11 - O retorno

2163 Words
*Michael PoV* ㅡ O senhor deseja algo para beber? ㅡ Um uísque. Respondo sem levantar meus olhos da tela do laptop. A comissária de bordo coloca minha bebida sobre a mesa. Uma mesa enorme, diga-se de passagem. Porém, o que eu poderia esperar do jato particular do McGregor? Felizmente, não tive que me espremer na classe econômica de um voo comum. ㅡ Mais alguma coisa, senhor Denver? ㅡ Quando pousamos em Nova Iorque? ㅡ Ainda faltam três ho®as para chegarmos. Será dezoito ho®as no horário local. Suspiro lentamente, retirando meus dedos do teclado e recostando na poltrona. Meu olhar se perde na paisagem diurna através da pequena janela. Eu apenas confirmo com a cabeça e ela se retira, empurrando seu carrinho de bebidas e petiscos. Só para não perder o costume, dou uma conferida rápida em seu traseiro. Nada m@l… Apesar do requinte, não consigo ingerir nada. As cenas que vi durante minha estada na África ainda me revoltam o estômago e me tiram o sono. Não sou um agente de campo, porém eu precisava ver por mim mesmo. Como podem existir pessoas tão horríveis? Tão c®uéis? Nos últimos três meses, estive fazendo a implementação de uma nova rede para as filiais da empresa na Europa e Ásia, além de um projeto particular na África. Essa última escala foi a mais perturbadora. Havia rumores de uma das concorrentes da McGregor Corporation estar envolvida com tráfico e trabalho escravo infantil. Infelizmente, posso dizer que não eram apenas rumores. O meu celular toca e eu o atendo prontamente. ㅡ Michael, como está o voo? ㅡ Muito confortável. Vou querer um desses para fugir das fãs quando estiver famoso. ㅡ Claro... ㅡ Minha piada parece ter surtido efeito, já que ele dá uma rápida risada. No entanto, ele limpa a garganta e vai direto ao ponto. ㅡ Descobriu algo interessante sobre nossos amigos? ㅡ Preciso de mais dados, porém posso dizer que suas fontes não estavam tão enganadas assim. É nojento. ㅡ Entendo. Você tem como conseguir as informações que precisa? ㅡ Hei, esqueceu com quem está falando? Tenho contatos que com certeza me darão alguma direção. ㅡ Está certo. Vamos conversar melhor na segunda pela manhã. Tenha um bom voo. ㅡ Obrigado. Ao desligar, coloco o celular sobre a mesa e abro um segundo laptop. Esse é pessoal, onde faço minha "mágica". Inicio o programa de mensagens, insiro meu login e senha e aguardo a conexão. Leahcim: Preciso de informações sobre o Grupo MEI. Espero alguns segundos antes de receber alguma resposta. Nada muito reconfortante, como eu suspeitava. Duas janelas de mensagens privadas surgem. Ambas de hackers com os quais mantenho contato há alguns anos. Shadowpath: Perigoso demais. É o caminho para a morte. Leahcim: Sei me cuidar. Shadowpath: Já ouvi isso antes. A segunda mensagem é mais produtiva. Lightwire: Tem gente desaparecida depois de perguntar sobre essa empresa. Leahcim: Não deixo rastros, você sabe disso. Lightwire: Tenho alguns arquivos de uma base de dados antiga. Há coisas pesadas, mas não posso provar a ligação com eles por causa da codificação. Leahcim: Eu me preocupo com isso. Pode me enviar? Lightwire: Não envio nada deles via rede. Mesmo criptografado. É mais seguro cara a cara. Não gosto disso. Marcar um encontro às cegas com um hacker que nunca vi antes soa perigoso. Embora Lightwire sempre tenha me dado boas informações. Sempre pareceu leal. O que ele tem em mãos deve ser muito comprometedor para temer desse jeito. Leahcim: Algum lugar em especial? Lightwire: Tem uma boate em Hell's Kitchen, Boca do Inferno. É um local bem improvável para esse tipo de troca de informações. Leahcim: Quando? Lightwire: Próxima quinta à noite? Leahcim: Fechado. Lightwire: Como vou te reconhecer? Leahcim: Cabelo preto comprido, roupa preta social e crucifixo no pescoço. E você? Lightwire: Jaqueta jeans com o símbolo do Homem Morcego nas costas. O loiro mais bonito do pedaço. Esse cara tem quantos anos? Confirmo o encontro e encerro o programa, fechando o laptop em seguida. Meu celular toca uma segunda vez. Fico feliz ao ver o número do meu baterista no identificador. ㅡ Pete! Quanto tempo, parceiro! ㅡ E aí, Michael! Como vai a Europa? Pegou muitas francesas? ㅡ Francesas, portuguesas, japon&sas... Fiz um verdadeiro tour pelo mundo! ㅡ Que inveja! Nós rimos um pouco. Eu não peguei tanta mulher assim, só em uma ocasião ou outra para extravasar o estresse. Viajei à trabalho. Porém, gosto de me gabar e preciso manter minha fama de pegador. ㅡ Alguma notícia da Dorothy? Ouço-o suspirar forte. ㅡ A mesma coisa de sempre. Você tem que falar com ela, Michael. ㅡ Mais do que já falei? Sinceramente, argumentar com a Dorothy é como discutir com uma parede. ㅡ Você tem que parar de passar a mão na cabeça dela. Ela vai acabar se matando. Algo sério aconteceu para ele insistir dessa forma. ㅡ O que ela aprontou? ㅡ Eu não sei o que ela tomou ontem, porém me ligou para buscá-la no Queens. O pior é que ela nem sabia como tinha chegado lá. Expiro fortemente, passando a mão pelo rosto. ㅡ Eu cuido dela. Ela tem condições de tocar hoje? ㅡ Acredito que sim. Ela não vai perder a oportunidade de te ver depois desse tempo todo. Quanto ao show... ㅡ O quê? Está confirmado, certo? Só vou chegar um pouco em cima da ho®a. ㅡ Não prefere remarcar para a semana que vem? ㅡ Está brincando? Faz meses que não piso em um palco. Daqui a pouco tenho uma crise de abstinência! Ele ri da minha observação. Eu não estou brincando. Música é minha vida, estar longe disso é como arrancar o que sobrou da minha alma. ㅡ Posso ajudar com alguma coisa? ㅡ Passe na minha casa e pegue os equipamentos no estúdio. Leve a minha Fender também. ㅡ Qual delas? ㅡ A Telecaster. Ele fica em silêncio por alguns instantes, antes de limpar a garganta para prosseguir. ㅡ Tem certeza, parceiro? Sei como você é chato com ela. ㅡ Transporte no case. Não sacuda. Não deixe cair. Não deixe ninguém tocar nela e você estará vivo no final da noite. Difícil? ㅡ Gentil como sempre… Seu tom irônico me faz rosnar. ㅡ Pete... ㅡ Está bem, eu levo a guitarra. Algo mais? ㅡ Não. ㅡ O Rico pediu um favor. Ele quer levar uma amiga para o show. ㅡ Ele vai usar a gente para impressionar... De novo... Dê um ingresso extra para ele. Embora eu ache que não vai rolar nada. Apesar da pose de bad boy, ele é certinho demais. Se ele a está levando, com certeza são como irmãos, assim como é com a Lauren, ou ele vai pedi-la em casamento. ㅡ Vamos ficar com a primeira hipótese. Rico casado? Soa tão absurdo quanto você casado! ㅡ Nem em sonho! ㅡ Ainda tem muita mulher para pegar! Ele ri de forma escandalosa do outro lado da linha, o que por alguma razão me deixa irritado. Talvez seja o cansaço. Afasto o aparelho da orelha e observo os dois laptops fechados diante de mim. Música, computadores, uma garota estranha por noite... Essa é a minha vida... Em momentos como esse, quando me vejo perdido no meu mundo solitário, a música daquela garota que Rico salvou meses atrás do Fabian, me invade. É como uma lufada necessária de ar fresco. Como será que ela está? Não perguntei ao Rico sobre ela e ele não comentou mais nada. Pergunto-me se saiu bem na empresa e se ainda trabalha por lá. Eu suspiro frustrado para mim mesmo. O que di@bos eu tenho a ver com isso? Parece uma m@ldita obsessão, igual àquela maluca dos cachorros no parque. Aqueles olhos cor de jade me assombram até hoje… ㅡ Michael? Ainda está aí? Só então percebo que o deixei falando sozinho. ㅡ Foi m@l, cara. Tenho dormido menos de quatro ho®as por dia nas últimas semanas. ㅡ Olha, podemos deixar a apresentação da Everlasting para a semana que vem. Além disso, ainda temos que comemorar o seu aniversário. O quê? Nem pensar! ㅡ Já disse que não vamos cancelar nada! Quanto ao meu aniversário, já passou faz uma semana. Deixe quieto. Vou tentar tirar um cochilo aqui. ㅡ Está bem, cuide-se! Desligo a chamada e deixo o celular sobre a mesa. Levanto-me da poltrona, passando as duas mãos por meus longos cabelos pretos. Estou acabado, no entanto, não vou cancelar o show. Preciso disso tanto quanto do ar que respiro. Jogo-me no sofá macio, do lado oposto ao assento onde eu estava, após retirar a gravata. Não que ela estivesse no lugar. Para