Thomas passou a noite em claro.
Não havia mais o que esconder, nem para quem fingir.
Carina havia ido embora, Eloísa o evitava, e a igreja, que antes o chamava de irmão, agora o chamava de exemplo do que não se deve ser.
Na manhã seguinte, vestiu o terno como quem veste armadura.
O reflexo no espelho mostrava um homem diferente — não o fiel, nem o pecador, apenas alguém cansado de viver para os olhos dos outros.
Eloísa o encontrou na cozinha, com a papelada do divórcio sobre a mesa.
Por um instante, o ar pareceu desaparecer do ambiente.
— O que é isso, Thomas? — perguntou, a voz trêmula.
Ele não levantou o olhar.
— É o que sobrou da gente.
Ela se aproximou, tentando entender.
— Você está dizendo que quer se divorciar?
Thomas respirou fundo, a voz firme, mas quebrada.
— Eu passei a vida tentando ser o homem que a igreja queria. Depois, o que você queria. Agora só quero ser quem eu realmente sou. E pra isso… eu preciso ir.
— Ir pra onde? — perguntou, as lágrimas já escorrendo. — Pra longe de mim?
Ele a encarou com doçura e culpa.
— Não é de você que eu quero fugir, Eloísa. É da culpa. É da mentira.
Ela segurou o braço dele com força.
— E o que os irmãos vão dizer? O pastor? As pessoas vão me apontar, Thomas!
Ele fechou os olhos, cansado.
— Eu já vivi tempo demais com medo do que os outros pensam. Não dá mais.
Eloísa se afastou, o rosto desfeito.
— Você está jogando fora tudo o que Deus construiu!
Thomas deu um meio sorriso, triste.
— Deus não construiu isso, Eloísa. A gente construiu — e com base na culpa, no medo, na aparência.
Ela caiu de joelhos, soluçando.
— Por favor, Thomas… não faz isso. A gente pode começar de novo. Eu te perdoo, de novo, quantas vezes for preciso. Só não acaba assim.
Thomas se ajoelhou diante dela, mas sem tocá-la.
— Eu não mereço tanto perdão. E, talvez, o que você chama de amor seja só o medo de ficar sozinha.
Ela levantou o rosto, ferida.
— E o que você chama de liberdade é egoísmo.
As palavras ecoaram entre eles, e o silêncio que se seguiu foi o mais c***l de todos — o som de algo que morria em silêncio.
Naquela tarde, Thomas pegou a mala e olhou para trás uma última vez.
Eloísa estava na varanda, o olhar perdido.
— Eu nunca quis te machucar — disse ele.
— E mesmo assim conseguiu. — A voz dela era baixa, resignada. — Vai, Thomas. Antes que eu peça pra ficar.
Ele caminhou até o portão. A chuva começou a cair — como sempre caía quando tudo terminava.
E, enquanto descia a rua, sentiu o peso das palavras dela atrás dele:
— A igreja vai te condenar, Thomas!
Ele parou, olhou para o céu e respondeu, sem virar:
— Que condenem. Pelo menos, dessa vez, quem está pecando sou eu mesmo.
Eloísa chorou até não ter mais força.
Quando finalmente conseguiu respirar, pegou a aliança, olhou para ela por um instante e a colocou na gaveta.
Não jogou fora.
Porque, no fundo, ainda esperava que um dia, mesmo distante da igreja e do mundo, Deus encontrasse um jeito de libertá-los das correntes que eles mesmos criaram.