Capítulo 18 – As Cinzas do Pecado

801 Words
Os dias seguintes ao rompimento com Carina pareciam uma longa ressaca. Thomas acordava, mas não sentia o corpo despertar. Fazia tudo no automático — o banho, o terno, o café, o ônibus — como se a alma tivesse ficado na calçada, debaixo da chuva daquela noite. No banco, o som dos teclados e o tilintar das moedas o irritavam. Ele olhava para as filas de clientes, as vozes repetindo “bom dia” e “senha, por favor”, e sentia que tudo havia perdido sentido. Carina o deixara, e ele deixara Carina. Mas, no fundo, algo mais o havia deixado: Deus. A igreja, antes refúgio, agora o observava com olhos frios. As vozes que antes o chamavam de “irmão” agora se calavam quando ele passava. Aos poucos, os convites para cantar, as mensagens no grupo do coral e até o cumprimento do pastor desapareceram. Foi Eloísa quem notou primeiro. — Você não vai mais ao ensaio? — perguntou numa noite, enquanto dobrava a roupa de cama. Thomas olhou para o chão. — Não tenho mais voz pra isso. Ela parou o que fazia. — Isso é culpa ou arrependimento? Ele levantou o olhar, surpreso. — Qual a diferença? Eloísa suspirou. — A culpa te afunda. O arrependimento te muda. Mas Thomas não respondeu. No fundo, ele ainda não sabia em qual dos dois estava preso. Naquela semana, ele tentou orar. Fechou os olhos e se ajoelhou ao lado da cama, mas as palavras não vinham. O rosto de Carina aparecia, depois o de Eloísa, e por fim o seu próprio — cansado, perdido. “Senhor, me ajuda”, murmurou, mas a voz saiu rouca, quase sem som. Ele esperou sentir algo — uma paz, uma resposta, um sinal. Mas o silêncio era a única coisa que voltava. Certa manhã, ao chegar no banco, Thomas ouviu dois colegas conversando perto do café. — Ouvi dizer que o coral não quis mais ele… — É, dizem que ele caiu em tentação. As palavras ficaram presas em sua cabeça o dia inteiro, ecoando como sinos. Quando chegou em casa, trancou-se no banheiro e olhou o próprio reflexo. Havia olheiras profundas, barba por fazer, e um olhar que não reconhecia. — O que você fez com você, Thomas? — murmurou. Ele pegou o celular e abriu a galeria. As fotos com Carina ainda estavam lá. Um sorriso, um beijo roubado, um corpo quente. Por um instante, o dedo hesitou sobre o botão de apagar. Mas apagou. E ficou olhando a tela vazia, como quem enterra um pedaço do próprio coração. Nos dias seguintes, a solidão se transformou em rotina. Ele evitava sair, evitava amigos, evitava o espelho. Eloísa, aos poucos, começou a entender que o silêncio dele era mais profundo do que um simples arrependimento. Era um luto. Certa noite, ela sentou ao lado dele no sofá. — Você ainda pensa nela? — perguntou, sem raiva, apenas curiosidade. Thomas respirou fundo. — Penso… mas não como antes. Agora penso e dói. Ela assentiu. — Então é porque você começou a sentir de verdade. No domingo, ele foi até a igreja. Ficou do lado de fora, observando o coral cantar sem ele. As vozes ecoavam, e cada nota parecia arrancar uma lembrança. Por um momento, quis entrar. Quis cantar. Quis se ajoelhar e dizer “eu errei”. Mas não conseguiu. Voltou para o carro e ficou ali, com as mãos tremendo no volante, ouvindo os cânticos que vinham pelas janelas. De repente, algo o fez chorar — não era o arrependimento, nem a dor. Era a saudade de ser leve. Nas semanas seguintes, Thomas começou a se reerguer devagar. Voltou a correr na praia, retomou a academia, e até começou a ajudar Eloísa em pequenas tarefas. Mas dentro dele ainda havia um abismo. À noite, sonhava com Carina — não com o corpo, mas com o olhar que o despedia. Sonhava também com a mãe de Eloísa, com o pastor, com os olhares na igreja. Era como se cada pessoa fosse uma pedra amarrada ao seu pescoço. Um dia, ao olhar pela janela, ele entendeu algo simples: O perdão que ele buscava não viria da igreja, nem de Eloísa, nem de Carina. Precisava vir dele mesmo. E, pela primeira vez, Thomas falou em voz alta: — Eu me perdoo. O som soou estranho, tímido, mas ecoou dentro dele. Lá fora, o sol nascia sobre Recife, dourando os telhados molhados. E, por um instante, Thomas sentiu algo que não sentia há meses: paz. Mas ela durou pouco. Porque logo o celular vibrou. Era uma mensagem desconhecida: “Você realmente achou que eu ia sumir da sua vida assim, Thomas?” E, com isso, o peso voltou. As correntes, que ele pensava ter quebrado, apenas mudaram de forma.
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