O banco estava silencioso naquela tarde abafada. Thomas ajeitava relatórios atrás da mesa, a gravata um pouco afrouxada pelo calor de Recife, quando percebeu a mente vagando. Não era nos números que pensava, nem nos clientes. Era no vazio que sentia ao voltar para casa todas as noites — a sensação de não pertencer àquele lar que chamavam de família.
O casamento, que deveria ser abrigo, se tornara prisão. Eloísa, antes doce e atenciosa, agora parecia apenas um reflexo da mãe: fria, distante, repetindo palavras que não eram suas. As noites de silêncio eram longas, e a cama parecia um campo de gelo.
Thomas suspirou. O único alívio ainda era a academia. Lá, ao menos, ele podia sentir o corpo vivo, os músculos queimando, a respiração ofegante. Era como uma terapia, um grito mudo contra a opressão que o sufocava.
Foi lá que a tentação apareceu pela primeira vez.
Ela era nova na academia. Morena, curvas firmes, olhar que não fugia. Thomas a notou de imediato, mas desviou, como quem teme pecar só de olhar. Ainda assim, nos dias seguintes, o acaso parecia conspirar: ela sempre no mesmo horário, sempre em aparelhos próximos, sempre um sorriso breve quando seus olhares se cruzavam.
— Você treina pesado… — disse ela um dia, segurando uma toalha, depois de observá-lo na barra fixa.
Thomas sorriu de leve, sem jeito.
— É a única forma de não enlouquecer.
— Sei bem como é… — respondeu ela, com um brilho nos olhos que dizia mais do que as palavras.
Naquela noite, deitado ao lado de Eloísa, sentiu o corpo latejando. Não era só desejo, era carência. Ele esticou o braço, buscando a esposa, mas ela virou de costas, murmurando:
— Estou cansada, Thomas. Amanhã acordo cedo para o ensaio do coral.
Ele fechou os olhos, o peito pesado. A imagem da mulher da academia surgiu clara em sua mente, como um sussurro proibido.
Os encontros casuais viraram conversas rápidas. Depois, conversas mais longas. Ela se chamava Carina. Tinha uma risada leve, diferente do ambiente carregado que Thomas vivia em casa. Com ela, até as frases mais simples pareciam respiro.
— Você é casado, não é? — perguntou um dia, sem rodeios.
Thomas hesitou.
— Sou.
— E… feliz? — os olhos dela cravaram nos dele.
A pergunta ficou ecoando. Ele não respondeu de imediato. Sentiu o nó apertando a garganta.
— Não sei mais.
Carina apenas assentiu, como se já esperasse aquela resposta.
Na semana seguinte, um temporal desabou sobre a cidade. Thomas saiu da academia tarde, a chuva castigando as ruas. Carina estava parada na porta, olhando o aguaceiro.
— Não trouxe guarda-chuva — ela disse, sorrindo.
Thomas riu.
— Também não.
A decisão veio como um impulso.
— Quer que eu te dê uma carona? Moro perto, mas acho que a chuva não vai passar tão cedo.
Ela aceitou.
No carro, o ar estava pesado de silêncio. A cada relâmpago, o rosto dela se iluminava. As mãos quase se tocaram sobre o câmbio. O coração de Thomas batia como nos cultos mais intensos, mas não era fé que pulsava em seu peito. Era desejo.
Quando estacionou em frente ao prédio dela, Carina o olhou firme.
— Quer subir?
A pergunta soou como um golpe no ar. Thomas fechou os olhos por um instante. A imagem de Eloísa, fria na cama, lhe atravessou a mente. A de dona Marta, com seu olhar acusador, também. Mas junto delas, o vazio, o gelo, a solidão.
Abriu os olhos e viu Carina à sua frente, viva, quente, real.
Ele não resistiu.
Naquele apartamento simples, o mundo desabou em gemidos contidos e beijos urgentes. Thomas sentiu cada músculo vibrar, cada carícia como um despertar. Era pecado, ele sabia. Mas, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se vivo.
E, ao deitar-se exausto ao lado dela, percebeu: não havia volta.