12 - O recomeço

2994 Words
*Amber Lee PoV* Fabian Caster foi preso e, surpresa ou não, ele tinha outros crimes nas costas. Pornografia infantil digital, fraude no imposto de renda, lavagem de dinheiro sujo… Até a polícia estava perplexa em como alguém com essa infinidade de crimes estava solto e gerenciando um negócio como se fosse uma pessoa honesta. Enfim, uma ficha tão grande que, somada às agressões que ele fez contra mim e Lauren, acho que ele nunca mais verá a luz do dia outra vez. O que é um alívio enorme. No entanto, sinto que devo algo a Alicia. Foi por minha causa que os crimes de seu marido foram revelados. Então, aqui estou eu diante da lanchonete, criando coragem para entrar, uma semana depois da agressão. Encho meus pulmões de ar, solto-o lentamente e cruzo a porta. A sineta anuncia minha chegada e o sorriso que Alicia tinha no rosto se desfaz ao me ver. Eu esperava que ela me enxotasse daqui à primeira vista, porém, ao invés disso, ela baixa o olhar e respira fundo, fazendo um gesto para eu me aproximar do balcão. ㅡ Quer um café, Amber Lee? Confirmo com a cabeça e ela nos serve duas xícaras com mãos trêmulas, enquanto me sento em um dos bancos. Tomo sua mão na minha e sorrio para ela tentando confortá-la. ㅡ Eu sinto muito, Alicia. De verdade. Ela suspira e apoia os braços cruzados sobre o balcão. ㅡ Não, Amber Lee. Quem te deve desculpas, sou eu. Sempre desconfiei que o meu marido não prestasse, porém eu nunca imaginei que ele pudesse… ㅡ Ela respira profundamente, demonstrando todo o estresse que sente. ㅡ Se eu tivesse feito alguma coisa, talvez você e sua amiga não tivessem sido agredidas. Mas, sempre foi tão difícil sair da sombra do Fabian… Eu espero que ele apodreça na cadeia. Só me sinto um pouco perdida agora. Eu a encaro com empatia. Não posso sequer imaginar como deve ter sido a vida ao lado de um monstro como aquele. ㅡ Você vai ficar bem, Alicia. Se você conseguiu suportar tudo isso, é porque é uma mulher muito forte. Tem o seu próprio negócio, não depende de ninguém. Mesmo que esteja no nome daquele traste, tenho certeza que o juiz vai te dar… ㅡ Oh, não, Amber Lee. A lanchonete, a casa, está tudo no meu nome. Assim como o acesso às nossas economias. O problema do fisco também foi resolvido e eu praticamente não tive qualquer prejuízo. É como se a vida dele tivesse sido desmembrada da minha, me deixando com a melhor parte. Eu arregalo os olhos com a surpresa que me toma. ㅡ Como isso é possível? ㅡ Não faço ideia. Acho que tenho um anjo da guarda muito forte. Nesse momento, eu me lembro da Lauren, do Rico e do amigo misterioso dele que me conseguiu uma entrevista de emprego na McGregor Corporation. Acho que anjos da guarda devem existir mesmo… ㅡ Mas, e você? Soube que perdeu o emprego no Butterfly. Agora, sou eu quem tem que lidar diretamente com os demais comerciantes e Jack me contou o que aconteceu. Ele quer evitar escândalos, por isso não te aceitou de volta. Se quiser, pode trabalhar comigo aqui. Fico tocada com sua oferta e quase deixo as lágrimas caírem. Seguro suas mãos entre as minhas com alegria. ㅡ Obrigada… Mas, eu tenho uma entrevista de emprego em duas ho®as na McGregor Corporation. Essa foi a única coisa boa que o seu marido conseguiu para mim. ㅡ Ex-marido. Já dei entrada no divórcio. ㅡ Seu sorriso terno me alcança de forma sincera. ㅡ Desejo toda sorte do mundo para você nesse seu recomeço, minha querida. Se precisar de qualquer coisa, sabe onde me encontrar. Eu a abraço por cima do balcão, nos despedimos e vou para casa me arrumar. Faço minhas unhas, cabelo e, principalmente, a maquiagem. Ainda tenho algumas marcas no rosto, que estão sumindo aos poucos. Não quero parecer ter levado uma surra, apesar de ter sido isso o que aconteceu, então cubro tudo muito bem com corretivo, base e blush. Visto um conjunto de blazer e calça preto que comprei especialmente para essa ocasião. Edward Mortimer, gerente do departamento de Marketing, é um homem no mínimo exuberante. Ele esbanja um charme natural e tem um jeito muito gentil de falar. A educação em pessoa. Seus olhos azuis e seu cabelo loiro claríssimo bem penteado me lembram uma divindade