O relógio marcava quase meia-noite quando Thomas voltou para casa. As roupas ainda guardavam o cheiro do perfume de Carina, doce e quente, tão diferente do cheiro frio das paredes do apartamento da sogra. Ele entrou em silêncio, para não chamar atenção, mas o coração martelava como se todos pudessem ouvir.
Eloísa dormia de lado, o corpo encolhido, como de costume. Ao lado da cama, a Bíblia aberta sobre a mesinha parecia vigiar cada passo dele. Thomas respirou fundo e se deitou ao lado dela, sem coragem de encostar. O peso da culpa caiu sobre seus ombros como um manto molhado.
“Eu pequei”, pensou. “Traí não apenas minha esposa, mas também minha fé, meu Deus, minha igreja.”
Fechou os olhos, mas as imagens voltavam. Carina sorrindo. Os gemidos livres, sem freio. O calor da pele contra a sua. Aquilo não era apenas desejo — era vida.
Na manhã seguinte, o tormento aumentou. Dona Marta já estava na cozinha, fervendo café e recitando trechos bíblicos em voz alta, como se pregasse para os anjos.
— Um homem de verdade é firme, não se deixa cair nas tentações do mundo! — bradou, sem nem olhar para Thomas, mas ele sentiu cada palavra como uma acusação.
Eloísa apareceu de cabelo preso, roupa simples de coral. Deu um beijo rápido no marido, frio, distante.
— Não esquece que hoje temos ensaio. Quero você comigo.
Thomas assentiu, sem coragem de contrariar.
No banco, porém, sua mente não estava nos números. A lembrança da noite anterior era um veneno doce: a culpa corroía, mas o desejo queimava ainda mais forte. Cada cliente que entrava, cada pilha de relatórios parecia insignificante diante da tempestade que ele vivia por dentro.
À noite, no ensaio do coral, a tensão ficou insuportável. A igreja iluminada, as vozes em harmonia, as mãos erguidas em louvor — tudo aquilo que antes era refúgio agora parecia hipocrisia. Quando entoou os primeiros versos, sua voz tremeu. Sentiu os olhos de todos sobre si, mas não era o olhar da congregação que pesava: era o olhar da própria consciência.
“Se soubessem onde estive ontem…”
Sentiu as pernas bambas, quase largou a pasta de hinos. Eloísa cantava ao seu lado, inocente em sua devoção. Dona Marta, na primeira fileira, erguia os braços e murmurava em línguas, como se o Espírito a possuísse.
Thomas fechou os olhos, mas em vez de luz, só via escuridão.
Em casa, Eloísa se aproximou mais cedo daquela noite. Talvez inspirada pelo ensaio, talvez pressionada pela mãe, ela deitou a cabeça no peito dele e sussurrou:
— Vamos recomeçar, Thomas. Eu quero ser uma boa esposa.
Ele a beijou, sentindo a doçura do gesto. Mas, quando o corpo dela se moveu sobre o seu, a mente dele fugiu para outro quarto, outro corpo, outro prazer.
Gemidos contidos de Carina ecoavam como sombra.
Thomas virou o rosto no travesseiro, os olhos marejados. Estava preso entre dois mundos: o do dever e o do desejo. O da santidade e o da carne.
E, pela primeira vez, percebeu que não conseguiria ficar em cima do muro por muito tempo.