*Michael PoV*
Pego um táxi do aeroporto direto para o pub onde vamos tocar essa noite, O Grito. Levamos uma eternidade para chegar. Ainda bem que não sou mulher. Apenas meia ho®a para me arrumar seria o caos.
Trânsito miserável! Bem vindo de volta ao lar, Michael!
Paramos nos fundos do lugar e já vejo Rico e Pete descarregando a van com os equipamentos, enquanto saio do veículo e pago a corrida. O segundo, apesar de loiro, sua pele bronzeada não n&ga sua paixão pelo surf. Perto deles, sou tão corado quanto uma vela branca.
Cumprimento meus amigos e Rico me entrega as chaves do meu carro que eles trouxeram. Abro o porta-malas, despejo minha bagagem nele e sigo para o interior do estabelecimento rapidamente me arrumar. Vamos ter tempo para conversar depois. Tomo um banho rápido no camarim e, após vestir a calça e calçar minhas botas, lembro-me de que não vi o case da minha Telecaster lá fora.
Que o Pete não a tenha esquecido...
Saio apressado, sem camisa mesmo, e sigo para a área do backstage.
Talvez, ele a tenha deixado lá.
Apesar da penumbra, percebo um vulto passeando pelo local. Escondo-me nas sombras e identifico os contornos de uma garota, só não consigo ver seu rosto direito.
Era só o que me faltava. Como deixam uma tiete invadir essa área? Ninguém a viu passar?
Só então noto que ela se comporta de forma diferente. Não parece estar procurando por ninguém, como sempre é o caso das fãs abusadas. Está observando os equipamentos, os fundos do palco. Sua postura é de uma admiração nostálgica ou algo assim.
A luz tênue dos bastidores revela o vermelho de seu cabelo comprido com franja. Sua roupa não condiz com a de uma tiete. Não está vestida para "matar", como as outras. Usa apenas uma calça jeans e uma camiseta básica. Entretanto, é de uma beleza ímpar, apesar de emanar uma doce inocência, em um corpo estonteante. S&ios volumosos, pernas torneadas, uma bund@ empinada perfeita. Eu poderia bater com o carro se a visse na rua.
Quem é você? Parece tão familiar… Será?
Ela lembra muito aquela ruiva que ouvi tocando no Butterfly, meses atrás.
Se for, talvez tenha vindo com o Rico e isso justificaria sua presença aqui. Eles se tornaram amigos, até onde eu sei. Após tanto tempo, podem ter se tornado algo mais.
Esse pensamento me causa tanto tristeza quanto raiva, tudo de uma vez.
Eu não sou fura-olho de amigo. Não vou me meter na relação deles, caso eles tenham alguma. No entanto, se ela estiver sozinha…
Fico surpreso com a ideia que se passa na minha cabeça. Nunca me interessei por mulher nenhuma, era só s&xo de uma noite, duas no máximo, e somente se ela fosse muito gostosa. Contudo, essa ruiva faz algo dentro de mim vibrar. Eu admiro sua silhueta passeando pela penumbra do lugar, enquanto penso em como me aproximar.
Há um teclado no canto, provavelmente de alguma outra banda. Rob, o dono daqui, sempre permite que os músicos deixem algum instrumento para quando precisarem. Vejo seus dedos esguios e delicados acariciando as teclas e ela libera um pesado suspiro, como se tivesse um grande peso sobre os ombros. De qualquer forma, me pego desejando que ela o toque, como naquele dia, apenas para deixar minha alma viajar em sua música.
A garota se afasta do instrumento e sua atenção vai para uma outra área. Não consigo ver o que ela tanto olha, pois está de costas para mim, impedindo a visão. Ao menos, sua bund@ perfeita está à vista para a minha apreciação.
Garota, o que eu não faria com você na cama…
Meu desejo aumenta ao vê-la e se curvar para examinar melhor o objeto no canto da parede. Acho engraçado quando ela fala com o que quer que esteja encarando.
ㅡ Quem te deixou largada aí? É até um pecado um instrumento tão bonito abandonado desse jeito desleixado. Uma antiguidade dessas deveria ser tratada com respeito.
Concordo plenamente com ela. Um instrumento é como a extensão de seu músico. Pelo menos, é como me sinto com a minha guitarra.
Ela se move para pegar o instrumento e o encanto que senti até esse momento é totalmente despedaçado ao notar que é a minha Fender. Pete a trouxe e deixou largada naquele canto.
Porr@! Não!
Apesar do cansaço da viagem, salto sobre ela para afastá-la e nos chocamos contra a parede.
Não estou nem aí! Essa imb&cil não vai tocar na minha Telecaster!
Seguro bem firme seu pulso esquerdo, cravo minha outra mão em sua cintura e pressiono meu corpo contra o dela para evitar que fuja. Estou com tanta raiva e tão estressado, que faço força para me lembrar de que é uma mulher. Caso contrário, já a teria esmurrado pela audácia.
Travo sua passagem colocando uma perna no meio das dela. Posso assim soltar sua cintura e apoio o punho cerrado ao lado de sua cabeça.
Isso vai intimidá-la e ensiná-la a nunca mais mexer no que não é dela!
Ela se debate e começa a gritar por socorro de uma forma tão desesperada, que eu até me assusto. Então, me lembro da situação que ela passou, do que Fabian fez com ela, de como chorava nos braços de Rico no hospital, e a culpa me invade.
Merd@...
Eu a solto e dou um curto passo para trás, mantendo meus braços abertos em sinal de rendição, para mostrar que não sou uma ameaça.
ㅡ Olha, eu não queria te assustar, mas você foi mexer no que não é seu…
A garota está tão apavorada, que seu corpo todo treme enquanto ela se abraça, chorando compulsivamente. É de partir o coração. Decido me aproximar para ver se ela está bem, talvez eu a tenha machucado com a força do impacto. Não pensei em mais nada a não ser impedi-la de tocar na minha guitarra. Grande erro. Assim que toco seu queixo gentilmente e o ergo, seus olhos cor de jade se prendem aos meus. Vejo refletida neles a mesma surpresa que sinto por reconhecer a doida dos cachorros. Nossas vozes saem ao mesmo tempo.
ㅡ Você!