A madrugada ainda cobria Recife quando Thomas acordou no apartamento de Carina. O quarto tinha cheiro de perfume e lençóis amassados, e por um instante ele acreditou estar livre. O corpo ao lado, nu e entregue, era a prova da fuga que encontrara. Mas a mente não permitia descanso: o peso da culpa voltava como ressaca.
Carina, sonolenta, passou a mão pelo peito dele.
— Você pensa demais, Thomas… aqui não precisa. — Sua voz era um convite doce, quase uma promessa de esquecimento.
Ele beijou a mão dela, mas não respondeu. Sabia que, fora dali, o mundo desmoronava.
Na casa de Eloísa, a tempestade era outra. Dona Marta caminhava de um lado para o outro, repetindo versículos em tom de condenação.
— A igreja já sabe de tudo. O pastor não vai permitir que você permaneça com ele, minha filha. Esse casamento morreu!
Eloísa, sentada à beira da cama, mantinha o olhar fixo no chão. Chorara a noite inteira, mas agora as lágrimas secaram. Havia apenas cansaço.
— Talvez seja melhor assim, mamãe. — As palavras saíram baixas, mas firmes. — Eu não quero viver mendigando amor.
Dona Marta arregalou os olhos.
— Você está me ouvindo? A igreja vai te apoiar!
— A igreja não dorme comigo, mamãe. — Eloísa ergueu os olhos, pela primeira vez, desafiando. — Eu cansei de ser uma extensão da sua voz.
Enquanto isso, Thomas caminhava à beira da praia de Boa Viagem, tentando encontrar respostas no barulho das ondas. Pegou o celular: dezenas de mensagens não lidas. Algumas cheias de raiva, outras de compaixão forçada. Do pastor, um texto direto: “Procure reconciliação ou aceite as consequências de andar longe da graça.”
Ele fechou os olhos. As consequências já estavam ali. Não havia mais coral, nem púlpito, nem casa. Restava-lhe apenas a própria verdade: não voltaria para as correntes.
À tarde, tomou coragem e voltou ao apartamento para conversar com Eloísa. Entrou devagar, como quem pisa em território proibido. Ela estava na sala, de vestido simples, sem maquiagem, mas com uma força nova no olhar.
— Eu não vim me defender — disse ele, antes mesmo que ela abrisse a boca. — Eu vim te ouvir.
Eloísa respirou fundo.
— Eu te amei, Thomas. Mais do que eu mesma às vezes. Mas o amor que a gente viveu era feito de regras, de medo, de silêncio. Você procurou fora o que não achou aqui… e eu não vou dizer que não dói, porque dói como faca.
Ela se levantou, aproximou-se. Os olhos marejados não tremiam.
— Mas, pela primeira vez, eu quero escolher por mim. E eu escolho não continuar.
Thomas engoliu seco. Parte dele já esperava. Ainda assim, ouvir da boca dela foi como levar um soco.
— Se é o que você quer… eu aceito.
O silêncio pesou. Dona Marta, da cozinha, irrompeu como sempre:
— Glória a Deus! Ele vai colher o que plantou!
Mas, dessa vez, Eloísa se voltou para a mãe com firmeza.
— Mamãe, basta. Essa escolha é minha.
Thomas saiu levando apenas uma mala pequena. No corredor, parou um instante. Lembrou-se do jovem sonhador que acreditou estar construindo uma vida perfeita ao se casar. Agora, o que restava eram escombros. Mas, entre os escombros, também havia liberdade.
No carro, deixou o motor ligado por alguns segundos. Pensou em Carina, pensou em Eloísa, pensou na igreja que lhe fechara as portas. Chorou em silêncio. Depois, enxugou o rosto com a mão e murmurou:
— Acabou. Mas eu não volto atrás.
Virou a chave e partiu.
Na janela, Eloísa observava o carro desaparecer na esquina. Não havia alívio, não havia vitória. Apenas um vazio imenso, mas também uma fagulha de algo novo: a chance de, finalmente, viver sem correntes.
E dona Marta, atrás dela, calada pela primeira vez em muito tempo, percebeu que a filha já não lhe pertencia.