Thomas sempre fora um homem de gestos contidos.
Mas com Cíntia, algo dentro dele mudava.
Ela despertava um lado que ele pensava ter morrido — o lado que acreditava em gestos simples, em palavras sinceras e em segundas chances.
Depois de semanas de conversas, risadas e olhares que falavam mais do que diziam, Thomas decidiu fazer algo que não fazia há muito tempo: ser romântico de verdade.
Sem planejar demais, sem medo de parecer vulnerável.
Passou em uma floricultura antes do trabalho e escolheu um buquê de lírios e rosas brancas — delicadas, mas firmes, como ela.
Enquanto pagava, o atendente comentou:
— Pra alguém especial, né?
Thomas sorriu.
— É, pra alguém que talvez nem saiba o quanto é.
---
No fim da tarde, dirigiu até o bairro onde Cíntia morava com os pais.
O coração batia mais rápido a cada esquina.
Não por insegurança, mas por algo raro: expectativa boa.
Ele não buscava impressionar — queria apenas mostrar que, dessa vez, estava disposto a tentar do jeito certo.
Quando chegou, o portão estava aberto.
Uma casa simples, pintada de bege, com plantas bem cuidadas e cheiro de bolo vindo da cozinha.
Ele respirou fundo e tocou a campainha.
Quem atendeu foi o pai dela, um homem de expressão bondosa e olhar curioso.
— Boa tarde. O senhor é...?
— Thomas — respondeu, ajeitando o buquê. — Amigo da Cíntia.
O homem sorriu, cordial.
— Ah, o gerente do banco! Entre, rapaz. Ela falou de você.
A mãe, vindo da cozinha, enxugava as mãos no pano de prato e logo se encantou com o gesto.
— Que flores lindas! Pra Cíntia?
Thomas assentiu, meio sem graça.
— Sim, senhora. Só quis agradecer a amizade dela.
Mas o tom de sua voz entregava algo mais.
O pai riu, simpático:
— Pode esperar na sala. Ela tá se arrumando pra sair, acho que vai gostar da surpresa.
---
Minutos depois, Cíntia apareceu no corredor.
Usava uma blusa clara e o cabelo solto, simples e linda como sempre.
Mas quando viu Thomas de pé, segurando o buquê, seu semblante mudou.
O sorriso espontâneo dos pais contrastava com a tensão súbita no rosto dela.
— Thomas… o que é isso? — perguntou, num tom baixo, quase constrangido.
Ele sorriu, tentando amenizar.
— Achei que flores seriam um jeito melhor de dizer o que palavras não dizem.
Os pais se entreolharam, encantados com a cena.
Mas Cíntia parecia desconfortável.
Olhou para os dois e, sem graça, pediu licença:
— Pai, mãe, posso falar com ele lá fora um instante?
Saíram para o jardim.
O ar parecia pesado, como se algo invisível estivesse prestes a quebrar.
---
— Cíntia, eu só quis te surpreender — começou ele, ainda sorrindo. — Achei que…
— Thomas — interrompeu ela, tensa —, você não devia ter vindo aqui assim.
Ele franziu o cenho.
— Por quê?
Ela respirou fundo, olhando para o chão.
— Porque as pessoas… elas vão falar.
— Falar o quê? Que um homem foi educado o suficiente pra levar flores pra uma mulher que gosta?
Cíntia suspirou, passando a mão pelo cabelo.
— Não é tão simples. Eu… eu frequento a igreja, Thomas. Meus pais também. Você sabe como é.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu sei — respondeu, calmo. — Mas o que isso tem a ver com a gente?
Ela o olhou nos olhos, hesitante.
— Eu gosto de você. Mas… você é divorciado.
As palavras vieram como um soco.
Não por serem cruéis — mas por serem previsíveis demais.
Era o tipo de barreira que Thomas pensava ter deixado no passado.
— E isso muda o quê, Cíntia? — perguntou, com a voz baixa, mas firme.
Ela desviou o olhar.
— Muda tudo. Eu não posso… não posso assumir algo com você. As pessoas vão me julgar, vão julgar a minha fé. Eu não quero isso.
Thomas respirou fundo, tentando controlar a decepção.
O vento soprou entre eles, espalhando o perfume das flores que ele ainda segurava.
— Então é isso? — perguntou. — Eu te trouxe flores e você me devolve medo?
Ela mordeu o lábio inferior, os olhos marejados.
— Não é medo. É… cuidado.
— Cuidado? — ele sorriu, amargo. — Eu passei metade da vida me ferindo por “cuidado” dos outros. Agora que aprendi a amar sem culpa, descubro que amor, pra você, ainda é pecado.
— Não diz isso — pediu ela, num sussurro.
Mas era tarde.
Thomas estendeu o buquê, colocando-o nas mãos dela.
— Fica com elas. Elas não têm culpa.
Deu as costas e começou a caminhar até o carro.
Cíntia o chamou, a voz trêmula:
— Thomas…
Ele parou, sem se virar.
— Eu não sou mais o homem que a igreja expulsou, Cíntia.
— Eu sei…
— Mas você ainda é a mulher que tem medo do que ela pensa.
Entrou no carro e partiu.
---
Na sala, os pais de Cíntia olhavam pela janela, sem entender o que havia acontecido.
Ela ficou parada na porta, segurando o buquê, com os olhos marejados e o coração dividido entre a fé que a prendia e o sentimento que a libertava.
Lá fora, o carro de Thomas desaparecia na rua estreita, levando consigo mais uma esperança frustrada.
Mas, desta vez, ele não sentia raiva — sentia clareza.
Sabia que, por mais bonita que fosse, aquela história não era amor.
Era um espelho — mais um lembrete de que o mundo muda, mas o julgamento ainda veste roupas santas.
E, enquanto dirigia de volta pra Caruaru, o rádio tocava baixinho uma canção antiga.
Thomas sorriu, amargo, mas sereno.
Porque, no fundo, ele sabia:
mesmo quando o coração se decepciona, o amor-próprio é a única fé que nunca abandona.