecidas, ou acabaria sendo encontrada, semanas depois, congelada neste quarto sem ventilação. Sob o jato fraco e gélido, meu corpo tremia. Cada gota parecia de gelo, perfurando a minha pele. Precisei cerrar os dentes com força, resistindo à dor, forçando-me a concluir a higiene com rapidez. Deitar-me sem me purificar daquilo que havia enfrentado no bar seria impossível. Esfreguei a pele com a bucha velha desgastada com mais agressividade do que o necessário. Era como se, no gesto, eu tentasse arrancar não apenas a sujeira, mas toda a humilhação entranhada. Escovei os dentes utilizando o que restava de pasta, retirado com esforço do tubo murcho. Fechei o registro. Enrolei-me na toalha úmida e áspera que pendia ao lado da cortina de plástico, a precária divisão entre o vaso sanitário e a área do chuveiro. Não havia box, muito menos qualquer vestígio de conforto. Vestida com minha camisola de algodão desbotado, preparei-me para finalmente repousar, quando o celular vibrou sobre a cadeira de plástico ao lado da cama. Era o único objeto que me restava da vida anterior. A tela acendeu. Uma notificação: um e-mail. Rapidamente desbloqueei o aparelho. Havia me inscrito em diversos sites de vagas, mesmo sem acreditar plenamente que funcionaria, principalmente após ter mentido em partes do currículo. Eu não sabia se aquilo seria suficiente. Mas precisava tentar. Quando li o conteúdo da mensagem, meu coração pareceu hesitar por um segundo, para depois acelerar: "Você foi selecionada para uma entrevista de emprego na mansão dos Finch." Por um momento, o mundo pareceu mais leve. A proposta incluía um valor quase inacreditável. Bastariam seis meses de trabalho para reorganizar minha vida. Paguei atenção ao restante do texto: o endereço, a data, o horário. Memorizei cada detalhe. A alegria, embora silenciosa, foi imediata. Uma esperança imprudente percorreu meu corpo, aquecendo-me de dentro para fora. Sabia que dificilmente conseguiria dormir. E, se houvesse qualquer possibilidade de deixar o bar para trás, eu faria o que fosse necessário. Qualquer coisa.
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