Tradição

765 Words
Heleonora passou o dia ajeitando o apartamento. Cada cômodo parecia uma extensão da sua alma: organizado, funcional, com toques discretos de elegância e selvageria, peles sintéticas, livros de medicina veterinária empilhados, armas trancadas em um cofre disfarçado de móvel de canto. Depois de um banho demorado, vestiu uma camiseta velha do irmão Lucca que ela roubou anos atrás e foi até a cozinha preparar um chá. Quando ouviu a campainha tocar, parou, desconfiada. Ethan e Argo haviam saído. Solomon estava em reunião. Quem seria?pensou Aproximou-se da porta e olhou pelo olho mágico. Lá estava… um urso. Um urso de pelúcia gigante, encostado contra a parede do corredor. Ela arqueou a sobrancelha. “Deve ser um dos idiotas dos meus irmãos ” murmurou, destrancando. Mas ao abrir a porta… o urso era apenas um disfarce. Atrás dele, casual, parado como se fosse dono do mundo, estava Santiago Cantarellyn. De bermuda escura e uma camiseta branca que realçava o porte atlético. Cabelos ainda molhados. Um sorriso discreto nos lábios. E um olhar que dizia: sei que você está surpresa, mas vai fingir que não? Ela engoliu em seco. Quase deixou o olhar cair pelo abdômen dele... quase. Mas manteve o controle. Sua expressão foi de gelo. “Algum problema, delegado?” A voz saiu firme, quase entediada. Como se ele fosse apenas mais um incômodo. Santiago apoiou uma das mãos no batente da porta, relaxado. “Como disse, moro nesse prédio. Vim dar boas-vindas. É costume entre os moradores.” Ela cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha, como se dissesse sério mesmo? “Acha que estou mentindo?” Antes que pudesse responder, passos surgiram no corredor. Um casal idoso, uma mulher com um cachorro minúsculo, um rapaz com uma bandeja coberta por guardanapo. Em poucos minutos, a porta dela estava cercada por vizinhos sorridentes, cada um com um prato típico nas mãos. “Seja bem-vinda!” “Você é parente dos Scannell?” “Vai morar aqui de vez?” “Precisa de alguma coisa?” “Esse prédio é ótimo, seguro… e tem piscina aquecida.” Merda. Ela m*l teve tempo de reagir quando percebeu começaram a entrar. Em dez minutos, o apartamento já estava cheio de desconhecidos falando alto, rindo, sentando no sofá e na bancada da cozinha, admirando a decoração. O cachorro da vizinha já estava deitado no tapete. “Sim, vou morar aqui de vez,” respondeu com um sorriso social enquanto aceitava um pedaço de torta. “Trabalho com animais, sou veterinária e bióloga. E... advogada. Quando preciso.” As conversas fluíam. Todos pareciam amáveis, mas Heleonora sentia o olhar dele. Santiago estava ali. Em pé, ao lado da estante. Observando tudo. Observando ela. Horas depois, quando a última vizinha saiu com um beijo no rosto e o velho senhor agradeceu o café, a porta se fechou. Silêncio. Ela se virou… e lá estava ele. Santiago. Ainda ali. “Viu? Eu não estava mentindo,” disse ele, com um sorriso lento e provocante. “É tradição.” Heleonora apoiou-se na bancada da cozinha, mantendo a expressão impassível. “Seus irmãos vão morar aqui também?” ele perguntou, casual. Ela ligou o alerta interno. Aquele tom… aquele interesse mascarado... Ele estava sondando. “Não, delegado. Esse é o meu cantinho. Só meu. Algo mais?” Ele deu dois passos na direção dela, o olhar mais escuro do que antes. “É muito bonita para ser m*l-educada.” Ela não perdeu tempo. “E você muito velho para ser intrometido... e fofoqueiro.” Os dois ficaram em silêncio por um segundo. A tensão era elétrica. Os olhares trocados como lâminas afiadas, mas a respiração já traía. “Não sabia que gostava de homens mais velhos,” ele provocou, olhando para os lábios dela. “Não gosto, apenas fui educada com o sr Adolfo” ela rebateu, firme. “Mas às vezes, os mais velhos não sabem a hora de parar de se meter.” “E às vezes... os mais jovens não sabem quando estão sendo observadas com muito mais atenção do que merecem.” Ela sentiu o rosto esquentar não de timidez, mas de irritação e desejo confusos. Ele sabia onde acertar. Sempre soube. “Saia do meu apartamento.” Santiago apenas sorriu. Aquele maldito sorriso cínico. “Boa noite, Eleonora.” E saiu. Mas antes de fechar a porta, ela viu. Ele olhou por cima do ombro, só por um instante. Como se dissesse isso ainda vai acontecer entre nós. Ela trancou a porta com raiva. Mas ficou parada por um tempo, encarando o vazio. A boca seca. O corpo inquieto.
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