falar a verdade, nunca está. Tenho nervoso dessa coisa me enforcando e sempre a deixo bem frouxa. McGregor não liga, desde que eu faça o serviço e não pareça um mendigo. Até deve ser um certo charme ou fetiche entre as funcionárias. Já perdi a conta de quantas estiveram na minha sala, com a desculpa esfarrapada de me ensinar a colocá-la direito. Contudo, meu local de trabalho não é um motel e funcionárias da empresa são um problema. Vão querer ficar grudadas em mim e perturbar a minha paz. Já tenho as tietes para isso. Dou uma esticada nos braços e os acomodo embaixo da nuca. Não percebi como estava cansado até agora. Se eu dormir um pouco, talvez me sinta melhor... Custo a pegar no sono, apesar do conforto. Após uns trinta minutos, quando estou quase sentindo o abraço de Morfeu, o bendito celular vibra sobre a mesa. Eu bufo de raiva. Merd@! Resolvo atender, pode ser o McGregor com alguma orientação. Ele é exigente, perfeccionista e controlador. Não posso reclamar do ritmo dele, pois ele me deu a chance de fazer algo bom com o meu conhecimento. Tirou-me da vida de crimes cibernéticos. Se não fosse por ele, talvez eu estivesse em alguma prisão federal, ao invés do conforto de um jato particular e ganhando um bom dinheiro de forma honesta. Levanto-me, esfregando os olhos, e pego o aparelho. Sequer vejo a identificação da chamada. ㅡ Alô… ㅡ E aí, mano! Rico… Definitivamente, vou colocar um toque específico apenas para o meu chefe… ㅡ Fala... ㅡ Que voz é essa? Parece até que estava dormindo... ㅡ Eu tentei... Mas um idïota me interrompeu ligando para o meu celular... ㅡ Que coisa! Reviro os olhos, irritado com a fingida inocência dele. ㅡ Rico, às vezes me pergunto se você é tão sonso quanto se esforça para parecer. ㅡ Às vezes me pergunto se você conhece o significado de "bom humor". ㅡ O que você quer? ㅡ Só queria agradecer pelo ingresso extra. O Pete já me avisou. ㅡ De nada. Mais alguma coisa? ㅡ Credo, cara! É assim que você trata o amor da sua vida? ㅡ Vai à merd@! Desligo o aparelho, não antes de escutá-lo rir como uma b&sta humana do outro lado da linha. Eu mereço... A comissária surge pela porta da parte frontal. Mais uma interrupção que derrama meu pote de mau humor. ㅡ Deseja alguma coisa, senhor Denver? ㅡ Sim! Ficar só! Não percebo o quanto meu tom de voz se eleva, até ela me olhar espantada. Ela acena com a cabeça, retomando a compostura, e sai silenciosamente. Só então percebo ter apertado sem querer o botão que aciona a equipe de bordo em cima da mesa. Provavelmente o fiz durante a conversa animada com Rico. Por isso ela veio e despejei toa a minha irritação em cima da coitada. Ando de um lado para o outro com as mãos na cintura. Não vou dormir mais. Rico conseguiu me tirar do sério. Volto para o laptop da empresa e procuro trabalhar no sistema da matriz em Nova Iorque. O que se mostra ineficaz. Minha concentração está arruinada no momento. Olho para o botão que alerta a comissária. Preciso passar o tempo de alguma forma, talvez ela esteja disposta. Estava me devorando com os olhos. Sei o poder que exerço sobre as mulheres. É quase uma m@ldição. Pergunto-me se seria assédio dar em cima da tripulante. Rio para mim mesmo e aciono o botão. Logo, ela surge, sem seu carrinho dessa vez. Um sorriso educado no rosto. ㅡ Em que posso ajudar, senhor Denver? ㅡ Bom... ㅡ Sigo em sua direção lentamente, com um sorriso malicioso na boca. Chego tão perto, que logo ela está presa entre a parede do avião e o meu corpo. Não sou marombeiro, mas gosto de me manter em forma. Meus músculos delineados estão no lugar e as garotas adoram os gominhos do meu abdômen. ㅡ Quero te compensar pela minha grosseria de antes. Mordo o lábio inferior e ela sorri de forma receptiva. Uma de suas mãos passeia pelo meu peito, sobre o tecido da minha camisa. Está no papo! ㅡ Posso pensar em algo... ㅡ Não quer me mostrar? Suas mãos agarram a gola da minha camisa e me puxam para sua boca, que eu devoro enquanto a empurro para o sofá. Pelo menos, tenho um passatempo até o voo terminar.
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