Capítulo 20 – O Peso da Verdade

607 Words
Eloísa nunca imaginou que o som de uma simples notificação pudesse doer tanto. O telefone vibrou sobre a mesa enquanto ela arrumava o jantar. Thomas estava no banho. Ela tentou ignorar, mas o nome apareceu na tela: Carina. O coração de Eloísa bateu descompassado. O corpo reagiu antes da mente — as mãos suavam, o peito apertava, o tempo pareceu desacelerar. Ela olhou para a porta do banheiro. A água ainda caía, abafando tudo. Pegou o celular. A mensagem estava aberta, curta, direta: “Você pode fingir que acabou, Thomas, mas eu ainda te sinto. E você sabe que sente também.” As palavras ardiam como ferro quente. Por alguns segundos, ela ficou imóvel, olhando para o texto que parecia pulsar na tela. Depois, como se o chão abrisse sob seus pés, deixou o telefone cair. Thomas saiu do banheiro enxugando o cabelo, sem perceber o que o esperava. Eloísa estava parada, pálida, o celular na mão. — O que é isso, Thomas? Ele congelou. Não precisou ver o conteúdo — bastou o nome. A cor sumiu de seu rosto. — Eloísa… — começou, mas a voz falhou. Ela ergueu o telefone, os olhos marejados e frios ao mesmo tempo. — Você prometeu. Thomas tentou se aproximar, mas ela deu um passo atrás. — Me diz a verdade. Você ainda fala com ela? Ele passou a mão no rosto, desesperado. — Não, eu… não mais. Ela mandou isso do nada. Eu não respondi! — Então por que não me contou? — A voz dela era um sussurro afiado. — Por que deixou que eu acreditasse que tudo estava bem? Thomas se aproximou, as palavras tropeçando na culpa. — Porque eu tenho medo, Eloísa. Medo de te perder de novo. — Você já me perdeu, Thomas. — Ela riu, amarga. — Só ainda não percebeu. O silêncio se estendeu. Do lado de fora, a chuva batia nas janelas — como se o mundo inteiro assistisse àquela cena. Eloísa colocou o celular na mesa e respirou fundo. — Eu te perdoei uma vez. Acreditei que podia confiar. Mas cada vez que você cala, é como se me traísse de novo. — Eu não quero mentir. — Ele tentou se aproximar. — Eu tô tentando mudar. — Tentar não é o bastante. — Os olhos dela estavam vermelhos, mas firmes. — Você vive pedindo perdão a Deus, mas esquece que quem carrega o peso das suas promessas sou eu. Thomas caiu de joelhos, lágrimas escorrendo. — Eu não respondi, Eloísa, juro! Eu deletei tudo, apaguei o número, mas ela não me deixa em paz! Ela o olhou de cima, sem saber se acreditava ou se apenas queria acreditar. — E eu? Eu fico em paz, Thomas? Ele estendeu a mão, mas ela não a segurou. Mais tarde, depois que o silêncio tomou a casa, Eloísa se trancou no quarto. Sentou-se na cama e chorou baixinho. Não era raiva, era cansaço. Ela o amava, mas amava também a si mesma — e esse amor próprio começava a acordar. Pegou o diário na gaveta e escreveu: “O perdão não é esquecimento. É só uma pausa entre a dor e a coragem.” Thomas dormiu no sofá. O celular vibrou de novo, mas ele não teve coragem de olhar. Talvez fosse Carina. Talvez fosse Deus o lembrando de que o pecado, uma vez cometido, nunca desaparece por completo — apenas muda de forma. Eloísa, do quarto, olhou para a porta fechada e murmurou: — Se ele não cortar essa corrente, eu é que vou quebrá-la. E, pela primeira vez, o perdão não parecia mais uma escolha. Parecia uma despedida anunciada.
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