Os dias seguintes ao rompimento com Carina pareciam uma longa ressaca.
Thomas acordava, mas não sentia o corpo despertar. Fazia tudo no automático — o banho, o terno, o café, o ônibus — como se a alma tivesse ficado na calçada, debaixo da chuva daquela noite.
No banco, o som dos teclados e o tilintar das moedas o irritavam. Ele olhava para as filas de clientes, as vozes repetindo “bom dia” e “senha, por favor”, e sentia que tudo havia perdido sentido.
Carina o deixara, e ele deixara Carina. Mas, no fundo, algo mais o havia deixado: Deus.
A igreja, antes refúgio, agora o observava com olhos frios.
As vozes que antes o chamavam de “irmão” agora se calavam quando ele passava.
Aos poucos, os convites para cantar, as mensagens no grupo do coral e até o cumprimento do pastor desapareceram.
Foi Eloísa quem notou primeiro.
— Você não vai mais ao ensaio? — perguntou numa noite, enquanto dobrava a roupa de cama.
Thomas olhou para o chão.
— Não tenho mais voz pra isso.
Ela parou o que fazia.
— Isso é culpa ou arrependimento?
Ele levantou o olhar, surpreso.
— Qual a diferença?
Eloísa suspirou.
— A culpa te afunda. O arrependimento te muda.
Mas Thomas não respondeu. No fundo, ele ainda não sabia em qual dos dois estava preso.
Naquela semana, ele tentou orar. Fechou os olhos e se ajoelhou ao lado da cama, mas as palavras não vinham.
O rosto de Carina aparecia, depois o de Eloísa, e por fim o seu próprio — cansado, perdido.
“Senhor, me ajuda”, murmurou, mas a voz saiu rouca, quase sem som.
Ele esperou sentir algo — uma paz, uma resposta, um sinal.
Mas o silêncio era a única coisa que voltava.
Certa manhã, ao chegar no banco, Thomas ouviu dois colegas conversando perto do café.
— Ouvi dizer que o coral não quis mais ele…
— É, dizem que ele caiu em tentação.
As palavras ficaram presas em sua cabeça o dia inteiro, ecoando como sinos.
Quando chegou em casa, trancou-se no banheiro e olhou o próprio reflexo.
Havia olheiras profundas, barba por fazer, e um olhar que não reconhecia.
— O que você fez com você, Thomas? — murmurou.
Ele pegou o celular e abriu a galeria. As fotos com Carina ainda estavam lá. Um sorriso, um beijo roubado, um corpo quente.
Por um instante, o dedo hesitou sobre o botão de apagar.
Mas apagou.
E ficou olhando a tela vazia, como quem enterra um pedaço do próprio coração.
Nos dias seguintes, a solidão se transformou em rotina.
Ele evitava sair, evitava amigos, evitava o espelho.
Eloísa, aos poucos, começou a entender que o silêncio dele era mais profundo do que um simples arrependimento.
Era um luto.
Certa noite, ela sentou ao lado dele no sofá.
— Você ainda pensa nela? — perguntou, sem raiva, apenas curiosidade.
Thomas respirou fundo.
— Penso… mas não como antes. Agora penso e dói.
Ela assentiu.
— Então é porque você começou a sentir de verdade.
No domingo, ele foi até a igreja. Ficou do lado de fora, observando o coral cantar sem ele.
As vozes ecoavam, e cada nota parecia arrancar uma lembrança.
Por um momento, quis entrar. Quis cantar. Quis se ajoelhar e dizer “eu errei”.
Mas não conseguiu.
Voltou para o carro e ficou ali, com as mãos tremendo no volante, ouvindo os cânticos que vinham pelas janelas.
De repente, algo o fez chorar — não era o arrependimento, nem a dor.
Era a saudade de ser leve.
Nas semanas seguintes, Thomas começou a se reerguer devagar.
Voltou a correr na praia, retomou a academia, e até começou a ajudar Eloísa em pequenas tarefas.
Mas dentro dele ainda havia um abismo.
À noite, sonhava com Carina — não com o corpo, mas com o olhar que o despedia.
Sonhava também com a mãe de Eloísa, com o pastor, com os olhares na igreja.
Era como se cada pessoa fosse uma pedra amarrada ao seu pescoço.
Um dia, ao olhar pela janela, ele entendeu algo simples:
O perdão que ele buscava não viria da igreja, nem de Eloísa, nem de Carina.
Precisava vir dele mesmo.
E, pela primeira vez, Thomas falou em voz alta:
— Eu me perdoo.
O som soou estranho, tímido, mas ecoou dentro dele.
Lá fora, o sol nascia sobre Recife, dourando os telhados molhados.
E, por um instante, Thomas sentiu algo que não sentia há meses: paz.
Mas ela durou pouco.
Porque logo o celular vibrou.
Era uma mensagem desconhecida:
“Você realmente achou que eu ia sumir da sua vida assim, Thomas?”
E, com isso, o peso voltou.
As correntes, que ele pensava ter quebrado, apenas mudaram de forma.