Capítulo 19

2024 Words
Alice alisou o vestido e voltou para a mesa, os pedidos já chegavam e o garçom entregava o prato de cada um. — Obrigado. — ela agradeceu ao garçom. Ela pegou o garfo e começou a comer, dessa vez ela pediu o prato que Ethan havia escolhido da última vez.  — Você é talentosa, Alice. — comentou o Sr. Hall. — Obrigado. — ela agradeceu com sinceridade. — E você será Odette, não? — Sim, o cisne branco. — Não quis tentar para Odile? Desculpe se estou sendo invasivo, apenas curiosidade. — Eu gosto mais de Odette, consigo me identificar mais com sua pureza e sentimentos. Além de que, demorei bastante para conseguir fazer os fouettés, Callie, quem faz Odile foi quem me ajudou a melhorar e ser capaz de realizar o movimento. — ela explicou com suavidade. — Excelente bailarina, humilde e bonita. Ethan, meu filho, você realmente fez uma ótima escolha. — celebrou o homem. Alice preferiu se manter calada, ela era bem mais do que aquilo, só esperava que o homem descobrisse isso com o tempo.  — Pai, eu não estou com Alice por ela ser bailarina e a atual protagonista, eu gosto dela, independente de quão bem ela dance.  — Sim, claro, compreensível. Alice segurou a vontade de rir e revirar os olhos, não, ele não compreendia. Ela viu o olhar de pedido de desculpas da senhora Hall e deu um sorriso solidário para depois levar mais uma garfada de comida até os lábios. A comida daquele restaurante era muito boa e pelo que viu no cardápio, os preços eram bem acessíveis. O jantar ocorreu sem grandes problemas, o senhor Hall começou a falar dos investimentos que estava fazendo, lugares que estava comprando. Alice desligou a mente da conversa focando no prato principal, depois na sobremesa até que por fim, despediu-se do casal e seguiu com Ethan para o carro. — Desculpe por meu pai, eu disse que ele não era dos melhores para se lidar. — Tudo bem. Sua mãe me pareceu incrível e muito gentil. — Ela é. Tenho certeza de que assim que vocês passarem algum tempo juntas, minha mãe não vai mais te largar. — Ah acho que descobri de onde o filho puxou isso. — Alice provocou carinhosamente. — Garanto que só puxei as melhores qualidades de cada um deles. — Aham.                                                                          *** Flashback, dia da audição Alice estava sentada se alongando, chamavam as bailarinas por ordem alfabética, mas de sobrenome, o que significava que a Rodrigues iria demorar ainda um tempinho para ser chamada. Aproveitava para revisar cada um dos movimentos, embora não de forma tão expansiva.  A regra era que cada bailarino deveria se apresentar, primeiro nome e personagem que pretendia. Depois uma versão própria, a interpretação que tinha de seu personagem e então um solo dele do balé original. — Quase todas aqui vão tentar para Odette e Odile, todas querem ser principal — comentou Verona ao se sentar ao lado de Alice. — Bem, as bailarinas principais são as que recebem mais atenção, seja positiva ou negativa. Sempre torcemos pela positiva. — comentou a bailarina em resposta — Você vai tentar para Odette não é? — Sim. Assim como você e Donna. — Acho que além de Callie, Tori também vai tentar para Odile, não tenho plena certeza. — Será que Madame vai ser justa e escolher por quem foi melhor e não quem são as favoritas dela? — Verona perguntou pensativa. — Bem, eu acho que sim. Apesar de as favoritas dela serem realmente as melhores de nosso ano. — comentou Alice — De qualquer forma, Callie me disse que a Madame sempre anota os critérios que avalia, escreve as pontuações e o porque de ter dado cada nota para o bailarino. Se você tiver dúvidas, pode pedir para ver sua avaliação. Por algum motivo, isso não pareceu ser o suficiente para Verona. Antes que Alice pudesse falar qualquer coisa, um nome foi chamado para