nórdica. No entanto, já tive a minha cota de homens por toda uma vida. Prefiro o celibato eterno a ter que me envolver com alguém novamente, muito menos um colega de trabalho. Ele está analisando meu currículo, que não é lá grande coisa para esse ramo. Dedilho meus dedos nervosamente sobre o colo. Não há tanta informação assim, acho que ele está apenas fazendo pressão psicológica. Após alguns minutos, ele coloca meu currículo sobre a mesa, cruza as mãos sobre o colo e finca seu olhar em mim. ㅡ Pelo o que vejo, você não tem experiência alguma, certo? ㅡ Sim, senhor Mortimer. Porém, sou dedicada e aprendo rápido. Só preciso de uma oportunidade. Eu tive as maiores notas da minha turma na faculdade da Pensilvânia. ㅡ Que é uma faculdade com um dos melhores cursos de Marketing do país. Estou impressionado por ninguém ter te fisgado antes. Talvez, seja o meu dia de sorte. E o seu também. Vamos fazer assim. Você ficará em experiência por trinta dias. Aprenderá a rotina do setor e conhecerá nossa carteira de clientes. Vou colocá-la junto com o Henrico Gonzalez, que está conosco há alguns anos. Como você já o conhece, creio que não terá problemas para se enturmar. Se você se sair bem ao final do primeiro mês, será efetivada. Espremo meus lábios na tentativa de suprimir o choro, porém é inútil. Cubro minha boca com uma das mãos para conter os soluços. O senhor Mortimer se apressa em se levantar e me oferece uma caixa com lenços de papel. Eu pego alguns e tento limpar a bagunça que deve estar no meu rosto. ㅡ Desculpe, senhor Mortimer! Eu nem sei como agradecer pela oportunidade! ㅡ Dê o seu melhor e tenho certeza que irá longe. Sabe, eu não sou um chefe intangível. Todos os meus funcionários me chamam pelo primeiro nome. Acho que o ambiente fica mais leve sem todas essas formalidades. ㅡ Ele me estende a mão e eu me levanto para segurá-la com firmeza. ㅡ Bem vinda à McGregor Corporation, Amber Lee. ㅡ Obrigada, sen… Edward. Você não vai se arrepender. ㅡ Bom, vamos ao tour pelo setor? Vou mostrar a sua estação de trabalho. Depois, pode levar a sua documentação diretamente para o setor de RH. Ele me guia para fora de seu escritório e fala sobre o setor. Além das propagandas para a própria empresa, a McGregor Corporation também faz campanhas externas para parceiros. O trabalho é bem extenso. Os funcionários são divididos em pares e ele me leva para uma área mais ao fundo do andar onde vejo duas posições. Uma está vazia e, na outra, vejo Rico. Eu fico imensamente feliz por vê-lo, assim como ele. ㅡ Ojitos! ㅡ Rico! Eu tenho plena consciência que estamos no local de trabalho, portanto estendo a minha mão para ele. Já Rico parece sempre estar a passeio, não importa o lugar, e me abraça forte. Ele só me solta mediante Edward limpar a garganta. ㅡ Henrico, coloque Amber Lee a par de como as coisas funcionam por aqui. Rico presta continência para o nosso gerente, que revira os olhos e se retira. Olho para a mesa vazia com uma sensação de total satisfação. Eu me sento na cadeira com rodinhas e passo a mão pela tela do computador. Ainda não consigo acreditar! Meu amigo traz sua cadeira para perto da minha para me mostrar o sistema e eu não consigo evitar a pergunta. ㅡ Rico, quem é o seu amigo que me ajudou? Ele desvia seu olhar para o lado um momento, como ponderando se deve me contar ou não. Isso me deixa preocupada. ㅡ Sinto muito, ojitos. Porém, eu prometi que não contaria. Promessa é dívida. Ele dá de ombros como se não tivesse importância a identidade desse benfeitor misterioso. Eu fico encucada. ㅡ Como pode isso? Ele ajuda uma estranha e não quer nada em troca? Nem mesmo um "obrigado"? Olha, eu estou escaldada demais para acreditar em anjos. Os olhos dele suavizam e ficam tristes. Eu suspiro forte. ㅡ Eu sinto muito pelo o que você passou. Mas, existem boas pessoas no mundo, nem todos os homens são horríveis. Você deu azar. Sabe, o meu amigo não é lá um primor de gentileza, ele é super desconfiado e, por isso, é uma pessoa muito reservada. Mas, é um cara com quem a gente pode contar até debaixo d'água. Tenho certeza que vocês vão se dar bem no dia que se conhecerem. Eu pisco algumas vezes, tentando