O fim de semana chegou envolto em um silêncio que Thomas já conhecia.
Depois do encontro frustrante com Cíntia, a rotina em Caruaru se tornara fria.
Trabalhar era fácil — o difícil era lidar com o vazio que vinha quando o expediente acabava.
Na sexta-feira à noite, fez o que sempre fazia quando a vida pesava: pegou o carro e seguiu para Recife.
Precisava do cheiro da maresia, do colo da mãe e de um pouco da sensação de “casa” que só aquela cidade sabia dar.
Quando chegou, a mãe o recebeu com o mesmo sorriso de sempre.
— Meu filho, você tá magro — brincou, abraçando-o. — Eu sabia que esse negócio de trabalhar demais ia te deixar triste.
Ele riu, tentando disfarçar o cansaço.
— Eu só precisava sair um pouco da rotina, mãe.
O irmão mais novo apareceu logo depois, animado como sempre.
— Rapaz, adivinha quem tá morando aqui perto agora? — disse, com um sorriso provocador.
Thomas ergueu as sobrancelhas.
— Quem?
— A Thamires. Voltou com a mãe e a irmã. Diz que se cansou de onde morava.
O nome fez o tempo parar por um segundo.
Thamires.
A mulher que havia bagunçado o equilíbrio dele quando ele ainda acreditava que podia controlar o coração.
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No dia seguinte, enquanto caminhava pela rua em direção à padaria, ele a viu.
Thamires estava saindo de um pequeno mercado, carregando duas sacolas.
O cabelo mais curto, o olhar o mesmo — intenso e calmo ao mesmo tempo.
— Thamires? — chamou, hesitante.
Ela se virou e, por um instante, pareceu não acreditar.
— Thomas… — disse, com um sorriso surpreso. — Achei que você tivesse esquecido dessa rua.
— Difícil esquecer o que a gente nunca deixou de lembrar.
Ela riu, sem jeito.
— Você continua igual… meio bobo e poético.
— E você continua igual — respondeu ele. — Só mais bonita.
O silêncio que se seguiu foi cheio de lembranças.
Depois de alguns segundos, ele respirou fundo.
— Aceita um café? Só pra matar a saudade.
Ela hesitou, olhou pro relógio e respondeu com um sorriso contido:
— Tá bom, mas só se você pagar o pão de queijo.
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A conversa foi leve.
Riram, relembraram histórias, falaram da vida, das mudanças.
Thamires contou que agora trabalhava numa escola, ajudando a irmã com as despesas da casa.
Disse que amadureceu muito — e que aprendeu a lidar com as consequências de suas escolhas.
Quando o café terminou, Thomas se ofereceu pra levá-la pra casa.
Ela aceitou.
O caminho foi tranquilo, até que, já perto do portão, ela disse de repente:
— Thomas… a gente precisa conversar.
Ele olhou pra ela, curioso.
— Conversar? Sobre o quê?
Ela respirou fundo, como quem junta coragem pra abrir uma ferida antiga.
— Sobre nós.
O coração dele acelerou.
— Nós? Achei que “nós” tivesse acabado faz tempo.
— Pois é — disse ela, olhando pela janela do carro. — Achei que sim também. Mas te ver hoje… mexeu comigo.
Thomas ficou em silêncio, sem saber se era esperança ou medo o que sentia.
Ela continuou, a voz baixa:
— Eu errei, Thomas. Errei quando achei que você era só uma fase, quando brinquei com o que sentia. Você não merecia aquilo.
— E agora? — perguntou, sem esconder a confusão no olhar. — O que você quer que eu faça com isso?
Ela o encarou, firme.
— Não quero que faça nada. Só quero te dizer que… eu ainda penso em você.
O silêncio foi longo.
Tão longo que até o som distante da rua pareceu parar pra ouvir.
Thomas respirou fundo.
— Thamires… eu vivi muita coisa depois da gente. E, por mais que tenha tentado, não consegui apagar o que houve. Mas eu também não sei se consigo voltar lá.
Ela assentiu, com um sorriso triste.
— Eu também não sei. Mas talvez a gente só precise conversar… devagar.
Ele sorriu de volta, cansado e esperançoso.
— Devagar é a única velocidade que eu conheço agora.
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Ela abriu o portão, mas antes de entrar, se virou.
— Obrigada pelas flores… mesmo que não tenha me trazido nenhuma.
— E como é que você sabe disso? — perguntou ele, divertido.
— Porque o jeito que você me olhou foi mais sincero do que qualquer buquê.
Ele riu, balançando a cabeça.
— Continua a mesma.
— E você continua vindo quando eu mais preciso.
Thomas ficou ali, no carro, observando enquanto ela entrava em casa.
Por dentro, um turbilhão de sentimentos.
Não era amor — ainda não.
Mas era um reencontro com algo que ele acreditava ter perdido para sempre: a vontade de tentar outra vez.
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Naquela noite, deitado na antiga cama do quarto da infância, Thomas olhou o teto e sorriu.
As memórias o cercavam, mas pela primeira vez, não doíam.
Pegou o celular e digitou uma mensagem curta:
> “Se quiser conversar amanhã, eu passo te buscar depois do almoço.”
A resposta veio pouco depois:
> “Quero sim.”
E foi suficiente para que o coração de Thomas, cansado, encontrasse paz.
Porque talvez o amor não seja sobre o que passou —
mas sobre o que ainda tem coragem de começar outra vez.