A chuva chegou mansa naquela tarde, caindo como se pedisse desculpa por interromper o sol. Nina estava sozinha em casa — Thomas tinha ido ao centro comunitário para uma palestra, e Lia prometera passar mais tarde com Helena. A casa estava silenciosa, mas era um silêncio confortável, cheio de ecos de risadas, passos e lembranças boas. Ela decidiu aproveitar o tempo para organizar o escritório — aquele cantinho onde o passado se misturava com o presente. As gavetas guardavam um mundo inteiro: fotos antigas, papéis amarelados, cartas de Lia, bilhetes trocados com Thomas, contas pagas com recados escritos no verso (“não esquece o pão”, “te amo mais do que café”). Enquanto tirava os livros da estante, um caderno caiu no chão. Era o velho caderno amarelo de Thomas. A capa estava gasta, os

