Capítulo 33 – Flores e Silêncios

960 Words
Thomas sempre fora um homem de gestos contidos. Mas com Cíntia, algo dentro dele mudava. Ela despertava um lado que ele pensava ter morrido — o lado que acreditava em gestos simples, em palavras sinceras e em segundas chances. Depois de semanas de conversas, risadas e olhares que falavam mais do que diziam, Thomas decidiu fazer algo que não fazia há muito tempo: ser romântico de verdade. Sem planejar demais, sem medo de parecer vulnerável. Passou em uma floricultura antes do trabalho e escolheu um buquê de lírios e rosas brancas — delicadas, mas firmes, como ela. Enquanto pagava, o atendente comentou: — Pra alguém especial, né? Thomas sorriu. — É, pra alguém que talvez nem saiba o quanto é. --- No fim da tarde, dirigiu até o bairro onde Cíntia morava com os pais. O coração batia mais rápido a cada esquina. Não por insegurança, mas por algo raro: expectativa boa. Ele não buscava impressionar — queria apenas mostrar que, dessa vez, estava disposto a tentar do jeito certo. Quando chegou, o portão estava aberto. Uma casa simples, pintada de bege, com plantas bem cuidadas e cheiro de bolo vindo da cozinha. Ele respirou fundo e tocou a campainha. Quem atendeu foi o pai dela, um homem de expressão bondosa e olhar curioso. — Boa tarde. O senhor é...? — Thomas — respondeu, ajeitando o buquê. — Amigo da Cíntia. O homem sorriu, cordial. — Ah, o gerente do banco! Entre, rapaz. Ela falou de você. A mãe, vindo da cozinha, enxugava as mãos no pano de prato e logo se encantou com o gesto. — Que flores lindas! Pra Cíntia? Thomas assentiu, meio sem graça. — Sim, senhora. Só quis agradecer a amizade dela. Mas o tom de sua voz entregava algo mais. O pai riu, simpático: — Pode esperar na sala. Ela tá se arrumando pra sair, acho que vai gostar da surpresa. --- Minutos depois, Cíntia apareceu no corredor. Usava uma blusa clara e o cabelo solto, simples e linda como sempre. Mas quando viu Thomas de pé, segurando o buquê, seu semblante mudou. O sorriso espontâneo dos pais contrastava com a tensão súbita no rosto dela. — Thomas… o que é isso? — perguntou, num tom baixo, quase constrangido. Ele sorriu, tentando amenizar. — Achei que flores seriam um jeito melhor de dizer o que palavras não dizem. Os pais se entreolharam, encantados com a cena. Mas Cíntia parecia desconfortável. Olhou para os dois e, sem graça, pediu licença: — Pai, mãe, posso falar com ele lá fora um instante? Saíram para o jardim. O ar parecia pesado, como se algo invisível estivesse prestes a quebrar. --- — Cíntia, eu só quis te surpreender — começou ele, ainda sorrindo. — Achei que… — Thomas — interrompeu ela, tensa —, você não devia ter vindo aqui assim. Ele franziu o cenho. — Por quê? Ela respirou fundo, olhando para o chão. — Porque as pessoas… elas vão falar. — Falar o quê? Que um homem foi educado o suficiente pra levar flores pra uma mulher que gosta? Cíntia suspirou, passando a mão pelo cabelo. — Não é tão simples. Eu… eu frequento a igreja, Thomas. Meus pais também. Você sabe como é. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Eu sei — respondeu, calmo. — Mas o que isso tem a ver com a gente? Ela o olhou nos olhos, hesitante. — Eu gosto de você. Mas… você é divorciado. As palavras vieram como um soco. Não por serem cruéis — mas por serem previsíveis demais. Era o tipo de barreira que Thomas pensava ter deixado no passado. — E isso muda o quê, Cíntia? — perguntou, com a voz baixa, mas firme. Ela desviou o olhar. — Muda tudo. Eu não posso… não posso assumir algo com você. As pessoas vão me julgar, vão julgar a minha fé. Eu não quero isso. Thomas respirou fundo, tentando controlar a decepção. O vento soprou entre eles, espalhando o perfume das flores que ele ainda segurava. — Então é isso? — perguntou. — Eu te trouxe flores e você me devolve medo? Ela mordeu o lábio inferior, os olhos marejados. — Não é medo. É… cuidado. — Cuidado? — ele sorriu, amargo. — Eu passei metade da vida me ferindo por “cuidado” dos outros. Agora que aprendi a amar sem culpa, descubro que amor, pra você, ainda é pecado. — Não diz isso — pediu ela, num sussurro. Mas era tarde. Thomas estendeu o buquê, colocando-o nas mãos dela. — Fica com elas. Elas não têm culpa. Deu as costas e começou a caminhar até o carro. Cíntia o chamou, a voz trêmula: — Thomas… Ele parou, sem se virar. — Eu não sou mais o homem que a igreja expulsou, Cíntia. — Eu sei… — Mas você ainda é a mulher que tem medo do que ela pensa. Entrou no carro e partiu. --- Na sala, os pais de Cíntia olhavam pela janela, sem entender o que havia acontecido. Ela ficou parada na porta, segurando o buquê, com os olhos marejados e o coração dividido entre a fé que a prendia e o sentimento que a libertava. Lá fora, o carro de Thomas desaparecia na rua estreita, levando consigo mais uma esperança frustrada. Mas, desta vez, ele não sentia raiva — sentia clareza. Sabia que, por mais bonita que fosse, aquela história não era amor. Era um espelho — mais um lembrete de que o mundo muda, mas o julgamento ainda veste roupas santas. E, enquanto dirigia de volta pra Caruaru, o rádio tocava baixinho uma canção antiga. Thomas sorriu, amargo, mas sereno. Porque, no fundo, ele sabia: mesmo quando o coração se decepciona, o amor-próprio é a única fé que nunca abandona.
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