14 - Um devorador de corações

2490 Words
*Amber Lee PoV* Eu me adaptei rápido ao ritmo da McGregor Corporation. Tenho realmente um talento para o ramo. Rico é extremamente competente e, juntos, somos a melhor dupla do departamento de Marketing. Eu precisava dividir minha alegria com alguém. Com a família que deixei para trás. Acho que está na ho®a de enfrentar o passado… Eu disco o número do meu pai roendo uma unha. Ele leva algum tempo para atender e estou quase desistindo quando finalmente ouço a voz dele. ㅡ Alô? ㅡ Oi… Pai… Ele fica em silêncio por intermináveis segundos, porém posso identificar conversas e música instrumental ao fundo. Ele está em uma festa? ㅡ Amber Lee? ㅡ Percebo o barulho diminuir e ouço o clique de uma porta fechando. ㅡ Por Deus! Faz ideia do quanto ficamos preocupados, mocinha? Onde você está? A severidade em seu tom é esperada. Eu engulo em seco e tento me explicar. ㅡ Eu estou em Nova Iorque… ㅡ Nova Iorque? Você perdeu a cabeça? O que está fazendo nesse lugar? ㅡ O que eu sempre quis fazer. Correndo atrás do meu sonho. Olha, eu estou bem, tenho um emprego fixo na… ㅡ Sonho? É a porcaria da música de novo? Quantas vezes eu já disse que você tem uma empresa para assumir? E o seu namorado? Eu não quero saber de mais nada! Você vai pegar o primeiro avião de volta agora! Vou comprar a passagem e… Estou me esforçando para não explodir em lágrimas, contudo meu pai está fazendo o que sempre fez. Nunca houve uma única coisa que eu pudesse decidir por mim mesma. Tudo sempre foi determinado por ele e minha mãe e, depois, pelo Kevin. Jamais pude opinar ou escolher, fosse com relação a minha carreira ou a minha vida amorosa. Estou farta disso! ㅡ Não. ㅡ Como é que é? ㅡ Não, pai. Eu vim para cá com um propósito. Encontrar meu destino. Encontrar minha música. Ser livre. ㅡ Você é igualzinha a sua avó! Música é só um devaneio, minha filha. Não tem futuro algum. Você é minha única herdeira e Kevin será um excelente marido. Se você não voltar, juro que mando alguém te buscar! ㅡ E eu juro que fujo de novo, mesmo que seja para a Sibéria! O senhor não entende e se recusa a me escutar. Igual a mamãe! Eu não sou mais criança! Sou dona do meu próprio nariz e, quer o senhor goste ou não, eu não tenho interesse na sua mineradora ou no homem que vocês escolheram para eu me casar! ㅡ Amber Lee Taste! Ou volta agora, ou considere-se deserdada! Vivi esses meses todos sem essa m@ldita herança. Sobrevivi ao custo do meu próprio suor. Aquela empresa não significa nada para mim. ㅡ Não se preocupe, pai. Tenho um emprego, tenho amigos, tenho uma vida aqui. Não preciso do seu dinheiro. Eu só gostaria que vocês entendessem e respeitassem isso. Que fizessem parte… ㅡ Fazer parte do quê? Dessa sua loucura juvenil tardia? Amber Lee, você é uma decepção… Não conte comigo, nem com sua mãe, nesse seu delírio! Você está por conta própria! Em seguida, o barulho da ligação interrompida me faz estremecer. Achei que não tivesse mais lágrimas para chorar por causa da minha família. Eu estava enganada. A falta de apoio, de incentivo, de liberdade, tudo dói. Sempre vai doer. Respiro fundo e sigo para janela. O frio é intenso, chove bastante, causando um infe®no no trânsito. Um infe®no também me consome por dentro. No entanto, minha decisão está tomada, mesmo que meu coração sangre no meu peito. Pai… Mãe… Adeus… Rico e Lauren se tornaram meus melhores amigos, algo que eu jamais sonhei conseguir por mim mesma. Estamos sempre juntos, seja para um almoço ou para uma