O avião desceu no Recife com o mesmo som que o vento faz quando abraça as árvores: apressado, quente, cheio de lembranças. Lia encostou a testa no vidro e viu a cidade aproximar-se em fragmentos — o mar, os telhados, o rio. Sentiu o coração bater no ritmo da infância. Era estranho como o tempo conseguia correr e, ao mesmo tempo, parecer o mesmo. Na mala, poucos objetos: roupas, o violão, o caderno com canções inacabadas e uma vontade mansa de ver os pais. Dois anos longe. Duas estações de saudade. Quando a porta da sala se abriu, o cheiro da casa veio primeiro: café fresco, jasmim, bolo no forno. Thomas estava na varanda, tentando ajeitar as cortinas, e Nina, de avental, mexia o açúcar com distração. — Surpresa — Lia disse, com a voz embargada e um sorriso inteiro. Nina deixou a colher