fazer o teste. — Hastings. Verona Isobel Hastings. — chamou o professor Valentin. — Nos falamos depois, Alice. — Boa sorte! — a bailarina desejou para a outra. Voltou a se concentrar no que estava fazendo antes. Ouvia a música tocar e via algumas cabeças curiosas cobrindo o pequeno quadrado de vidro avaliando e julgando o que a colega bailarina fazia. Alice se levantou, mas não para espiar. Precisava aquecer um pouco antes de treinar seus movimentos. Subiu e desceu da ponta algumas vezes e fez uma série de jettés, todos curtos, não queria atingir nenhuma bailarina, só esquentar seus músculos. Quando se deu por satisfeita, começou a pensar nos movimentos. Iria dar início no meio do palco, quando a música começasse, ela iria dar alguns saltos e giros representando a liberdade e inocência de Odette. E então depois de um salto viria a queda. O momento em que Odette vira cisne. Do chão ela se levantaria por uma força invisível, o amor de seu príncipe e a confiança no coração dele. Isso seria representado mais por gestos do que por algum passo específico.  Antes que seus pensamentos desse sequência, ela ouviu um grito enfurecido vindo do outro lado da porta. Alice voltou a cabeça para a direção e se surpreendeu ao ver Verona entrar de novo furiosa. Antes que qualquer um falasse com ela, a jovem passou por todos e saiu da sala. — O que aconteceu com ela? — questinou Callie. — Acho que ela não ficou muito contente com a própria apresentacao ou talvez com o que quer que Madame possa ter falado. — sugeriu Alice. — Devemos avisar Dominique para que ela fale com a amiga. — É bom. E então Alice tirou o celular da bolsa e mandou uma mensagem para Donna.                                                                          *** Ethan puxava a namorada pelo jardim, haviam alguns outros alunos ali, mas pareciam ignorar a presenca do casal. Ele a puxou para um banco mais afastado para que eles pudessem conversar tranquilamente. — Me desculpe por esse jantar da forma como ele foi, eu esperava que as coisas tivessem ocorrido sem tanto julgamento do meu pai. — ele disse. — Está tudo bem, Ethan. Eu não havia criado expectativas de que seria o melhor jantar do mundo, as pessoas julgam, pressupõe coisas, faz parte da humanidade. Só espero que com o tempo, ele entenda quem eu realmente sou e não me veja apenas como uma bailarina talentosa que ele achava que deu rumo para a vida do filho.  A voz dela era suave e gentil, deixava sua mão apoiada no rosto dele acariciando a bochecha com o polegar enquanto seus olhos mantinham os dele sustentados. Ethan se inclinou e deixou que seus lábios tocassem os dela, mas um segundo depois alguém pigarreava. — Sinto muito interromper os pombinhos, mas temos assuntos urgentes a tratar. Não sei para que existe telefone se vocês não o utilizam. — ralhou Callie. — O que aconteceu? — perguntou Alice se ajeitando no banco. — Você anotou tudo o que os policiais acharam correto? E eu fui verificar o antigo quarto de Donna hoje, além de continuar a ler os diários. — Sim, e? — perguntou Ethan impaciente. — Você vai ficar bravinho porque te interrompi durante um beijinho? Buá buá. — provocou Callie. — O que você descobriu? — perguntou Alice curiosa. — Era esse o tipo de emoção que eu esperava, entendeu Ethan? — Callie… — Alice repreendeu. — Sim, bem, descobri que Verona se chama Verona Isobel Hastings e eu não lembrava disso, não me julgue. Enfim, a garrafa de água achada é igual a dela que foi perdida por ela naquela primeira semana confusa das investigações. VI. Verona Isobel. O arco do pé dela é parecido com o seu e vocês usam a mesma sapatilha, só que a dela estava mais nova, claro. E o gravador também tem as mesmas iniciais, ainda não consegui nada dele, mas é isso, eu acho que talvez seja ela a culpada. Callie