*Michael PoV*
Encontro uma enfermeira conhecida no salão de entrada do hospital. Ela trabalha aqui há uns vinte anos e registrou muitas das minhas ocorrências. É longe do Brooklyn, onde eu morava com aquele traste, porém Sunny preferia assim. Ele dizia que ia cuidar de assuntos de trabalho, enquanto me “consertavam”. Stacy até fez uma denúncia, que não deu em nada, pois eu fui obrigado a desmentir tudo. Sunny ameaçou fazer pior com ela se eu o denunciasse. Eu não podia arriscar que ela se machucasse.
ㅡ Oi, Stacy!
Ela me encara através de seu olhar neg®o com um grande sorriso. Essa enfermeira foi o mais próximo que tive de uma mãe, o que chega até a ser irônico, considerando que eu tinha que ter algum osso quebrado para ter esse privilégio.
ㅡ Michael, meu menino!
Stacy me abraça com força. Nossa diferença de tamanho é gritante e eu tenho que me curvar para retribuir. Eu dou uns tapinhas gentis no topo de seus cabelos curtos e pretos.
ㅡ Posso te pedir um favor?
ㅡ Qualquer coisa!
ㅡ Uma amiga do Rico deu entrada por causa de um cara que tentou violentá-la, juntamente com a Lauren. Sei que a polícia deve estar em ação. Mas, se você puder pegar qualquer informação desse ot@rio para mim, seria de grande ajuda. Talvez, o número do seguro social dele?
ㅡ Ah, eu sei quem é! Uma ruiva, certo? ㅡ Eu confirmo com a cabeça. ㅡ Por que você quer algo assim?
ㅡ Vou dar uma lição nesse cara…
Eu pisco para ela com um sorriso convencido no rosto. Ela entende imediatamente e me pede para aguardar um pouco. Não é que ela saiba o que posso fazer com um computador em mãos, porém ela sabe para quem eu trabalho e que tenho certa influência. Ela retorna dois minutos depois com uma folha de papel dobrada, que me entrega. Quando eu a abro, vejo uma cópia da documentação do Caster.
Perfeito!
ㅡ Obrigado, Stacy. Isso vai servir. ㅡ Dou-lhe um beijo na bochecha, porém um sorriso triste se forma em seus lábios. ㅡ O que foi?
ㅡ Espero mesmo que você consiga fazer algo com esse c®etino. A coitadinha estava tão assustada e machucada que ficou com medo de denunciá-lo. Tive que dar um exemplo para ela decidir ir adiante.
ㅡ Exemplo?
ㅡ Sim… Você… Eu vi o medo nos olhos dela, o mesmo medo que via nos seus. Você nunca denunciou o seu agressor, apavorado com a ideia de que ele agisse pior quando o encontrasse. Ela disse algo assim, que se ela o denunciasse, ele iria encontrá-la de novo para se vingar. Eu contei sua história, porém não se preocupe, eu não toquei no seu nome. Sei que não gosta de servir de mártir para ninguém.
Fecho meus olhos e respiro fundo, antes de encará-la novamente. A pior coisa do mundo é a pena alheia. Nunca fiquei comentado meu passado com ninguém, nem mesmo com os meus amigos de infância. O que eles sabiam era apenas o que eles percebiam. As piores dores tranquei bem dentro de mim. Por isso, fico aliviado por ela não ter mencionado o meu nome.
ㅡ Está certo, Stacy. Você pelo menos conseguiu convencê-la?
ㅡ Oh, sim! Tinha um oficial com ela quando eu saí, além do Rico e da Lauren, e já devem ter terminado. Ela está no leito quinze.
Confirmo com a cabeça e me despeço dela com um beijo em sua testa.
Leito quinze…
Volto pelo corredor e fico vendo as macas onde os pacientes estão acomodados. Um choro baixo, acompanhado da voz reconfortante da Lauren, me chama a atenção e eu me escondo atrás da cortina que separa os leitos.
ㅡ Tudo bem, querida…
ㅡ Aquele homem foi horrível! O que eu vou fazer agora, Lauren? A senhorita Mace disse que ia interceder por mim, mas não adiantou nada!
Fecho meus punhos ao longo do corpo e cerro os dentes.
ㅡ Ojitos, não se preocupe. Eu tenho um amigo que disse que pode arrumar um emprego para você na McGregor Corporation no mesmo setor que eu.
ㅡ Jura, Rico? Isso é alguma pegadinha? Por favor, não brinque assim comigo!
ㅡ Não estou brincando. Você vai ser minha colega de trabalho! Não é legal?
Estico minha cabeça pelas cortinas no momento exato em que uma cabeleira ruiva afunda nos braços do meu amigo. Ele afaga os cabelos dela, enquanto ela chora sem controle com o rosto enterrado em seu peito. Por alguma razão, a visão dela tão próxima a ele causa uma ebulição dentro de mim. Tenho que me controlar ao máximo para evitar entrar e tirá-la de perto dele.
ㅡ Obrigada! Obrigada! Quem é esse seu amigo? Quero agradecer a ele!
Os olhos de Rico se encontram com os meus e n&go com a cabeça. Ele suspira sem gostar da ideia, porém respeita a minha vontade.