absorver o que ele me disse. Concordo com a cabeça e me concentro nas explicações que ele me dá sobre o trabalho. Porém, no fundo, fica a dúvida. Ninguém é santo. Talvez, esse cara cobre seu favor mais para frente. Seja como for, não vou me deixar enganar de novo. Nós almoçamos no Butterfly. A senhorita Mace fica muito contente em saber que estou trabalhando na McGregor Corporation. De certa forma, ela se sentia culpada por não ter conseguido reaver meu emprego, contudo as coisas acontecem por uma razão. Mesmo algo tão horrível quanto o que eu passei serviu para me mostrar um novo caminho a seguir. Um que não vou desperdiçar por nada nesse mundo. No meio da tarde, levo minha documentação para o RH. Há uma secretária, com quem deixo minha papelada e ela diz que entregará à gerente. Assim que me viro para sair, o elevador chega e eu corro para pegá-lo. Acabo trombando com quem estava saindo e simplesmente não posso acreditar. A mulher com quem esbarrei naquele dia no meio da rua está diante de mim, me fulminando com o olhar. A maluca da bolsa! ㅡ O que você pensa que está fazendo aqui? Esta é uma empresa privada, não um ringue de luta livre, onde qualquer ordinária sem educação possa entrar! ㅡ Eu… Eu… Fico tão chocada, que minha língua trava dentro da boca. A secretária é quem me apresenta. ㅡ Ela é a nova funcionária do senhor Mortimer, senhorita Smith. Ele pediu que ela trouxesse sua documentação. ㅡ Jura? O brilho maquiavélico em seus olhos de gato me causam arrepios. Ela pega os meus papéis e os examina com desdém. Ergue as duas sobrancelhas, com a maldade estampada em sua face. ㅡ Bom, se o Edward aprovou "isso", não há nada que eu possa fazer. Tenho certeza que você deve ter outros "atributos" que compensem a sua falta de… Tudo, não é mesmo? Eu quero varrer seu sorriso cínico com a minha mão, no entanto ela é uma gerente. Eu sou apenas uma novata. Uma ninguém. Se eu me meter com ela, posso acabar sendo despedida antes de começar. Respiro fundo, cravando as unhas nas palmas das mãos. Quando vou abrir a boca para responder, o elevador soa novamente e Edward sai dele. Ele nos encara com um grande sorriso. ㅡ Vejo que já conheceu a minha mais nova funcionária, Katherine. Ela é bem promissora. ㅡ Oh, Edward… ㅡ A mulher se derrete para cima dele, como manteiga em um pão quentinho. ㅡ Você é sempre tão generoso… Não acha que está se arriscando com essa garota desqualificada? O quê? Ela está tentando me boicotar? Só por cima do meu cadáver! ㅡ Perdão, senhorita Smith, mas creio que essa é uma decisão que cabe apenas ao meu gerente, não é mesmo? Ela ainda está agarrada ao antebraço dele, quando seu olhar fulminante me atravessa. ㅡ Não me lembro de ter te dado permissão para falar, senhorita Taste. Edward então se desvencilha dela, com um semblante aborrecido, o que a deixa muito sem graça. ㅡ Katherine, Amber Lee é minha funcionária e ela está coberta de razão. Apenas faça a admissão dela. Não estamos em uma ditadura, todos podem expor suas opiniões, desde que seja de forma respeitosa. ㅡ Claro, Edward. Bom, vou cuidar do contrato dela. Pode se juntar a mim para me dizer exatamente do que se trata? Ela balança os cílios para ele, que logo desfaz a carranca. Quando ela passa por mim, me dá um olhar assassino, antes de entrar em sua sala, seguida por Edward. Eu suspiro aliviada e saio rapidamente. Ela quer explicações sobre o meu contrato de trabalho? Humpf! Sei muito bem o nome disso. Oh, Senhor! Por que eu tinha que ganhar a inimizade justamente da vadi@ de plantão? Pelo menos, mesmo que Edward pareça ter uma queda por ela, ele não se deixa influenciar. Volto para o meu setor e deixo meu corpo cair sobre a cadeira. Rico se aproxima com a dele e fica me encarando. ㅡ Ojitos, o que você tem? Parece até que viu um fantasma. Eu bufo e tento me recompor. ㅡ Um fantasma, não. Um poltergeist! Acabei de conhecer a gerente do RH… Ele olha para os lados e se aproxima um pouco mais. ㅡ A vaca da Katherine? Quase engasgo ao tentar conter a risada. ㅡ Vaca? ㅡ É o apelido dela na boca pequena. Só não a deixe te escutar chamando-a assim, viu? Estreito meu olhar sobre seu semblante brincalhão. Não