*Amber Lee PoV*
Quando abro meus olhos, depois do que pareceu apenas um instante, o ambiente é claro, aconchegante e silencioso, a não ser pelo bip contínuo que ouço. Vago minha visão cansada e grogue pelo lugar. Não demora muito para eu perceber que estou em um hospital. Há até um tubo de soro ligado ao meu braço.
Como eu vim parar aqui?
Forço meu cérebro a me dar respostas e não gosto nada do que surge. As memórias daquele homem nojento em cima de mim me fazem gritar e me debater. Meus ombros são segurados no lugar por mãos fortes. O calor delas me é familiar e, de alguma forma estranha, me tranquiliza.
ㅡ Ojitos, fique calma. Você está segura. Não vou deixar ninguém te machucar.
Rico passa a mão pelos meus cabelos, tirando os fios do meu rosto com cuidado. Sinto dor em toda parte, até chorar é doloroso. Lauren surge no meu campo de visão, espelhando o mesmo doce e reconfortante sorriso de Rico. Ela tem um curativo na testa e veste uma bata de hospital, assim como eu, e seu corpo se debruça sobre mim para me dar um abraço que eu ansiosamente aceito.
ㅡ Oh, querida… Já passou. Descanse um pouco, está bem?
Eu me obrigo a ficar sentada e Rico coloca mais um travesseiro nas minhas costas. Lauren mantém sua mão segurando a minha o tempo todo. Olho para essas duas pessoas que acabei de conhecer e não me sentia tão acolhida assim há muito tempo. Um sentimento do qual eu não desfrutava desde a morte da minha avó.
Uma enfermeira morena surge. Ela checa o monitor e o meu soro. Apesar de não ter quase rugas, acho que ela é mais velha do que aparenta. Algo em sua voz segura, porém gentil, exala a experiência de anos.
ㅡ Olá, Amber Lee. Sou a enfermeira Stacy. Posso checar seus sinais?
Abano minha cabeça debilmente. Ela verifica meu pulso, temperatura e coloca um palito de madeira na minha boca para ver a minha garganta.
ㅡ Você vai ficar bem, apesar dos hematomas que vão durar alguns dias. O médico vai passar uma medicação para a dor. Fizemos uma tomografia e você não teve nada grave. O que é um milagre, considerando a brutalidade do seu agressor.
A palavra "agressor" me causa um arrepio e tremo dos pés à cabeça.
ㅡ Ele…
ㅡ Está preso, ojitos. Quer dizer, algemado à uma cama de hospital, porque eu não deixei barato o que ele fez com você e a Lauren.
Rico desvia o olhar para o lado, um pouco envergonhado. Eu seguro sua mão entre as minhas, o que o faz me encarar.
ㅡ Obrigada…
Seu sorriso ilumina seu rosto e só agora noto as covinhas em suas bochechas. A palma de sua mão livre apalpa o topo da minha cabeça, como se eu fosse um filhotinho.
ㅡ Não foi nada.
Então, a enfermeira fala algo que me traz de volta à realidade c®uel.
ㅡ Tem um policial querendo falar com você para oficializar a queixa. Está em condições de fazer isso agora ou peço para ele voltar pela manhã?
ㅡ Queixa?
ㅡ Sim, querida. Sua amiga já prestou o depoimento dela, assim como esse grandalhão molenga aqui.
ㅡ Hei, Stacy! O grandalhão molenga salvou o dia!
ㅡ Oh, sim, meu bebezão! Você foi um cavaleiro de armadura reluzente!
Ela aperta as bochechas dele e os dois riem. A troca de intimidades amigáveis entre eles me diz que já se conhecem há um bom tempo. Contudo, existe um pânico crescente dentro de mim.
E se Fabian quiser se vingar quando for solto?
O medo deve estar estampado no meu rosto, pois Stacy pede licença aos meus amigos para falar a sós comigo. Ela cerca o ambiente com as cortinas e se senta na beirada da cama.
ㅡ Olha, vou entender se não quiser falar com a polícia. Já vi tantos casos como o seu… Mulheres, meninas, idosos, garotos… Pessoas indefesas perante a c®ueldade humana, embora eu não considere que exista humanidade dentro de alguém que faça o que aquele monstro fez com você.
Eu engulo em seco e uma dúvida me consome. Meu corpo todo está um caos, então eu não consigo sentir se o desgr@çado conseguiu o que queria. Não sou mais vi®gem, porém isso não muda o fato de que eu não queria. A sensação de estar suja me faz enjoar.
Stacy pega um balde e eu vomito nele entre soluços de dor e agonia. Ela me dá alguns guardanapos, que uso para limpar a boca, e eu a encaro apavorada.
