As noites eram as mais difíceis.
Thomas deitava-se ao lado de Eloísa, o corpo cansado do trabalho, mas a mente inquieta. O quarto cheirava a café velho e a Bíblia aberta na mesinha, lembranças constantes de tudo o que ele havia prometido restaurar. Eloísa, ao lado, respirava em silêncio. Às vezes se aproximava, às vezes mantinha distância. E, quando se aproximava, o coração dele batia mais rápido — mas não apenas por ela.
Carina ainda estava lá, dentro dele.
O toque dela, a risada fácil, o perfume adocicado. Tudo voltava na calada da noite. Mesmo abraçando Eloísa, sentia os lábios queimarem de lembranças. O corpo respondia, mas não à esposa — respondia ao fantasma do prazer proibido.
No banco, durante o expediente, as lembranças eram mais traiçoeiras. Bastava uma cliente sorrir diferente, um perfume invadir o ar, e sua mente corria para os encontros escondidos. Tentava se concentrar nos relatórios, mas os números se embaralhavam com gemidos, com o calor da pele de Carina contra a sua.
Engolia a culpa, dia após dia, como quem bebe veneno em pequenas doses.
Eloísa percebia. Não precisava de provas para sentir.
— Onde você está agora? — perguntou uma noite, encarando-o.
Thomas desviou o olhar.
— Aqui, com você.
— Não, não está. — A voz dela saiu firme, mas quebrada. — O seu corpo está. Mas sua mente está em outro lugar.
Ele tentou negar, mas não conseguiu. Apenas segurou a mão dela, sem coragem de encarar os olhos.
Certa madrugada, levantou-se sem fazer barulho. Foi até a varanda, sentou-se na cadeira de madeira e deixou o vento frio bater no rosto. Pegou o celular. O dedo pairou sobre o nome de Carina nos contatos. Bastava um toque. Bastava uma mensagem curta.
O coração disparava. A tentação queimava.
Mas, pela primeira vez, resistiu. Bloqueou a tela, jogou o celular sobre a mesa e cobriu o rosto com as mãos. Chorou em silêncio.
— Deus, me ajuda… — murmurou. — Eu prometi. Eu não posso cair de novo.
Na manhã seguinte, Eloísa o observou em silêncio. Viu as olheiras, os olhos vermelhos, a exaustão no corpo. Sabia que ele travava uma guerra invisível. E, apesar da dor, apesar da desconfiança, ela também decidiu lutar. Preparou o café, colocou a xícara diante dele e tocou-lhe o ombro.
— Eu sei que é difícil, Thomas. Mas não desista de nós.
Ele a olhou, e por um instante sentiu uma faísca de esperança. Talvez fosse possível. Talvez.
Mas, no fundo, sabia: a luta contra os desejos e memórias não era apenas contra Carina. Era contra ele mesmo.
E essa guerra ainda estava longe de acabar.