A tarde estava abafada, o ar parado, como se a cidade inteira esperasse algo prestes a explodir.
Eloísa lavava a louça, tentando se distrair do peso dos últimos dias. O barulho da água e o tilintar dos pratos eram o único som da casa.
Thomas estava no quarto, revisando papéis do banco, quando a campainha tocou.
Duas vezes.
Pausadamente.
Como quem sabe exatamente o ritmo da tensão.
Eloísa se secou, foi até a porta e abriu.
Do outro lado, estava Carina.
Em carne, osso e perfume.
— Boa tarde — disse, com um meio sorriso. — Thomas está?
Eloísa ficou imóvel. O nome dela soou como um soco.
Não havia dúvida. A voz, o olhar, a postura — era a mulher que rondava o silêncio do marido há meses.
— Quem é você? — perguntou, a voz fria.
Carina cruzou os braços.
— Acho que já sabe.
Thomas ouviu o nome dela ecoar do corredor e o coração disparou.
Levantou-se num salto, mas já era tarde.
Quando chegou à sala, as duas se encaravam — o passado e o presente em lados opostos do mesmo campo de guerra.
— Carina, o que você está fazendo aqui? — A voz dele saiu trêmula.
— Vim resolver o que você não teve coragem. — Ela o encarou com ironia. — Achei que devia me apresentar à sua esposa. Afinal, ela deve ter o direito de saber tudo.
Eloísa virou-se para ele, os olhos marejados.
— Tudo o quê, Thomas?
— Nada! — tentou dizer, aproximando-se. — Ela está mentindo, Eloísa, eu juro…
Carina deu uma risada curta, amarga.
— Mentindo? Quer que eu mostre as mensagens que você apagou? Ou quer que eu conte o que prometeu na última vez que me viu?
Thomas empalideceu.
Eloísa o olhou com uma mistura de raiva e decepção.
— Então foi isso que você “resolveu”? — disse, com a voz embargada. — Era com ela que você estava aquele dia.
Carina deu um passo à frente, como se o chão fosse dela.
— Ele disse que o casamento de vocês era só aparência. Que estava preso a uma vida que já não queria.
Eloísa respirou fundo, tentando conter o choro.
— E você acreditou nisso?
— Acreditei no que ele me fez sentir — respondeu Carina, firme. — E pelo visto, você também acreditou.
As palavras cortaram o ar como lâmina.
Thomas tentou intervir.
— Carina, chega! Você não entende o que está fazendo.
Ela o encarou, os olhos úmidos.
— Entendo sim. Você só me usou pra fugir da vida que escolheu. E agora quer fingir que nada aconteceu.
Eloísa segurou o encosto da cadeira, as mãos tremendo.
— Eu perdoei você, Thomas. Te dei uma segunda chance. E tudo o que fez foi me humilhar outra vez.
— Não é assim — ele tentou dizer. — Eu errei, mas estou tentando mudar!
— Mudar não é apagar o que você fez — ela respondeu, firme. — É ter coragem de encarar as consequências.
O silêncio tomou a sala.
Carina respirava rápido, os olhos marejados; Eloísa estava fria, mas partida; e Thomas, de joelhos, parecia um homem que já não sabia o que salvar.
— Você quer saber o pior? — disse Carina, com a voz falhando. — Eu ainda te amo, Thomas. Mesmo sabendo que você nunca vai me escolher.
Ela pegou a bolsa, limpou uma lágrima e olhou para Eloísa.
— Ele não é mau. Só é fraco. E gente fraca destrói o que toca.
E saiu, batendo a porta.
O silêncio que ficou foi mais alto do que qualquer grito.
Eloísa olhou para Thomas — não com ódio, mas com algo pior: despedida.
— Eu não vou te expulsar. — A voz dela era calma, quase serena. — Mas não sei se ainda posso ficar.
Ela se virou e subiu as escadas, deixando-o sozinho na sala.
Thomas caiu no sofá, as lágrimas desabando.
Lá fora, o céu desabava também.
E, pela primeira vez, ele entendeu o verdadeiro castigo do pecado:
não era a culpa, nem a punição.
Era ver tudo o que amava ir embora — enquanto ele ainda estava ali, preso nas próprias correntes.