Thomas estava exausto, mas não de trabalho. O peso que carregava vinha de dentro: dias sem dormir direito, noites divididas entre lembranças do lar desfeito e a necessidade urgente de se sentir vivo outra vez.
No apartamento de Carina, encontrou um refúgio que parecia solução. O cheiro de incenso suave, as cortinas coloridas, o riso dela enchendo os cômodos — tudo era o oposto do silêncio carregado que vivera com Eloísa. Ali não havia sermões, nem olhares de reprovação. Só havia calor, pele, desejo.
Naquela noite, Carina o puxou para perto com uma ousadia que o desarmou.
— Você não precisa mais fingir ser santo comigo, Thomas. Aqui, pode ser só homem.
O beijo dela foi profundo, sem freios. As roupas caíram no chão como correntes se partindo, e cada toque reacendia nele uma chama que julgava extinta. O corpo dela era um convite à perdição, e ele aceitou sem resistência.
Entre gemidos abafados e respirações ofegantes, Thomas esqueceu o mundo por instantes. Não havia coral, não havia pastor, não havia julgamento. Só havia prazer.
Depois, deitado no peito dela, a mente voltou a pesar. O corpo estava satisfeito, mas o coração ainda dividido.
— Eu perdi tudo, Carina — confessou, os olhos no teto. — Minha esposa, minha igreja, minha família…
Ela passou os dedos no rosto dele.
— Você não perdeu, Thomas. Se libertou. Eles é que nunca te aceitaram de verdade.
As palavras dela soaram doces, mas também perigosas. Thomas queria acreditar. Queria se agarrar à ideia de liberdade. Mas, no fundo, sabia que estava trocando um tipo de prisão por outra.
Enquanto isso, Eloísa enfrentava suas próprias batalhas. Na igreja, os cochichos eram incessantes. As irmãs se aproximavam com abraços falsos, repetindo frases como “Você é forte” e “O Senhor te sustentará”, mas os olhares eram de julgamento.
Dona Marta insistia que o divórcio era a única saída honrosa, mas Eloísa começava a questionar tudo. Não apenas o casamento, mas também a vida inteira vivida sob correntes alheias. Pela primeira vez, se via diante de um caminho próprio — ainda que solitário.
De volta ao apartamento de Carina, Thomas recebeu uma ligação inesperada: era o pastor.
— Thomas, filho… você ainda é amado pelo Senhor. Mas não pode continuar nesse caminho. Venha conversar comigo. Volte enquanto há tempo.
Thomas desligou sem responder. Olhou para Carina, que o abraçava por trás, e tentou se convencer de que ali estava sua escolha.
Mas, no fundo, sentiu o gosto amargo do veneno: doce no início, corrosivo no fim.