Capítulo 6 – Tudo que Está Oculto

1625 Words
A chuva começara fina no fim da tarde e, quando Thomas saiu do banco, o céu de Recife já pesava como chumbo. Ele pensou em passar na academia, mas o corpo não pediu ferro nem esteira — pediu silêncio. Dirigiu devagar, tentando alongar os minutos antes de chegar ao apartamento de dona Marta. O limpador varria o para-brisa no mesmo ritmo das batidas do seu coração. Subiu as escadas com um pressentimento antigo: a sensação de que alguém o esperava do outro lado da porta, não com abraço, mas com sentença. Abriu. A sala estava organizada demais. A Bíblia de dona Marta sobre a mesa, marcada com fitas coloridas. Um bule de café ainda morno sobre o aparador. E Eloísa, sentada no sofá, mãos entrelaçadas, o olhar parado. — Oi… — Thomas disse, a voz um tom acima do normal. — Choveu muito. O trânsito… — Senta. — A voz dela não pediu: ordenou. Thomas pousou a pasta, o celular, a chave. Sentou de frente para ela, o sofá afundando sob o peso das coisas não ditas. — A mamãe foi ao círculo de oração — Eloísa disse, sem mover o rosto. — Pediu para eu ir, mas eu disse que precisava falar com você. Hoje. Agora. Thomas assentiu. Um trovão respondeu por ele. — Eu tenho tentado fechar os olhos, Thomas. Tenho. — As mãos dela se apertaram com força. — Mas eles se abrem sozinhos quando você chega tarde, com cheiro que não é seu. Quando desvia o olhar quando eu chego perto. Quando finge que cantar no coral ainda te toca. Ele engoliu seco. O hálito cheirava a café frio e medo. — Eloísa, eu… — Eu encontrei uma mensagem no seu celular. — Ela o cortou, e os olhos finalmente o fitaram. Não eram olhos de fúria; eram olhos de alguém que ainda queria acreditar. — Não procurei. Só apareceu na tela. “Vem hoje.” “Não sei. Não posso. Mas quero.” — Ela respirou fundo, como quem força o ar a atravessar o peito. — Era isso, não era? Thomas olhou para a janela. A chuva engrossara. As gotas deslizavam como pequenas confissões sobre o vidro. — Foi um erro — murmurou. — Eu estou… confuso. — Confuso? — Ela riu, e o riso veio com água. — Confuso é quando a gente não sabe se quer cuscuz ou pão no café. Traição não é confusão, Thomas. O nome “traição” cruzou o ar como uma lâmina. Ele sentiu o corte. — Eu tentei, Eloísa. — As palavras saíram, enfim. — Eu tentei com você. Com a gente. Eu quis acreditar que a gente podia… recomeçar. Mas eu volto do banco e não encontro lar. Encontro regra. Encontro alguém me vigiando até no escuro. Eu amo você do meu jeito, mas… — Mas não é suficiente — ela completou, a voz falhando. O silêncio que se seguiu não foi vazio; foi cheio de memórias. O casamento apressado. O quarto ao lado da sogra. As noites em que qualquer toque virava pecado. O coral. Os hinos. As promessas. E, no meio de tudo, Carina — um nome que Thomas não ousou dizer. — Ela tem nome? — Eloísa perguntou, sem rodeios. Ele fechou os olhos. — Tem. — E você ama? Thomas demorou. Demorou o tempo exato que destrói refúgios. — Eu não sei o nome do que eu sinto. — Ele passou a mão no rosto. — Eu sei que, com ela, eu respiro. E aqui… — abriu as mãos, como quem mostra algo invisível — eu me afogo. Eloísa virou o rosto. A lágrima que resistia cedeu e traçou uma linha limpa na pele. Quando voltou a encará-lo, havia firmeza. — Eu posso perdoar um erro. Eu disse que ia tentar. Mas não posso viver pedindo permissão para existir dentro do meu próprio casamento. — Ela inspirou. — A mamãe diz que o que você sente é só a carne falando. Eu cresci ouvindo isso. Mas hoje eu ouvi minha própria voz… e ela disse que não quer ser uma esposa que vigia, que acusa, que compete com uma igreja inteira pelo marido. Eu não quero ser isso. — Eloísa… — Eu preciso saber, Thomas. Você quer ficar? Ele sentiu um vazio abrir nos pés, como um degrau que some na escada. Do quarto, uma corrente de vento fechou a porta do armário com um estalo. A chuva começou a bater com força na janela, como se o céu também pedisse resposta. — Se ficar significa continuar vivendo como a gente viveu, não. — A frase saiu baixa, mas inteira. — Eu não consigo mais. Eloísa levou a mão à boca e fechou os olhos, assustada com a coragem dele. Na mesma hora, como se invocada, a campainha tocou. Os dois se entreolharam. Eloísa secou os olhos com o dorso da mão e levantou. Dona Marta entrou envolta em guarda-chuva e certezas. — A