saída divertida no final de semana. Lauren também adora patinar e redescobri com ela essa alegria. O Natal e o Réveillon com eles foram fantásticos. Eu não imaginava que essas festas poderiam voltar a ter algum p®azer para mim depois da morte da minha avó. Abandonei completamente meu trabalho como babá de cachorros, o horário simplesmente não batia com o da empresa. Não me arrependo. Até que eu consiga superar minhas pendências e voltar a tocar, pelo menos meu futuro está garantido. Principalmente, após ser efetivada. ㅡ Você tem certeza, Lauren? Encaro minha amiga, enquanto ela pinta minhas unhas dos pés. Ambas estamos de roupão, toucas com creme massageador nos cabelos e máscaras verdes hidratantes nos rostos. Estou sentada no sofá e ela no carpete, rodeada de apetrechos para a tarefa de pedicure. É uma noite das garotas. Fazemos isso a cada quinze dias e nos produzimos para nós mesmas. Assim como eu, Lauren é desconfiada quando o assunto é o s&xo oposto. Mas, temos maneiras diferentes de lidar com isso. Enquanto eu me afasto de qualquer possível romance, ela os devora e os joga fora como chicletes mascados. ㅡ Bom, o Rico tem muitos amigos, não sei quem poderia ser o cara que te ajudou. Ela mantém sua atenção no esmalte vermelho que passa na unha do meu dedão. ㅡ Não deve ser uma lista tão grande assim. Ele com certeza trabalha na empresa. ㅡ Rico é amigo de metade das pessoas no trabalho. É o tipo de cara que está sempre de alto astral e que se enturma fácil. Você não teria uma outra pista? Ela me encara e eu paro para pensar. Então, me lembro de algo que ele deixou escapar uma vez. ㅡ Começa com Mi! ㅡ Mi? ㅡ É. O nome do cara. Lauren batuca com o indicador nos lábios, pensando no assunto. ㅡ Deve ter uma meia dúzia de homens chamados Miguel espalhados em vários setores. Tem um segurança de nome Milo, que sempre fica de olho na moto do Rico. Lembro de uns três chamados Milton, mas nem sei se o Rico os conhece. Há até um Michelangelo, enfermeiro no setor médico, cujo chefe é o doutor Mikelly. Tem também o Michael, desenvolvedor chefe do setor de Tecnologia. Fora os que eu desconheço. Enfim, é muita gente. Eu suspiro frustrada e viro meu olhar para a janela. Está chovendo torrencialmente e os relâmpagos cruzam o céu noturno desse mês de março com certa frequência. ㅡ Qual deles é mais próximo do Rico? ㅡ Ah, definitivamente é o Michael. Os dois se auto adotaram como irmãos faz muitos anos, se conhecem desde a adolescência. Mas, ele não faz o tipo salvador da pátria, então duvido que tenha sido ele. ㅡ Por quê? ㅡ Ele é um cara legal e um pé no saco ao mesmo tempo. É irritantemente debochado, arrogante e sarcástico. Acho que ele usa isso para afastar as pessoas, não é nada sociável. Vive entocado em seu escritório, cercado por seus computadores, como o bom nerd que é. Sou educada sempre que o Rico traz ele a tira-colo, quando milagrosamente consegue fazê-lo sair conosco, mas há momentos em que quero esganá-lo. ㅡ Ele é bonito? Amber Lee, de onde você tirou isso? ㅡ Ah, amiga, muito bonito. Também é sexy como o pecado e sua aparência rebelde é um charme extra. E tem um corpo que, misericórdia, eu o teria para o café da manhã, almoço e jantar sem reclamar! Mas, eu estou fora. Ele não faz o meu tipo. O jeito como ela fala dele me deixa inquieta. Fico imaginando se suas palavras não são para apenas esconder alguma atração que tenha por ele e não gosto disso, não sei nem por qual razão. ㅡ Se ele é tão bonito quanto diz, por que não faz o seu