ㅡ Meu amigo não gosta de fazer propaganda de si mesmo. Ele é um homem das cavernas, sabe? Talvez, um dia, ele saia da toca e se apresente para você.
Sei que foi uma indireta bem direta para a minha falta de vontade de socialização, entretanto eu não me incomodo. Eu prefiro assim.
O que eu vou fazer por ela não é porque eu queira bancar o bonzinho. Tenho pecados demais nas minhas costas. Só quero fazer o que é correto. Assim como o McGregor me ensinou.
Saio do hospital sem me despedir de ninguém. Já estou de emoções conflitantes até o pescoço por causa daquela garota.
Uma garota que toca como uma deusa, cujo rosto eu sequer vi. Parece até piada.
No dia seguinte, me encontro com McGregor bem cedo para falar dela. Eu me vejo numa saia-justa porque nem sei seu nome.
ㅡ Deixe-me ver se eu entendi bem, Michael. Você quer que eu dê emprego a uma moça que você não conhece?
Há um tom quase gozador na voz dele.
ㅡ Eh… Quero… Sabe, ela passou por maus bocados ontem. Um cara nojento fez ela ser despedida e quase a estuprou. Agora, ela está sem nada, nem família ela tem na cidade. Ela é amiga da Lauren da Recepção e do Henrico do Marketing.
O olhar dele escurece. McGregor, assim como eu, não suporta uma violência tão grande assim.
ㅡ Vou pedir à senhorita Starling que leve a amiga dela para uma entrevista com Mortimer. Vou deixá-lo avisado.
ㅡ Obrigado. Eu sabia que ia ajudá-la. ㅡ Então, eu respiro fundo para tratar do assunto seguinte. ㅡ Eu estive pensando. Seria bom que as filiais estivessem em sincronia com a matriz, digo, com relação aos sistemas.
ㅡ Concordo. Você fez um trabalho muito bom aqui. Vou pedir aos gerentes de cada filial para me indicarem alguém para…
ㅡ Não será necessário. Se quiser, posso fazer isso pessoalmente.
Ele ergue as duas sobrancelhas, surpreso.
ㅡ Uma viagem dessas demandaria meses. Embora eu confesse que com a sua supervisão, as mudanças ocorreriam sem problemas.
ㅡ Eu sei e estou preparado para isso. Preciso mudar de ares um pouco e essa viagem também me ensinaria muito.
Ele desvia o olhar um tempo, enquanto pensa sobre o assunto. Estou torcendo para que ele aceite. Também tenho meus motivos egoístas para sumir por uns tempos. Sunny tem praticamente aparecido em todo lugar que vou, bêbado e sujo, sempre arrumando algum escândalo para me coagir. Ele não pode mais me bater, então me fazer passar vergonha em público é a nova forma que ele encontrou para me torturar.
ㅡ Essa sua vontade repentina de viajar tem a ver com aquele traste que te criou?
Ele me conhece tão bem…
Eu suspiro envergonhado e me limito a concordar com a cabeça. Depois de mais um longo tempo, ele apoia as mãos sobre a mesa e me encara.
ㅡ Não gosto da ideia de te afastar de… ㅡ Ele se interrompe um instante, limpando a garganta. ㅡ Da empresa. Também não acho saudável que fuja dos seus problemas.
ㅡ Não estou fugindo, apenas quero me desintoxicar. Sei que ele vai continuar aqui quando eu voltar, porém, ao menos vou estar de cabeça fresca. Talvez, a minha ausência repentina o faça pôr os pés no chão.
Eu duvido muito disso e, conhecendo McGregor, ele também é da mesma opinião, porém pelo menos posso colocar as minhas ideias no lugar. Após alguns intermináveis minutos, ele concorda com a cabeça.
ㅡ Aproveitando essa sua viagem, também vou querer que verifique uma situação inquietante na África com uma empresa de conduta duvidosa. Eles estão interferindo de forma muito tempestuosa no projeto do Congo.
ㅡ Como assim?
Ele retira uma pasta de sua gaveta e a coloca sobre a mesa. Pego a pasta, que tem uma etiqueta escrito "Grupo MEI" e a abro. Não consigo acreditar no que leio. Meu CEO continua.
ㅡ Ao que parece, eles se tornaram nossos concorrentes, não porque queiram a exclusividade do projeto. O que eles querem, é continuar com seus negócios escusos de tráfico infantil sem interferência externa.
Vejo no rosto do meu chefe o mesmo nojo que sinto com essa situação. Sei que ele se importa com crianças mais que tudo, não é à toa que fundou um hospital de ponta, que também atende crianças carentes. Tenho certeza que será um excelente pai. Quanto a mim, senti na pele o que é abuso infantil por anos, de forma torpe e c®uel. É a mais pura revolta que me invade ao imaginar que crianças indefesas passem pelo o que eu passei, ou coisa pior.
Eu comecei essa história de viagem para me distanciar um pouco do Sunny, contudo ela agora ganhou um significado muito maior.
ㅡ Não se preocupe. Eu vou descobrir o que essa empresa está fazendo de verdade. Então, se for culpada, nós a colocaremos abaixo.
Um sorriso cúmplice surge em seu rosto.
ㅡ Comprei um novo jato da Bombardier, então, antes de me desfazer do antigo, ele te servirá nessa viagem. Vou designar uma tripulação para te atender. Você parte em dois dias.