Thomas havia prometido resistir.
Prometera a Eloísa, ao pastor, a si mesmo — e até a Deus, em orações silenciosas nas madrugadas em que o desejo o perseguia. Mas promessas, ele aprendera, eram frágeis quando o coração e o corpo puxavam para lados diferentes.
Aquela semana no banco foi longa. Clientes impacientes, planilhas intermináveis, cobranças de metas. E, no meio do caos, uma coincidência: Carina entrou na agência.
Ele congelou.
Usava um vestido simples, mas o perfume era o mesmo — doce, quente, inconfundível. Quando o viu, sorriu com uma mistura de surpresa e provocação.
— Thomas… quanto tempo.
O coração dele disparou. Tentou manter o tom profissional.
— Carina… você… precisa de atendimento?
— Talvez — respondeu, com um sorriso enviesado. — Mas acho que o que eu mais preciso é conversar.
Thomas desviou o olhar, nervoso. Os colegas circulavam por perto, mas o mundo pareceu encolher.
— Não é uma boa ideia.
— Ideias ruins são as que mais lembramos. — Ela se inclinou sobre o balcão, a voz baixa. — Me vê às seis, no lugar de sempre. Só pra conversar.
Ele hesitou. Queria dizer não. Precisava dizer não. Mas o corpo reagia antes da consciência.
Às seis, o céu de Recife estava cor de cobre. Thomas saiu do banco e andou sem rumo. O celular vibrava com mensagens de Eloísa:
“Vai demorar?”
“Mamãe perguntou se janta.”
Ele respondeu rápido: “Já estou indo.”
Mas não foi.
As pernas o levaram para o bar discreto onde já havia estado antes com Carina. E lá ela estava — como se nunca tivesse deixado de esperá-lo.
— Achei que não viria — disse ela, com aquele sorriso que misturava desafio e ternura.
Thomas se sentou, o coração batendo alto.
— Eu não devia estar aqui.
— Mas está. — Ela o encarou. — E não precisa mentir: você sente falta.
Ele tentou resistir. Falou sobre arrependimento, sobre fé, sobre a promessa feita. Carina apenas o ouvia, os olhos atentos, os lábios entreabertos. Quando pousou a mão sobre a dele, Thomas sentiu a força invisível que o arrastava de volta.
— Não fala nada — ela sussurrou. — Só sente.
O resto da noite foi um borrão.
O beijo veio primeiro, urgente, carregado de culpa e necessidade. Depois, o toque, o corpo, o quarto pequeno de sempre. Cada vez que tentava afastar-se, o desejo o puxava de volta, como corrente viva.
E, no instante em que se rendeu completamente, soube que perdera outra batalha.
Ao voltar para casa, já passava das onze. Eloísa dormia, o rosto sereno sob a luz fraca do abajur. Thomas ficou parado na porta, observando-a. Quis acreditar que ainda podia amá-la daquele jeito puro, mas o corpo ainda ardia com o toque de outra mulher.
Deitou-se ao lado dela, tentando se convencer de que seria a última vez. Mas sabia, no fundo, que não era.
Nos dias seguintes, o peso da culpa voltou a assombrá-lo. Cada oração parecia vazia, cada gesto de Eloísa um espelho c***l.
Ela percebia algo, mesmo sem provas.
— Você está diferente de novo, Thomas. — A voz dela era calma, mas o olhar, profundo. — Está escondendo alguma coisa?
Ele negou, rápido demais.
— Só cansaço. O trabalho tem me consumido.
Mas o cheiro de Carina ainda impregnava a pele, o perfume doce que nenhuma água conseguia apagar.
Na igreja, o coral ensaiava um hino sobre perdão. Thomas, sentado no último banco, sentia o peito apertar.
“Quantas vezes o Senhor perdoará o mesmo pecado?”, pensou.
E, pela primeira vez, não encontrou resposta.
O fogo do desejo, que antes parecia uma faísca, agora era labareda. Ele tentava rezar, mas só ouvia a voz de Carina em sua cabeça. Tentava abraçar Eloísa, mas a lembrança de outro corpo o impedia de se entregar por completo.
O pecado deixara de ser um erro para se tornar um ciclo. E, no fundo, Thomas já não sabia se queria mesmo escapar dele.
Naquela noite, ajoelhou-se ao lado da cama, sem coragem de olhar para o céu.
— Senhor… eu não mereço mais o Teu perdão.
E, no silêncio, sentiu que as correntes que o prendiam não vinham mais da sogra, nem da igreja.
Eram dele.
Correntes invisíveis, feitas de desejo, culpa e arrependimento. Correntes que ele mesmo alimentava toda vez que dizia: “só mais uma vez”.