tipo? ㅡ Bom, ele só veste preto, crucifixo no pescoço, tem um cabelão preto lindo de dar inveja e os olhos azuis mais belos que já vi. E a voz… ㅡ Ela até se abana e eu acho graça, no entanto a descrição que ela deu me soa familiar de alguma forma. ㅡ Ele tem uma banda de metal progressivo, Everlasting, é o vocalista e guitarrista. Amiga, quando ele está no palco, é divino. Porém, ele é muito sombrio para o meu gosto. Fora que, sem tem uma coisa que o Michael não faz, é "interagir" com funcionárias. ㅡ Se ele abrisse uma exceção, você cairia em cima dele? Minha curiosidade me denuncia e Lauren estica um olhar desconfiado na minha direção. ㅡ Por que esse interesse nele? Eu também queria saber… ㅡ Por nada, você falou tanto dele que fiquei curiosa. ㅡ Então, dou uma leve guinada na conversa. ㅡ Nerd e metaleiro? Não é meio contraditório? Minha amiga apenas dá de ombros e continua seu trabalho nos meus pés. Michael… Um lindo nome. De anjo, inclusive. Então, me lembro daquele admirador misterioso na vitrine do restaurante e a descrição que ela deu parece se encaixar como uma luva. Eu salto do sofá e começo a perambular pela sala sob os protestos de Lauren. ㅡ Meu bem, assim você vai borrar o esmalte! ㅡ Lauren, por acaso esse Michael foi ao Butterfly no dia em que eu toquei? ㅡ Nós chamamos, entretanto, para variar, ele recusou. Por quê? ㅡ Porque eu tive a impressão de ter visto alguém exatamente como você descreveu me observando pela vitrine! Digo, não vi o rosto, mas ele parecia tão encantador… Lauren me interrompe sacudindo a mão, dispensando minha opinião. ㅡ Não delire, querida… Michael pode ser esquisito, mas não creio que ficaria na rua, no frio do inverno, vigiando uma estranha. Ainda mais sendo mulher. Franzo a testa, intrigada. ㅡ O que tem a ver eu ser uma mulher? Ele é gay? ㅡ Gay? Pelo contrário! Eu nunca vi alguém colecionar tantas garotas. Ele é um devorador de corações e deve trocar de mulher mais vezes que troca de cueca. Um cara assim não dá valor para nenhuma. Come e joga fora no momento seguinte. Minha carranca aumenta e eu não quero quebrar a bela imagem que tenho daquele estranho misterioso, achando que ele possa ser esse tal Michael, que descarta mulheres como se fossem guardanapos. É melhor eu manter distância desse cara. Lauren dormiu no meu apartamento, por causa do clima horroroso, e nós dividimos a minha enorme cama. Conversamos até tarde e ela me convenceu a assistir ao show de reestreia da Everlasting amanhã a noite, pois o tal Michael vai retornar de uma viagem de negócios direto para o palco. Eu preferiria ficar longe desse homem, porém a ideia de ir a um show de graça com meus amigos é bem empolgante. Rico sempre consegue ingressos VIP para quem ele quiser levar. Privilégio de ser amigo do líder da banda. Minha amiga me pega de carro para irmos ao show e Rico já está empolgado, batucando no painel do carro, enquanto sento no banco de trás. A insatisfação da Lauren é hilária. Principalmente quando ela reclama da minha roupa simples. Vamos a um show que, segundo ela, te faz pular o tempo todo com a música. Eu não vou paquerar ninguém, então camiseta branca básica e calça jeans é o que vai ser, mesmo sob os protestos dela. O pub é bem diferente do que eu imaginava, com a decoração toda voltada para o rock, porém é lindo. O dono também é muito atencioso. Rob costuma atender mesas, apesar de ter garçons para isso, pois ele gosta do calor humano. É um senhor muito simpático, com sua barba farta e bandana na cabeça. ㅡ Eu