Capítulo 22 – O Fim das Correntes

566 Words
Thomas passou a noite em claro. Não havia mais o que esconder, nem para quem fingir. Carina havia ido embora, Eloísa o evitava, e a igreja, que antes o chamava de irmão, agora o chamava de exemplo do que não se deve ser. Na manhã seguinte, vestiu o terno como quem veste armadura. O reflexo no espelho mostrava um homem diferente — não o fiel, nem o pecador, apenas alguém cansado de viver para os olhos dos outros. Eloísa o encontrou na cozinha, com a papelada do divórcio sobre a mesa. Por um instante, o ar pareceu desaparecer do ambiente. — O que é isso, Thomas? — perguntou, a voz trêmula. Ele não levantou o olhar. — É o que sobrou da gente. Ela se aproximou, tentando entender. — Você está dizendo que quer se divorciar? Thomas respirou fundo, a voz firme, mas quebrada. — Eu passei a vida tentando ser o homem que a igreja queria. Depois, o que você queria. Agora só quero ser quem eu realmente sou. E pra isso… eu preciso ir. — Ir pra onde? — perguntou, as lágrimas já escorrendo. — Pra longe de mim? Ele a encarou com doçura e culpa. — Não é de você que eu quero fugir, Eloísa. É da culpa. É da mentira. Ela segurou o braço dele com força. — E o que os irmãos vão dizer? O pastor? As pessoas vão me apontar, Thomas! Ele fechou os olhos, cansado. — Eu já vivi tempo demais com medo do que os outros pensam. Não dá mais. Eloísa se afastou, o rosto desfeito. — Você está jogando fora tudo o que Deus construiu! Thomas deu um meio sorriso, triste. — Deus não construiu isso, Eloísa. A gente construiu — e com base na culpa, no medo, na aparência. Ela caiu de joelhos, soluçando. — Por favor, Thomas… não faz isso. A gente pode começar de novo. Eu te perdoo, de novo, quantas vezes for preciso. Só não acaba assim. Thomas se ajoelhou diante dela, mas sem tocá-la. — Eu não mereço tanto perdão. E, talvez, o que você chama de amor seja só o medo de ficar sozinha. Ela levantou o rosto, ferida. — E o que você chama de liberdade é egoísmo. As palavras ecoaram entre eles, e o silêncio que se seguiu foi o mais c***l de todos — o som de algo que morria em silêncio. Naquela tarde, Thomas pegou a mala e olhou para trás uma última vez. Eloísa estava na varanda, o olhar perdido. — Eu nunca quis te machucar — disse ele. — E mesmo assim conseguiu. — A voz dela era baixa, resignada. — Vai, Thomas. Antes que eu peça pra ficar. Ele caminhou até o portão. A chuva começou a cair — como sempre caía quando tudo terminava. E, enquanto descia a rua, sentiu o peso das palavras dela atrás dele: — A igreja vai te condenar, Thomas! Ele parou, olhou para o céu e respondeu, sem virar: — Que condenem. Pelo menos, dessa vez, quem está pecando sou eu mesmo. Eloísa chorou até não ter mais força. Quando finalmente conseguiu respirar, pegou a aliança, olhou para ela por um instante e a colocou na gaveta. Não jogou fora. Porque, no fundo, ainda esperava que um dia, mesmo distante da igreja e do mundo, Deus encontrasse um jeito de libertá-los das correntes que eles mesmos criaram.
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