nos conhecemos há muito tempo, porém não me lembro dele ter falado de uma namorada ou coisa do tipo. Ele é homem, então não entendo porque ele não parece tão encantado quanto Edward na vaca. ㅡ Você não acha ela atraente? Digo, tem aqueles peitões e tudo mais. Ele estala a língua, desprezando a imagem dela. ㅡ Deve ser legal para jogar um futebol, mas é só isso. Ela não tem conteúdo nenhum, é maldosa e fútil. Só dá valor para os caras ricos, dos quais ela possa tirar alguma vantagem. Nem eu, nem o meu amigo Mi… Rico se interrompe e eu arregalo os olhos. ㅡ Mi…? Você ia dizer o nome do seu amigo que me ajudou? Ah, por favor! Fala o nome dele! É Miguel? Miller? Ele ri dos meus palpites, que provavelmente estão todos errados. Eu suspiro frustrada. ㅡ Você é uma chica muito curiosa, viu? Vamos trabalhar? Não insisto mais só para não deixá-lo constrangido, porém tenho certeza que, se ele mudou de assunto, é porque ele realmente ia entregar o nome do cara que me ajudou. Eu ainda vou descobrir. Sou paciente. O restante do trabalho corre sem mais problemas e eu me adapto muito bem. Edward adorou todas as minhas ideias. Eu sempre tive uma enorme sensibilidade nesse ramo, por isso foi minha segunda opção de carreira. A primeira sempre será a música. Depois daquele dia tocando no restaurante, uma chama se acendeu dentro de mim. Mesmo que em casa eu ainda não consiga encostar no teclado, eu sei que a música permanece viva aqui dentro. Em algum lugar. Rico me oferece uma carona para casa, contudo fico apavorada por ser numa moto. Eu rejeito educadamente, com a desculpa de ir andando para espairecer do estresse do encontro com Katherine. Enquanto caminho pelo bairro de Hell's Kitchen para ir para o meu prédio, passo por um lugar bem barra pesada. Parece uma boate, porém só vejo homens entrando. Deve ser um pro$tíbulo, isso sim. Uma garota que m@l vejo o rosto passa correndo por mim e esbarra no meu ombro, quase me derrubando. Ele nem pára, continua seus passos apressados e grita um "Desculpe!", sem olhar para trás. Está com um longo sobretudo preto, o que é comum no inverno, porém o que me chama mesmo a atenção, são as tranças nos longos cabelos ruivos, um tom um pouco mais claro que o meu. Ela é alta, tem porte, mas quando a vejo entrar pela lateral daquela boate, entendo tudo. Mais uma coitada que ganha a vida vendendo o corpo. Eu arrepio com o pensamento. Jamais teria coragem de me pro$tituir, porém quem sou para julgar? Dei sorte de encontrar um emprego decente e estável e só eu sei como foi difícil. Nem todo mundo tem um benfeitor que lhe estenda a mão. Mylla já está arranhando a porta quando eu uso as chaves para abri-la. Eu a pego no colo e a cubro de beijos. Olho para o meu teclado em seu suporte no canto da sala, enquanto acaricio minha bichana. É quando lembro daquela presença, daquele homem misterioso me observando da vitrine do restaurante. Quem será você? Eu sorrio com a minha bobagem. Tantos homens estranhos e diferentes me rondando. Primeiro foi aquele idïota no parque, depois esse admirador misterioso e então veio o amigo do Rico… Jogo-me no sofá, segurando Mylla na altura do meu rosto, e encaro seus olhos verdes. ㅡ Então, filhota? A mamãe está cercada de homens que ela nem conhece, mas que não saem da cabeça dela. Não é esquisito? Ela mia e lambe o meu nariz. Eu rio de mim mesma. ㅡ Eu sou a louca dos gatos! Mesmo que tenha apenas uma! Meu celular vibra no bolso da minha calça e deixo Mylla no chão para atender. Fico feliz por ver o número da Lauren. ㅡ Amiga! Rico me disse que conseguiu o emprego! Como você não me conta uma novidade dessas? Temos que comemorar! Pego você em uma ho®a! Eu fico sem palavras. Bom, quase. ㅡ C-como assim? ㅡ Eu, você e o Rico! Balada no Star Club! ㅡ Lauren, espera… Eu… ㅡ Sem desculpas, mocinha! Considere-se sequestrada! Até daqui a pouco! Ela desliga e eu fico encarando meu celular com cara de idïota. Um sorriso crescente começa a se formar nos meus lábios. Amiga… Eu tenho uma amiga… E um amigo também… Então, olho a ho®a no meu celular e pulo do sofá assustada. ㅡ Eu tenho que me arrumar!
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