paz do Senhor — anunciou, como sempre. Ao ver o rosto da filha, guardou o guarda-chuva, pousou a bolsa e entendeu sem que lhe dissessem. — O que ele fez? Ninguém respondeu. As palavras estavam sentadas no sofá. — Eu sabia. — A sogra foi até a mesa e abriu a Bíblia como quem saca uma espada. — O Espírito já me avisara. Homens vacilam, a carne é fraca… — Mamãe. — Eloísa ergueu a mão, firme. — Deixa eu falar. Dona Marta piscou, contrariada, mas calou-se. A filha parecia maior que a própria sala. — O Thomas errou. Eu não estou cega. — Eloísa buscou a mão do marido e, por um segundo, segurou sem ódio. — Mas esse erro não começou ontem. Ele começou quando a gente transformou nosso casamento num culto perpétuo. Quando a gente esqueceu que corpo também é linguagem. Quando eu deixei de ouvir a minha vontade e passei a ouvir a sua, mamãe, mesmo dentro do meu quarto. Dona Marta empalideceu. — Você está me acusando? — Eu estou me ouvindo, pela primeira vez. Thomas, que se preparara para ser açoitado por versículos, se viu paralisado pela coragem de Eloísa. A respiração dele mudou de ritmo. Um carinho antigo, esquecido, tocou-lhe de leve o peito — não era desejo; era gratidão. — Eu perguntei a ele se queria ficar — Eloísa continuou. — Ele disse que não, se for para continuar assim. Eu também não. Não desse jeito. — Divórcio? — a palavra de dona Marta veio carregada de enxofre. — Talvez. — Eloísa olhou para Thomas. — Mas, antes do papel, eu quero verdade. Só isso. Dona Marta fechou a Bíblia com força. — A igreja não vai aceitar. O pastor… — O pastor não dorme na minha cama — cortou Eloísa, surpreendendo a si mesma. E, então, mais baixo, quase um pedido: — Mamãe, por favor. O trovão estourou perto. A luz piscou e voltou. Thomas sentiu que ali, naquela sala, algo se quebrava — e que, a partir daquele estalo, tudo teria de ser outro. — Eu vou sair hoje — ele disse, por fim. — Vou para a casa de um amigo. Amanhã… amanhã a gente conversa sobre o que fazer com calma. Sem grito. Sem versículo como arma. — Você está escolhendo o caminho da perdição — dona Marta cuspiu, mas sem a mesma certeza. — Eu estou escolhendo o caminho onde eu assumo o que eu sou — Thomas respondeu, num tom que não usava havia meses. — E onde ninguém mais decide por mim o tamanho do meu fôlego. Ele levantou. Recolheu a pasta, o celular, a chave. No corredor, parou diante da porta do quarto. O lençol esticado, a Bíblia na mesinha, tudo no mesmo lugar — nada era mais o mesmo. — Thomas. — A voz de Eloísa o alcançou. Ele voltou-se. Ela se aproximou devagar. O rosto ainda úmido, mas sem tremor. — Eu não sei se consigo te perdoar, não hoje. — Ela respirou. — Mas… obrigada por não mentir para mim agora. Ele assentiu. Por um instante, quis abraçá-la — não como marido, mas como alguém que reconhece a dignidade no outro. Não ousou. Abriu a porta. A chuva o recebeu com um frio limpo. No corredor, o eco dos passos parecia marcar uma contagem regressiva. Quando chegou ao carro, o celular vibrou. Uma mensagem acendeu a tela. Ele não abriu. Não ainda. Ligou o motor, mas não saiu. Olhou a fachada do prédio, a janela da sala. A silhueta de Eloísa passou por trás da cortina, pequena e enorme ao mesmo tempo. Thomas apoiou a testa no volante e deixou que as lágrimas viessem. Não eram só de culpa — eram também de alívio, de luto, de um tipo estranho de esperança que nasce quando a verdade enfim encontra a luz. No retrovisor, o próprio rosto. Não o do gerente impecável, nem o do pecador escondido: o de um homem que escolhera, pela primeira vez, dizer “não” às correntes que o mantinham de joelhos. Engatou a marcha. A cidade molhada abriu caminho. E, enquanto a chuva lavava o parabrisa, Thomas percebeu que o que vem depois do fim não é o vazio — é a chance, dolorosa e rara, de começar de verdade. Quando o carro dobrou a esquina, dona Marta fechou a janela com um gesto crispado e foi até a filha, bíblia em punho. — Você vai deixá-lo partir? Eloísa encarou a mãe. — Eu vou deixá-lo assumir o próprio peso. E eu vou assumir o meu. — Fechou os olhos, como quem ora sem palavras. — O que estiver oculto, vai aparecer. Mas, quando aparecer, que a gente não esteja de olhos fechados. Do lado de fora, a tempestade cessava. Dentro, começava outra — menos barulhenta, mais verdadeira.
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