Capítulo 5 – O Cheiro da Mentira

896 Words
Thomas acordou antes do sol nascer. O corpo ainda pesado da noite anterior, a mente tomada pelo turbilhão de lembranças. O toque de Carina, o calor da pele dela contra a sua, a liberdade que experimentava ao lado dela… tudo isso permanecia gravado como fogo. Mas, junto do prazer, vinha o gosto amargo da culpa. Ao seu lado, Eloísa dormia encolhida, como sempre. Ele a observou por alguns instantes, tentando resgatar o sentimento de ternura que o fizera casar-se tão cedo. Havia amor, sim, mas também havia um abismo crescente entre eles. Um abismo que ele mesmo cavava a cada encontro proibido. Levantou-se devagar, vestiu a calça social, camisa branca e gravata. No espelho, viu o rosto de um homem dividido. Gerente de banco, marido exemplar aos olhos da igreja, mas pecador em segredo. No café da manhã, dona Marta estava de bíblia aberta sobre a mesa, lendo em voz alta como quem pregava: — “A alma que pecar, essa morrerá” — proclamou, batendo o dedo no versículo. Thomas sentiu o sangue gelar. Será que ela sabia? Será que conseguia enxergar em seus olhos a marca do pecado? Desviou o olhar, pegou uma xícara de café e forçou um gole. Eloísa colocou pão na mesa, em silêncio. Não havia carinho no gesto, apenas rotina. Thomas engoliu seco, lembrando-se da risada de Carina, tão espontânea, tão diferente. No banco, as horas arrastaram-se. Entre uma assinatura e outra, entre relatórios e ligações, a mente dele fugia. O celular vibrou discretamente na gaveta. Era uma mensagem. Carina: “Não paro de pensar em ontem. Você vem hoje?” Thomas fechou os olhos, respirando fundo. O coração acelerou. A cada mensagem dela, o mundo fora daquelas quatro paredes parecia chamar mais alto. Thomas: “Não sei. Não posso. Mas quero.” A resposta veio rápida: Carina: “Então não lute contra isso. Só venha.” Ele guardou o celular, o peito ardendo. Era como estar preso entre duas correntes: uma puxando-o para a igreja, a família, a “santidade”; a outra atraindo-o para o prazer, a liberdade, a vida que ele desejava em segredo. Naquela noite, Thomas voltou tarde. Dissera a Eloísa que ficara no banco resolvendo pendências. Mas, na verdade, tinha estado mais uma vez nos braços de Carina. O perfume dela ainda impregnava sua pele, apesar do banho apressado. Ao entrar em casa, encontrou Eloísa acordada, sentada na sala, os olhos fixos nele. — Você está estranho, Thomas. — A voz dela não era de acusação, mas de preocupação. — Tem chegado tarde, distante… O que está acontecendo? Ele forçou um sorriso, tentando disfarçar. — Trabalho, Eloísa. Só isso. O banco está exigindo muito de mim. Ela se aproximou, encostando o rosto no peito dele. Inspirou fundo, como quem buscava segurança. Mas, de repente, franziu a testa. — Que cheiro é esse? O coração de Thomas disparou. Era o perfume de Carina, doce e marcante, impossível de confundir. Ele recuou um passo, tentando disfarçar. — Deve ser do carro… o pessoal do banco usa muito perfume forte. Eloísa não insistiu, mas seus olhos o acompanharam em silêncio. Dias depois, a tensão só aumentava. Eloísa observava mais. Thomas percebia o olhar dela demorando em sua roupa, em sua expressão, em seus horários. Dona Marta, sempre atenta, também parecia farejar algo. — Thomas, meu genro… — disse ela uma noite, enquanto a família jantava. — O Senhor revela o oculto. Tudo que está escondido será trazido à luz. As palavras ecoaram como sentença. Thomas abaixou a cabeça, sem coragem de encarar. No coral, a situação piorou. Durante o ensaio, Thomas sentia dificuldade em cantar. As letras de louvor lhe pareciam acusar, cada nota um lembrete da sua hipocrisia. Eloísa, ao seu lado, entoava com devoção, mas o olhava de canto, desconfiada. No intervalo, ela segurou seu braço. — Thomas… — a voz dela saiu embargada. — Você ainda me ama? Ele quis dizer que sim. Quis segurar sua mão, prometer mudar. Mas a imagem de Carina invadiu sua mente com força. Ficou mudo. Eloísa encheu os olhos de lágrimas. — Se tem algo que eu preciso saber, me diga. Eu sou sua esposa, Thomas. Ele engoliu seco. Não teve coragem de confessar. Apenas a abraçou, apertado, tentando calar a própria consciência. Naquela noite, deitado ao lado dela, Thomas sentiu a prisão se fechar ainda mais. Amava Eloísa de uma forma, mas desejava Carina de outra. A cada encontro com a amante, a culpa crescia, mas também crescia o medo de perder a liberdade recém-descoberta. Virou-se de costas para a esposa, os olhos fixos no teto. “Até quando vou conseguir esconder?” O silêncio da noite parecia responder: não por muito tempo. Os dias seguintes foram de tensão insuportável. Eloísa passou a observá-lo com olhos marejados, como se buscasse pistas. Dona Marta intensificou os sermões, falando contra “homens de coração dividido”. Thomas, cada vez mais consumido, percebeu que estava à beira de uma escolha. Continuar na mentira, arriscando ser desmascarado, ou confessar e enfrentar a fúria da esposa, da sogra, da igreja inteira. No fundo, sabia que o destino já o esperava. O pecado não ficaria escondido para sempre. E, no silêncio daquela madrugada, sozinho na varanda, ele chorou pela primeira vez em muito tempo. Chorou não por arrependimento, mas pelo medo de perder aquilo que, mesmo proibido, o fazia se sentir vivo
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD