Capítulo 34 – As Voltas Que o Coração Dá

877 Words
O fim de semana chegou envolto em um silêncio que Thomas já conhecia. Depois do encontro frustrante com Cíntia, a rotina em Caruaru se tornara fria. Trabalhar era fácil — o difícil era lidar com o vazio que vinha quando o expediente acabava. Na sexta-feira à noite, fez o que sempre fazia quando a vida pesava: pegou o carro e seguiu para Recife. Precisava do cheiro da maresia, do colo da mãe e de um pouco da sensação de “casa” que só aquela cidade sabia dar. Quando chegou, a mãe o recebeu com o mesmo sorriso de sempre. — Meu filho, você tá magro — brincou, abraçando-o. — Eu sabia que esse negócio de trabalhar demais ia te deixar triste. Ele riu, tentando disfarçar o cansaço. — Eu só precisava sair um pouco da rotina, mãe. O irmão mais novo apareceu logo depois, animado como sempre. — Rapaz, adivinha quem tá morando aqui perto agora? — disse, com um sorriso provocador. Thomas ergueu as sobrancelhas. — Quem? — A Thamires. Voltou com a mãe e a irmã. Diz que se cansou de onde morava. O nome fez o tempo parar por um segundo. Thamires. A mulher que havia bagunçado o equilíbrio dele quando ele ainda acreditava que podia controlar o coração. --- No dia seguinte, enquanto caminhava pela rua em direção à padaria, ele a viu. Thamires estava saindo de um pequeno mercado, carregando duas sacolas. O cabelo mais curto, o olhar o mesmo — intenso e calmo ao mesmo tempo. — Thamires? — chamou, hesitante. Ela se virou e, por um instante, pareceu não acreditar. — Thomas… — disse, com um sorriso surpreso. — Achei que você tivesse esquecido dessa rua. — Difícil esquecer o que a gente nunca deixou de lembrar. Ela riu, sem jeito. — Você continua igual… meio bobo e poético. — E você continua igual — respondeu ele. — Só mais bonita. O silêncio que se seguiu foi cheio de lembranças. Depois de alguns segundos, ele respirou fundo. — Aceita um café? Só pra matar a saudade. Ela hesitou, olhou pro relógio e respondeu com um sorriso contido: — Tá bom, mas só se você pagar o pão de queijo. --- A conversa foi leve. Riram, relembraram histórias, falaram da vida, das mudanças. Thamires contou que agora trabalhava numa escola, ajudando a irmã com as despesas da casa. Disse que amadureceu muito — e que aprendeu a lidar com as consequências de suas escolhas. Quando o café terminou, Thomas se ofereceu pra levá-la pra casa. Ela aceitou. O caminho foi tranquilo, até que, já perto do portão, ela disse de repente: — Thomas… a gente precisa conversar. Ele olhou pra ela, curioso. — Conversar? Sobre o quê? Ela respirou fundo, como quem junta coragem pra abrir uma ferida antiga. — Sobre nós. O coração dele acelerou. — Nós? Achei que “nós” tivesse acabado faz tempo. — Pois é — disse ela, olhando pela janela do carro. — Achei que sim também. Mas te ver hoje… mexeu comigo. Thomas ficou em silêncio, sem saber se era esperança ou medo o que sentia. Ela continuou, a voz baixa: — Eu errei, Thomas. Errei quando achei que você era só uma fase, quando brinquei com o que sentia. Você não merecia aquilo. — E agora? — perguntou, sem esconder a confusão no olhar. — O que você quer que eu faça com isso? Ela o encarou, firme. — Não quero que faça nada. Só quero te dizer que… eu ainda penso em você. O silêncio foi longo. Tão longo que até o som distante da rua pareceu parar pra ouvir. Thomas respirou fundo. — Thamires… eu vivi muita coisa depois da gente. E, por mais que tenha tentado, não consegui apagar o que houve. Mas eu também não sei se consigo voltar lá. Ela assentiu, com um sorriso triste. — Eu também não sei. Mas talvez a gente só precise conversar… devagar. Ele sorriu de volta, cansado e esperançoso. — Devagar é a única velocidade que eu conheço agora. --- Ela abriu o portão, mas antes de entrar, se virou. — Obrigada pelas flores… mesmo que não tenha me trazido nenhuma. — E como é que você sabe disso? — perguntou ele, divertido. — Porque o jeito que você me olhou foi mais sincero do que qualquer buquê. Ele riu, balançando a cabeça. — Continua a mesma. — E você continua vindo quando eu mais preciso. Thomas ficou ali, no carro, observando enquanto ela entrava em casa. Por dentro, um turbilhão de sentimentos. Não era amor — ainda não. Mas era um reencontro com algo que ele acreditava ter perdido para sempre: a vontade de tentar outra vez. --- Naquela noite, deitado na antiga cama do quarto da infância, Thomas olhou o teto e sorriu. As memórias o cercavam, mas pela primeira vez, não doíam. Pegou o celular e digitou uma mensagem curta: > “Se quiser conversar amanhã, eu passo te buscar depois do almoço.” A resposta veio pouco depois: > “Quero sim.” E foi suficiente para que o coração de Thomas, cansado, encontrasse paz. Porque talvez o amor não seja sobre o que passou — mas sobre o que ainda tem coragem de começar outra vez.
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