Capítulo 10 – Vozes em Silêncio

851 Words
O culto daquela quarta-feira à noite estava lotado. As irmãs agitavam os leques, os diáconos organizavam os bancos, o pastor ajeitava o microfone no púlpito. Mas, para Eloísa, tudo parecia distante, abafado, como se assistisse de dentro de um aquário. Cada olhar que recaía sobre ela era um peso, cada cochicho, uma facada. Desde que Thomas saíra de casa, o assunto se espalhara como fogo. Não havia esquina, não havia oração, não havia louvor que não fosse atravessado pelo escândalo. Eloísa era vista ora como vítima, ora como cúmplice. Nenhum olhar vinha limpo. Dona Marta, ao lado da filha, mantinha a postura ereta, as mãos cerradas em oração. A cada frase do pastor contra o adultério, ela murmurava um “amém” em voz alta, como quem queria marcar posição. Eloísa, porém, sentia apenas um aperto no peito. Quando o coral começou a cantar, ela ergueu-se com os demais. A melodia ecoava pelo templo, mas sua voz não saiu. Os lábios se moveram sem som, como se algo tivesse morrido dentro dela. Depois do culto, algumas irmãs se aproximaram. — Força, Eloísa. Você é mulher de Deus. — O Senhor vai restaurar sua casa, se for da vontade d’Ele. Eloísa apenas sorria com delicadeza, mas por dentro o coração gritava. E a minha vontade? Alguém vai ouvir a minha vontade? No carro, ao lado da mãe, o silêncio pesou. Até que Dona Marta quebrou: — Você precisa pedir o divórcio o quanto antes. Não pode viver em pecado com esse homem que te envergonhou. Eloísa respirou fundo. — Mamãe… eu ainda estou tentando entender. — Entender? — Marta quase engasgou. — O que há para entender? Ele te traiu! A Bíblia é clara! Você precisa se separar e permanecer fiel. Eloísa virou o rosto para a janela, observando as ruas molhadas pela chuva fina. Dentro dela, algo fervia. Pela primeira vez, as palavras da mãe já não soavam como mandamento — soavam como prisão. Nos dias seguintes, Eloísa se isolou. Passava horas no quarto, a Bíblia aberta diante dela, mas os olhos parados, sem ler uma linha. Dona Marta insistia em vigiar, em orar em voz alta, em repreender qualquer sinal de fragilidade. — Não chora, minha filha. Mulher de fé não chora. Louva! Mas Eloísa chorava. Chorava baixo, escondida, porque sabia que precisava sentir aquela dor para não se perder de si mesma. No sábado, o pastor foi visitá-las. Sentou-se na sala, Bíblia em mãos, o rosto grave. — Eloísa, filha, sei que seu coração sofre. Mas é hora de decidir. A igreja precisa de clareza. Você ficará com Thomas ou seguirá o caminho da fidelidade ao Senhor? Eloísa olhou para ele. Por um instante, pensou na menina que fora: obediente, recatada, pronta para agradar. Mas agora havia algo diferente em seu peito. Uma voz que ela nunca ouvira com tanta força. — Pastor… eu não sei se consigo continuar nesse casamento. Não é só pela traição. É porque, desde o começo, eu não tive escolha. Casei porque me disseram que era o certo. Vivi porque me disseram como devia viver. Até no meu quarto, me disseram o que era permitido ou não. Dona Marta arregalou os olhos, em choque. — Eloísa! Que palavras são essas? Está se deixando influenciar! O pastor pigarreou, desconfortável. — Filha, cuidado com a rebeldia. Mas Eloísa não recuou. — Rebeldia? Ou é só finalmente a minha voz? O silêncio tomou a sala. A mãe não acreditava no que ouvia. O pastor desviou os olhos, sem resposta pronta. Naquela noite, Eloísa saiu sozinha para caminhar. Passou pela praça iluminada, onde jovens riam, casais se abraçavam, e sentiu inveja da simplicidade daquelas cenas. Lembrou-se do primeiro olhar de Thomas, da emoção do casamento, da esperança de ser feliz. Tudo se transformara em correntes — e ela, por medo, aceitara cada nó. Agora, as correntes começavam a se soltar. Ela sabia que não queria mais Thomas. Não por ódio, mas porque ambos haviam se perdido no labirinto das expectativas. Também não queria ser marionete da mãe, nem escudo da igreja. Queria ser apenas ela mesma, pela primeira vez. Ao voltar para casa, encontrou Dona Marta orando em voz alta, quase em transe. — Senhor, liberta minha filha das influências malignas! Tira as escamas dos olhos dela! Eloísa fechou a porta do quarto com firmeza. Sentou-se na cama, encarou o espelho. — Eu não sou mais cega. — A frase saiu baixa, mas firme. — E não vou viver para cumprir a vontade dos outros. As lágrimas vieram de novo, mas agora eram diferentes. Não de fraqueza, mas de coragem. No domingo seguinte, Eloísa não foi à igreja. Vestiu um vestido simples, prendeu o cabelo curto e saiu cedo, sozinha. Caminhou até a praia, sentou-se na areia ainda fria e deixou o vento bater no rosto. Pela primeira vez em muitos anos, não estava em um banco de coral, nem sob o olhar da mãe, nem à sombra de Thomas. Estava só — e estava livre. Sorriu, tímida, como quem ainda estranha o sabor da liberdade. Mas sabia, no fundo do peito, que esse era apenas o começo.
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