Capítulo 19 – As Sombras do Silêncio

705 Words
Eloísa acordou antes de Thomas naquela manhã. A luz entrava pelas frestas da cortina e desenhava linhas douradas sobre o rosto dele — um rosto sereno demais para quem vinha lutando com tantos fantasmas. Ela o observou por um instante, tentando decifrar aquele silêncio que, nos últimos dias, parecia engolir a casa. Thomas dormia, mas os dedos se moviam levemente, como se segurassem algo que não estava mais ali. Desde o rompimento, ele estava diferente. Mais calado, mais presente — mas havia uma sombra nos olhos, uma inquietação que ela não sabia nomear. Eloísa se levantou e foi até a cozinha. O som do café sendo passado quebrou o silêncio, mas o cheiro trouxe lembranças. Era assim no começo do casamento — o aroma do café significava aconchego, rotina, amor. Agora, era o som da tentativa. Quando Thomas desceu, a mesa estava posta. Ele sentou-se sem dizer nada, mexendo o açúcar na xícara como quem tenta dissolver pensamentos. — Você não vai se atrasar hoje? — perguntou ela, fingindo leveza. — Tirei o dia. Preciso resolver umas coisas. — Ele evitou o olhar dela. Eloísa assentiu. Mas notou o leve tremor nos dedos dele ao pegar a xícara. — Coisas do banco? — Não… pessoais. Ela quis perguntar mais, mas algo na voz dele pedia distância. Era como se, a cada resposta curta, ele construísse um muro invisível entre eles. Durante o resto do dia, o silêncio continuou. Thomas saiu de casa, e Eloísa ficou observando a janela, sentindo o peso da incerteza. Pegou o celular dele sobre o sofá — não por desconfiança, mas por impulso. A tela acendeu: uma notificação não lida. O nome não aparecia, apenas o número desconhecido. “Você não pode simplesmente me apagar.” O coração de Eloísa gelou. Não havia assinatura, mas o tom era claro. Aquilo não era uma mensagem de trabalho. Ela devolveu o celular ao mesmo lugar, o corpo tremendo. À noite, Thomas voltou cansado, o olhar distante. Sentou-se no sofá, os ombros pesados, como se o mundo o tivesse esmagado mais um pouco. Eloísa, tentando manter o tom leve, perguntou: — Você está bem? Ele respirou fundo. — Estou tentando ficar. As palavras ficaram suspensas no ar. Ela se aproximou devagar, segurou a mão dele. — Você não precisa tentar sozinho. Ele olhou para ela, e naquele instante Eloísa viu — não o marido, não o traidor, mas o homem quebrado, envergonhado e cansado de si mesmo. Mas havia algo mais ali, algo que ele escondia. — Thomas… tem alguma coisa que eu precise saber? Ele hesitou. O olhar vacilou, e ela percebeu: a luta dentro dele ainda não havia acabado. — Não é nada que eu queira te ferir de novo. Eloísa sentiu o peito apertar. — Às vezes, o que fere não é o que você faz, é o que você cala. Naquela noite, enquanto ele dormia, ela ficou acordada. O vento soprava pelas frestas, e ela olhava para o teto, tentando entender o que a voz interior dizia. Não era ciúme. Era intuição. Eloísa sabia que Thomas tentava mudar. Via o esforço, a culpa, a busca silenciosa por perdão. Mas também sabia que o passado raramente morre quando se quer. Havia alguém, em algum lugar, que ainda o chamava — e ele, mesmo sem atender, ainda ouvia. No dia seguinte, ela o viu no quintal, sentado, olhando para o celular. As mãos dele tremiam. Ele apagava algo — talvez uma mensagem. Eloísa observou da janela, sentindo uma mistura de pena e raiva. Ela não queria ser a mulher que vigia, mas também não queria ser a mulher que finge não ver. E naquele instante, entendeu: não era só Thomas que estava em luta. Ela também estava. Entre o perdão e o medo. Entre o amor e o orgulho. Entre o que queria acreditar — e o que já sabia. E quando ele entrou em casa, ela não disse nada. Mas o silêncio entre eles, dessa vez, não era ausência. Era o começo de algo inevitável — uma verdade prestes a emergir. Porque Eloísa, agora, não só desconfiava. Ela sabia que algo ainda o prendia. E prometeu a si mesma: dessa vez, se descobrisse a verdade, não choraria. Apenas o deixaria livre.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD