Capítulo 2 – O Peso da Santidade

420 Words
O apartamento de dona Marta tinha paredes claras, decoradas com quadros bíblicos e versículos emoldurados, mas o ambiente parecia mais pesado do que qualquer cela. Thomas percebia isso logo ao atravessar a porta. Era como se o ar ali fosse mais denso, carregado de julgamentos invisíveis. Eloísa, sempre submissa ao olhar da mãe, pouco falava. Vestia-se com recato exagerado, como se o marido fosse apenas mais uma plateia para sua devoção. O sorriso doce que encantara Thomas no início agora aparecia raramente, quase sempre acompanhado de uma sombra de culpa. Na primeira semana de casado, Thomas ainda tentou manter a alegria. Preparou um jantar simples para Eloísa, trouxe flores baratas do caminho do banco, até cantou trechos de hinos que eles haviam entoado juntos no coral. Mas logo percebeu que não havia espaço para romance entre eles. — Eloísa, por que não vamos ao cinema no sábado? — arriscou ele uma noite, na mesa estreita da cozinha. Antes que a esposa pudesse responder, dona Marta ergueu os olhos do prato. — Cinema é lugar de perdição, Thomas. Já esqueceu dos ensinamentos? Thomas engoliu seco. Não respondeu, não quis criar discórdia. Mas por dentro, a chama da frustração começava a se acender. Na i********e, a situação era ainda mais sufocante. O quarto do casal ficava ao lado do da sogra, e cada estalar da cama parecia ecoar como pecado. Eloísa, condicionada pelos sermões da mãe, afastava qualquer tentativa de carinho que fugisse do “aceitável”. — Não, Thomas... é errado... — repetia, com os olhos semicerrados, como se temesse ser pega em flagrante. Ele, deitado ao lado dela, olhava para o teto e sentia a juventude escorrer de seus dedos. O corpo latejava por desejo, mas a alma já começava a se encher de culpa. Na igreja, as coisas não eram diferentes. Como recém-casado, todos esperavam dele um exemplo impecável. Os olhares eram atentos, as mãos estendidas sempre acompanhadas de cobranças veladas: — Agora, irmão Thomas, mais responsabilidade, não é? O senhor é cabeça da sua casa. Ele sorria, respondia com voz mansa, mas dentro de si já sentia a corda apertar em volta do pescoço. Naquela noite, sozinho na varanda minúscula do apartamento, Thomas encostou-se no parapeito e fechou os olhos. O vento quente de Recife lhe trazia lembranças da infância, da liberdade de correr descalço, da alegria simples de cantar sem medo. Agora, tudo parecia distante. “Será esse o preço da santidade?”, pensou. E, pela primeira vez, um lampejo de dúvida atravessou sua fé.
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