Capítulo 17 – A Ruptura

653 Words
A chuva caía fina sobre Recife quando Thomas estacionou o carro diante do prédio de Carina. O limpador de para-brisa fazia o mesmo movimento repetitivo há minutos, mas ele não via nada. O coração batia como um tambor surdo — não de desejo, como antes, mas de medo. Medo de si mesmo. Pegou o celular. Nenhuma mensagem. Carina havia se calado desde o ultimato. “Ou você me escolhe, ou me esquece.” Era por isso que ele estava ali — para esquecer. O elevador parecia mais lento que nunca. Cada andar subindo era um peso no peito. Quando a porta se abriu, o corredor estava mergulhado em penumbra. Thomas caminhou até a porta 502 e bateu. Carina abriu. Estava descalça, de vestido simples, o cabelo preso de qualquer jeito. O olhar, porém, ainda queimava. — Achei que tinha escolhido me esquecer. Thomas engoliu seco. — A gente precisa conversar. Ela deu um meio sorriso, amargo. — Conversar? Depois de tudo? Entrou sem esperar convite. O cheiro familiar do apartamento o envolveu — incenso, perfume, lençóis limpos. Tanta coisa que já o havia feito pecar. — Carina… eu não posso continuar. — A voz dele falhou, mas encontrou firmeza. — Eu estraguei tudo o que eu tinha, e não posso destruir mais. Ela riu, uma risada curta e descrente. — E agora virou santo? — Não. — Ele respirou fundo. — Só percebi que o que a gente vive é um vício, não amor. E eu não quero mais me esconder de mim mesmo. Carina se aproximou devagar, o olhar firme. — Você me usou, Thomas. Me fez acreditar que era mais do que um erro. Ele tentou se manter firme, mas a voz dela o cortava. — Eu senti algo de verdade — disse. — Mas eu preciso ir. — Precisa? Ou quer fugir? — Ela o empurrou com as duas mãos. — Você acha que pode brincar com as pessoas, rezar e tudo se apaga? As lágrimas desceram pelo rosto dela. — Eu te amei, Thomas. E você vai me deixar aqui sozinha, como se eu fosse só o teu pecado? Ele estendeu a mão, mas ela se afastou. — Vai embora. — A voz saiu rouca, ferida. — Antes que eu te odeie. Thomas saiu sem olhar para trás. A chuva o acertou em cheio, fria, cortante. Dentro do carro, as mãos tremiam no volante. Queria sentir alívio, mas havia apenas vazio. No retrovisor, viu o reflexo de si mesmo — um homem dividido, exausto, carregando o peso de todas as escolhas erradas. Pegou o celular. Uma mensagem não enviada para Eloísa piscava na tela: “Estou voltando. Dessa vez, inteiro.” Mas ele não apertou enviar. Sabia que as palavras não bastavam. Nos dias seguintes, tentou seguir a rotina. Mas nada parecia caber mais. No trabalho, evitava conversas. Na igreja, o pastor o observava de longe, sem dizer palavra. Eloísa, por sua vez, começava a perceber a distância, mas também a mudança. Ele estava mais calado, mais presente, mas também mais quebrado. Numa noite, quando ela lhe entregou um prato de sopa e ele segurou sua mão, ela percebeu o quanto ele tremia. — O que foi, Thomas? Ele apenas respondeu: — Eu acabei com o que precisava acabar. Eloísa o olhou com ternura. — Então talvez agora Deus comece o resto. Mas, quando se deitou naquela noite, Thomas soube que nem tudo se cura com o tempo. O amor de Carina não o deixaria em paz tão cedo — não porque fosse puro, mas porque nascera da mesma dor que ele tentava esquecer. E, ao fechar os olhos, sentiu o peso da frase que ela havia dito ecoar como uma sentença: "Você vai me deixar aqui sozinha, como se eu fosse só o teu pecado?" Ele sabia que, por mais que tentasse, parte dele ainda estava presa naquela corrente invisível — feita não de ferro, mas de culpa.
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