Heleonora estava encostada no batente da janela do quarto, braços cruzados, o rosto parcialmente iluminado pela luz amarelada do abajur. A cidade lá fora dormia, mas dentro dela o incômodo era barulhento.
Por que diabos Santiago a tirava do eixo com tanta facilidade?
Ela odiava homens arrogantes e mais velhos, eram todos abusados e nojentos,mas ele é diferente.
O tipo que entra num lugar e parece que o mundo precisa se reorganizar ao redor deles. Ele era exatamente assim: seguro demais, tranquilo demais… e com um sorriso cínico que fazia sua pele arrepiar pelos motivos errados ou talvez certos demais.
Suspirou, irritada com os próprios pensamentos, quando ouviu três toques na porta. Era Solomon. Sempre direto.
“Posso?”
“Já entrou.” respondeu ela, com sarcasmo leve.
Ele entrou com um copo d’água na mão, encostando-se na parede como quem estava de passagem, mas queria conversar.
“Como foi o jantar com o Brandão?”
Ela arqueou uma sobrancelha, sem esconder o tédio da pergunta.
“Comida boa. Companhia educada. Conversa leve. Sem beijos. Sem promessas.”
Solomon a encarou com um ar que misturava provocação e cuidado de irmão.
“O pai e a mãe ficaram animados… Acreditam que seria um bom nome para você. Bom para a imagem da família. Ele é limpo. Bonito. Rico.segundo eles”.
Heleonora deu uma risada seca.
“Como se eu fosse um contrato esperando carimbo.”
Solomon franziu a testa, mas ela já estava se afastando da janela, andando de um lado para o outro como uma leoa enjaulada.
“Vinícius é interessante, não vou negar. Tem aquele charme de homem que acha que entende as mulheres. Mas não vou me vender por conveniência. Eu não sou moeda de troca.”
“Eles só querem o seu bem, Heleonora. Talvez estejam tentando te afastar da sombra.”
“E empurrar para onde? Para uma redoma onde finjo que sou veterinária 24h por dia, sorrio em eventos sociais, e finjo que o sangue que corre em mim não tem Scannell escrito no DNA?” ela estalou os dedos, impaciente. “Não, Solomon. Não vou me encaixar em um molde só porque é mais fácil para todo mundo.”
Ele observou por um segundo antes de dizer:
“Então Brandão acha que você esta a fim de alguém”, ele fala friamente.
Heleonora parou.
“O quê? Quem?”, falou incrédula.
“O delegado.”
Ela começou a ri da cara do irmão que a olhava sério, diante dessa postura dela
“Ele é um babaca convencido que acha que o mundo gira porque ele está acordado. E nem bonito ele é tanto assim.” sua voz carregava veneno e negação. “Ele me tira do sério só de persegui vocês.”
“Claro que não levei a sério isso”, Solomom fala de um jeito desconfiado.
“Não gostei dessas insinuações do Brandão. Amanha mesmo vou fala com ele”, ela fala com raiva.
“Então por que fica tão… elétrica quando o nome dele aparece?”
Ela fechou os olhos, segurando a respiração por um segundo antes de virar-se com um sorriso afiado.
“Porque odeio, aquele delegado, fiz algumas pesquisas”, ela foi até a escrivaninha e pegou uma pasta e jogou no peito do irmão.
Olha as acusações sobre você e os meninos, abuso menor de idade. Meu irmão, te conheço e isso sei que não faria”
“Claro que não”, ele fala pigarrando “Ele é inimigo. E o pai já está conversando com o Brandão sobre vocês. Espero que aceite”
“Talvez.” ela admitiu, fria como gelo. “Mas ele não manda em mim. E nem Vinícius, nem você, nem ninguém vai dizer quem devo amar ou fingir amar.”
Solomon apenas assentiu, respeitando o limite que conhecia bem.
Ela o olhou com firmeza:
“Sou Heleonora Scannell. Isso basta! Não preciso de sobrenome emprestado para parecer mais adequada.”
Silêncio. Solomon bebeu a água e saiu com um aceno discreto levando a pasta, como quem sabia que ali dentro, nenhuma dama precisava ser salva.
Heleonora trancou a porta, suspirou fundo e voltou para a janela.
Do lado de fora, o mundo parecia calmo.
Mas dentro dela, um furacão com nome e distintivo ainda girava com força.