mantinha a voz baixa ao explicar a teoria. Alice torceu os lábios, fazia sentido, o nome e batia com as evidências, mas por que? Ela amava Dominique, porque iria querer fazer m*l a amiga? — Eu consigo ler a dúvida no seu rosto, eu também não sei porque ela fez, mas ao que parece ela fez. — E agora, como vamos pegar Verona e fazê-la confessar? — ele perguntou. — Ah, agora vem a parte difícil. — apontou Callie. — Alguma ideia de um plano? — Bem, ainda não. Mas acho que devemos informar Tori e Josh. — sugeriu Callie. — Eu só não entendo, no dia que encontramos ela bêbada, ela parecia tão amarga pela morte da amiga, mas eu nunca achei que pudesse ter sido ela. E agora vir atrás de mim dessa forma. Ela acha que eu sei de tudo isso e vou denunciar? — perguntou incrédula. — Mas, Ali, você sabe e vai. — apontou Ethan. — Bem, sim! Mas não é esse o ponto. — Alice respondeu exasperada — A questão aqui, é que ela não deveria tentar vir atrás de mim e sim, deveria ir até a polícia e explicar tudo. Eu sou só a garota nova que se dedicou o suficiente para conseguir um lugar aqui, não tente me acusar de assassinato só pra livar a própria cara! Os amigos de Alice começaram a rir e Ethan afagou o cabelo dela. Callie estendeu a mão para a amiga para que ela pudesse ficar de pé e Ethan logo se levantou também. Eles precisavam procurar Tori e Josh. Imediatamente mandaram mensagem para os amigos e Tori respondeu com um emoji de sirene e um número: 13. — Verona está no nosso quarto com Tori, vamos.  Alice tirou os saltos e saiu correndo antes que qualquer um tivesse reação. Ela passou pelo hall, subiu escada após escada, cruzou o corredor inteiro e enfim chegou ao quarto. Parou cinco segundos para recuperar o fôlego e entrou no quarto.  — Tori? — ela chamou ao ver a amiga deitada no chão. Parecia demais com a cena de Dominique espatifada no chão. Alice caiu de joelhos e com as mãos tremendo ela demorou para conseguir desbloquear o celular. Sua visão parecia escurecer e o ar não chegava aos pulmões. Callie e Ethan chegaram um minutos depois e se depararam com uma Alice em posição fetal chorando enquanto Tori permanecia no chão. — Vá ajudar ela, eu vejo Tori. — ouviu Callie comandar. Sentiu braços fortes ao seu redor e logo sua cabeça estava encostada em um peito que lhe parecia familiar, mãos acariciavam seu cabelo e foi virada para que não visse mais a amiga. — Temos uma emergência, a jovem está viva, respirando, mas não sabemos o que aconteceu. — a voz de Callie soava distante, mas firme — Certo, vamos aguardar aqui. O endereço é a escola de balé perto da Ópera, sim, a mesma que atenderam a jovem que morreu. Quarto número treze. A ligação se encerrou e Alice ouvia passos andando pelo quarto e analisando tudo.  — Há alguns sinais de luta, o cofre foi arrombado. Mas ela não previa que os diários que estavam ali eram os que não tinham nada de importante. — comentou Callie — Tori me parece bem, não como Donna da última vez. Talvez a pancada só a tenha feito desmaiar, mas é melhor que ela seja observada no hospital. Os passos e a voz se aproximaram. Um rosto familiar borrado por lágrimas apareceu em sua frente.  — Ei Ali, respire fundo. Eu preciso que você me diga algumas coisas, está bem? Em voz alta. — Sim. — a jovem respondeu. — Agora, me diga, seu nome, sua idade e onde você está. — Alice Rodrigues, 19 anos, meu quarto na escola. — ela falou tentando se concentrar. — Isso, repita mais uma vez. — Alice Rodrigues, 19 anos, meu quarto na escola. — ela repetiu. — Respire fundo e repita mais uma vez.  Depois de algum tempo, Alice conseguiu ficar mais calma. Ethan limpou a maquiagem no rosto dela e deixou que Callie ajudasse a jovem a se trocar enquanto ele esperava do lado de fora pelos paramédicos.
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