ㅡ Ele… Ele…
ㅡ Não, meu bem. Rico chegou bem a tempo de evitar o pior.
Dessa vez, meu choro é de alívio e Stacy me oferece seu bust0 farto para me consolar. Eu me aninho em seu peito e deixo as lágrimas correrem livres, enquanto ela fala.
ㅡ Não é fácil denunciar um agressor. O medo que ele te encontre e faça pior fica enraizado dentro de você. Porém, se não fizer nada, ele poderá sair impune. Não deixe o medo impedi-la de ter justiça. O medo te consome, te tortura. Você não está sozinha.
ㅡ Mas… Ele pode ficar com raiva e vir atrás de mim de novo… Fazer até pior…
ㅡ Ouça as suas próprias palavras. De novo… Rico me contou as coisas que ouviu o homem dizer. Acho que não é a primeira vez que foi agredida pelo mesmo can@lha, não é?
Só tenho forças para sacudir a cabeça confirmando. A vergonha daquele dia ainda é forte nas minhas memórias.
ㅡ Então, querida, esse monstro só vai parar quando estiver atrás das grades. Conheço tipos como ele, que abusam de inocentes. Já vi muitos por aqui, inclusive acompanhando suas vítimas como se nada houvesse acontecido, apenas para impor medo e evitarem serem denunciados. ㅡ Ela respira fortemente. ㅡ Teve um garoto que me partia o coração cada vez que ele dava entrada aqui. O pai sempre tinha uma desculpa na ponta da língua. Que o menino tinha rolado a escada, caído da cama ou da bicicleta. Porém, eu sabia a verdade. O can@lha apareceu muitas vezes bêbado pedindo ajuda para o filho. Outras vezes, o garoto vinha sozinho, sabe-se lá Deus com que forças, quando tinha costelas quebradas, ossos deslocados e o rosto tão inchado e coberto de hematomas que m@l conseguia abrir os olhos.
Levo minhas duas mãos à boca, achando difícil acreditar que um pai possa ser tão c®uel com o próprio filho.
ㅡ Que horror! O que aconteceu com o menino?
ㅡ Ele sobreviveu. Contudo, a mancha do horror imposto a ele por anos o fez se tornar uma pessoa desconfiada e difícil. Ele duvida até da própria sombra e evita se envolver com as pessoas. Seus poucos amigos são apenas aqueles que praticamente cresceram com ele e já tiveram sua dose de abuso e violência de uma forma ou de outra. Mas, o meu menino, ficou muito mais arisco e reservado. Por isso, até me sinto lisonjeada quando ele aceita meu abraço ou me dá um sorriso sincero. É o que muitas vezes ilumina o meu dia, sabe. Fiz uma denúncia uma vez, mas o pai dele me desmentiu e o garoto, por medo, confirmou a versão do pai.
ㅡ Mas, se ele tinha você do lado dele, porque ele não disse a verdade?
ㅡ Esse é o ponto, meu bem. Medo. Não sei que ameaças o pai dele fez, porém surtiram efeito. Olha… Conheço o Rico desde que ele era moleque e, quando ele diz que vai proteger alguém, pode acreditar que ele vai manter sua promessa. Lauren conheço há pouco tempo, mas não é todo mundo que enfrenta alguém, visivelmente mais forte, para defender uma pessoa. Então, faça para si mesma a pergunta que acabou de me fazer. Você tem dois amigos fantásticos te dando apoio. Por que não vai em frente com a denúncia?
Foi como se eu recebesse um tapa na cara.
É fácil julgar e não se pôr no lugar do outro. Estou questionando os motivos de um garoto, quando eu sei as respostas, pois também são meus motivos. Meus medos.
Eu suspiro devagar, respirar mais forte ainda é doloroso.
ㅡ Não queria estar tão assustada quanto agora…
ㅡ Faça o que acha que é certo, porém saiba que não está só. Se ele não for punido, continuará assediando outras mulheres e só Deus sabe quantas já não sofreram com o abuso dele. Será que é justo que aquele safado escape? É justo que você viva no medo, mesmo sabendo que não fez nada errado? Você é a vítima e merece ser ouvida. Merece ter justiça. Merece andar de cabeça erguida, meu bem.
Sinto a mão dela limpando um caminho de lágrimas no meu rosto.
Eu não quero mais ter medo…
Acho que é a segunda decisão mais difícil que já tomei em toda a minha vida. A primeira foi cortar o cordão umbilical com o meu passado.
Eu não larguei aquela prisão luxuosa para lutar pelos meus sonhos, só para acabar prisioneira do medo novamente.
É necessário que eu busque fundo dentro de mim e garimpe todo o resquício de coragem que ainda possa ter para falar.
ㅡ Chame o policial, Stacy. Eu vou depor contra Fabian Caster.