A chuva caía fina sobre Recife quando Thomas estacionou o carro diante do prédio de Carina. O limpador de para-brisa fazia o mesmo movimento repetitivo há minutos, mas ele não via nada. O coração batia como um tambor surdo — não de desejo, como antes, mas de medo. Medo de si mesmo.
Pegou o celular. Nenhuma mensagem. Carina havia se calado desde o ultimato. “Ou você me escolhe, ou me esquece.”
Era por isso que ele estava ali — para esquecer.
O elevador parecia mais lento que nunca. Cada andar subindo era um peso no peito. Quando a porta se abriu, o corredor estava mergulhado em penumbra. Thomas caminhou até a porta 502 e bateu.
Carina abriu. Estava descalça, de vestido simples, o cabelo preso de qualquer jeito. O olhar, porém, ainda queimava.
— Achei que tinha escolhido me esquecer.
Thomas engoliu seco.
— A gente precisa conversar.
Ela deu um meio sorriso, amargo.
— Conversar? Depois de tudo?
Entrou sem esperar convite. O cheiro familiar do apartamento o envolveu — incenso, perfume, lençóis limpos. Tanta coisa que já o havia feito pecar.
— Carina… eu não posso continuar. — A voz dele falhou, mas encontrou firmeza. — Eu estraguei tudo o que eu tinha, e não posso destruir mais.
Ela riu, uma risada curta e descrente.
— E agora virou santo?
— Não. — Ele respirou fundo. — Só percebi que o que a gente vive é um vício, não amor. E eu não quero mais me esconder de mim mesmo.
Carina se aproximou devagar, o olhar firme.
— Você me usou, Thomas. Me fez acreditar que era mais do que um erro.
Ele tentou se manter firme, mas a voz dela o cortava.
— Eu senti algo de verdade — disse. — Mas eu preciso ir.
— Precisa? Ou quer fugir? — Ela o empurrou com as duas mãos. — Você acha que pode brincar com as pessoas, rezar e tudo se apaga?
As lágrimas desceram pelo rosto dela.
— Eu te amei, Thomas. E você vai me deixar aqui sozinha, como se eu fosse só o teu pecado?
Ele estendeu a mão, mas ela se afastou.
— Vai embora. — A voz saiu rouca, ferida. — Antes que eu te odeie.
Thomas saiu sem olhar para trás. A chuva o acertou em cheio, fria, cortante. Dentro do carro, as mãos tremiam no volante. Queria sentir alívio, mas havia apenas vazio.
No retrovisor, viu o reflexo de si mesmo — um homem dividido, exausto, carregando o peso de todas as escolhas erradas.
Pegou o celular.
Uma mensagem não enviada para Eloísa piscava na tela:
“Estou voltando. Dessa vez, inteiro.”
Mas ele não apertou enviar.
Sabia que as palavras não bastavam.
Nos dias seguintes, tentou seguir a rotina. Mas nada parecia caber mais. No trabalho, evitava conversas. Na igreja, o pastor o observava de longe, sem dizer palavra. Eloísa, por sua vez, começava a perceber a distância, mas também a mudança. Ele estava mais calado, mais presente, mas também mais quebrado.
Numa noite, quando ela lhe entregou um prato de sopa e ele segurou sua mão, ela percebeu o quanto ele tremia.
— O que foi, Thomas?
Ele apenas respondeu:
— Eu acabei com o que precisava acabar.
Eloísa o olhou com ternura.
— Então talvez agora Deus comece o resto.
Mas, quando se deitou naquela noite, Thomas soube que nem tudo se cura com o tempo.
O amor de Carina não o deixaria em paz tão cedo — não porque fosse puro, mas porque nascera da mesma dor que ele tentava esquecer.
E, ao fechar os olhos, sentiu o peso da frase que ela havia dito ecoar como uma sentença:
"Você vai me deixar aqui sozinha, como se eu fosse só o teu pecado?"
Ele sabia que, por mais que tentasse, parte dele ainda estava presa naquela corrente invisível — feita não de ferro, mas de culpa.