vou ajudar o Pete a descarregar os equipamentos. Ele já chegou e está todo enrolado. ㅡ Oh, eu posso ajudar? ㅡ Tem muito material pesado, ojitos. Vai borrar suas lindas unhas. Dou-lhe um soco no peito e ele ri abertamente. Foi como uma brisa passando por um poste. Eu decido ser sincera. ㅡ Na verdade, eu quero mesmo é ver o backstage, saber como são os bastidores de um show… Capricho nos meus olhinhos pidões e até balanço os cílios. Ele não resiste e decide me levar. Lauren se recusa a nos acompanhar, pois prefere curtir sua bebida e ver o que há no "cardápio" masculino hoje. Conheço Pete Conrad, o baterista da Everlasting. O cara é bonito, vou confessar. Nova Iorque deve ter a maior quantidade de homens sexy por metro quadrado do planeta. Porém, eu não estou interessada. Acho engraçado quando ele deixa suas baquetas comigo. ㅡ Pode dar um beijo nelas? Tenho certeza que vai me dar sorte. Como negar esse pedido para esses belos olhos verdes claríssimos? Beijo suas baquetas e as seguro contra o peito, enquanto ele e Rico saem pelos fundos para buscar o resto dos equipamentos. Fico zanzando pelo backstage, que não é muito iluminado. Contudo, posso ver diversos instrumentos e amplificadores espalhados. Uma nostalgia enorme me invade, uma saudade imensa da música que foi arrancada de mim e que luto diariamente para ter de volta. Vejo um teclado e passo uma mão por suas teclas. É como se o instrumento falasse comigo e me implorasse para tocá-lo. Eu suspiro pesadamente e me lembro da conversa com meu pai semanas atrás. Nunca mais nos falamos. Kevin tentou contato, certamente meu pai comentou com ele que liguei, mas eu não atendi. Não queria mais acusações e julgamentos. Até o bloquiei. Quando eu me viro, vejo uma linda guitarra abandonada em um canto escuro. Ela é toda preta, com detalhes em azul-marinho, parece antiga, porém o estado de conservação é primoroso. Não entendo como possa ser deixada assim, de qualquer jeito, correndo o risco de ser atingida por alguma coisa. ㅡ Quem te deixou largada aí? É até um pecado um instrumento tão bonito abandonado desse jeito desleixado. Uma antiguidade dessas deveria ser tratada com respeito. Eu sorrio para mim mesma, pois estou conversando com um objeto, igual converso com a minha gata. De qualquer forma, decido colocá-la em um local mais seguro. Antes que minhas mãos possam tocá-la, uma força me tira do chão e me pressiona contra a parede. Quase perco o fôlego. Então, há essa forte presença masculina me mantendo cativa, o que me leva de volta às memórias daquele dia no beco atrás do Butterfly. O desespero que se abate sobre mim é monstruoso e tento me livrar e pedir socorro. Acho que o cara se assusta, pois logo me solta e se afasta um pouco. Ele fala alguma coisa, contudo, no meio da minha revoada de lembranças horríveis e batidas frenéticas do meu coração, não consigo ouvir. Só consigo chorar de soluçar, me abraçando para confortar meu corpo trêmulo. Sinto um dedo erguer meu queixo e abro lentamente meus olhos. É como se eu estivesse dominada por esse homem estranho e seu toque gentil me acalma de uma forma muito incomum. Ele está sem camisa, revelando músculos do peito perfeitamente esculpidos. Seu perfume me atinge, revelando notas de lavanda e pimenta. É rústico, refrescante e envolvente ao mesmo tempo. Porém, quando encontro seus penetrantes olhos azul-gelo, eu reconheço de imediato o idïota do parque. Nossas vozes saem em uníssono. ㅡ Você!
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