Dulce Maria
Aquele silêncio já estava me agoniando. Os dois me encaravam como se esperassem que eu fizesse alguma coisa, mas eu estava travada.
— Estavam indo pegar o metrô? Eu as levo até em casa. — Billy disse como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Eu ainda não sei quem é você, então não vamos entrar no seu carro. — Maite falou o olhando com desconfiança.
Billy abriu a porta do carro e saiu. Eu notei que ele estava bem diferente, mas ainda o reconheci. Eu reconheceria aquele olhar em qualquer lugar do mundo.
— Sou Willam Jones, mas você pode me chamar de Billy. — ele estendeu a mão para Maite, mas ela apenas arqueou a sobrancelha e não o cumprimentou. — Tudo bem. — ele sorriu e afastou sua mão. — Agora que sabe quem eu sou vai aceitar a carona?
— Tá brincando com a minha cara? — May continuava na defensiva. — Dulce, diz alguma coisa!
— É... eu... — eu continuei olhando Billy como uma retardada, sem saber o que fazer.
— Dulce! — May me pressionou.
— A carona. — falei rápido. — Sim, eu aceito.
— Dulce, quem é ele? — Maite ficou impaciente.
— Sua amiga está com um pouco de dificuldade de dizer, então acho melhor eu esclarecer isso. — Billy começou a dizer. — Eu e Dulce namoramos no colegial. Faz um tempo que não nos vemos. Uns quinze anos?
— E por que você estava seguindo ela?
— Não queria assusta-las, eu só não sabia muito bem como iniciar uma conversa. Fiquei com medo de Dulce apenas me mandar pastar, então achei melhor observá-la e saber qual a melhor maneira de me aproximar.
— E você é o que? Psicopata?
— Policial, na verdade.
— Vamos logo. — falei dando a volta até a porta do carona. — Maite, entra!
Algumas pessoas diriam que eu não deveria dar o braço a torcer tão fácil, mas à essa altura do campeonato já estava bem claro o quanto eu era curiosa. Achei que nunca mais veria Billy e de repente ele me encontra na maior cidade do mundo e age naturalmente, como se estivesse apenas fazendo uma visita amigável. Eu precisava entender o que ele queria.
Maite sentou no banco de trás, atrás do motorista. Eu sabia que ela ainda estava desconfiada e não parou de encara-lo pelo retrovisor durante todo o caminho. Foi meio assustador para mim quando eu tentei explicar o caminho e ele disse que já sabia.
Não conversamos, eu não queria fazer aquilo na frente de May, não sem antes contar para ela todos os detalhes sórdidos da minha vida. Quando Billy estacionou em frente ao meu prédio, eu virei para olhar a minha amiga.
— Pode subir, eu vou depois.
— Não sei se é uma boa ideia te deixar sozinha com um cara que te seguiu por semanas. — ela disse.
— Por favor, May, eu prometo subir daqui a vinte minutos, sã e salva.
Ela olhou para ele e depois para mim, parecendo analisar a situação, mas enfim soltou um longo suspiro e assentiu com a cabeça.
— Se passar de vinte minutos, eu desço aqui com um taco de beisebol. — falou antes de abrir a porta do carro e entrar no prédio.
— O que você quer? — vociferei assim que nos vimos sozinhos.
— Também senti sua falta, Dulce. — ironizou.
— Eu não senti nenhum pouco. Se está aqui para conhecer a sua filha, sinto lhe informar, mas eu não fiquei com ela.
— Eu sei.
— Sabe? — franzi a testa.
— Sim, Michael e David a adotaram, ela se chamava Melissa.
— Melissa? — senti um aperto no peito. Ao ver a minha expressão, Billy arqueou as sobrancelhas como se estivesse surpreso.
— Você não sabia o nome dela. — constatou.
— Eu não queria saber. — meu tom de voz vacilou.
— Dulce, eu sinto muito. — ele me olhou arrependido. — Eu não sabia.
— Não tinha como você saber, você me abandonou. — engoli em seco para me impedir de chorar.
— Eu era a p***a de um moleque i****a! — socou o volante. — Não tinha nenhuma maturidade, pensei apenas em mim e isso me custou um arrependimento que me corrói até hoje. Depois que eu me tornei um agente federal eu comecei uma busca particular. Primeiro eu procurei você, mas quando te achei estava casada com outro homem em Los Angeles. Eu não quis aparecer do nada e estragar a sua família, não sem ter alguma coisa a mostrar.
— O que você teria pra me mostrar agora? — perguntei confusa.
— Depois te achar eu procurei a nossa filha.
— O que? — fiquei boquiaberta, a respiração acelerou assim como meus batimentos cardíacos.
— Michael e David haviam se mudado para Nova York um ano depois que você deu a luz. Eles começaram uma vida aqui, criaram a Melissa até onde puderam.
— Como assim até onde puderam? — ainda bem que eu estava sentada, porque minhas pernas tremiam agora.
— Os três sofreram um acidente algumas semanas depois de se mudarem. Deram entrada no hospital, mas a situação foi grave. — ele ligou o carro novamente e deu partida.
— Para onde está me levando?
— Acho que você vai querer visita-los. — foi a única coisa que ele disse.
O carro se manteve no mais completo silêncio enquanto Billy dirigia. Eu podia sentir meu coração batendo, minhas orelhas pulsavam e eu respirei fundo diversas vezes para manter a calma e não sair do controle.
Alguns minutos se passaram e ele parou em frente a um cemitério. Meu corpo inteiro travou e um nó se formou na minha garganta.
— Não... — murmurei, meus olhos lacrimejando. — Não... não...
— Eu estou aqui. — segurou minha mão. — Vamos fazer isso juntos, ok?
Assenti e fiz um esforço para sair do carro. Billy segurou minha mão enquanto caminhávamos por entre os túmulos. A todo momento ele olhava para mim como se quisesse se certificar de que eu estava bem.
Ele parou de caminhar quando encontramos três lápides uma ao lado da outra. Minha visão ficou turva pelas lágrimas, mas ainda assim eu consegui ler os nomes de Michael, David e Melissa nelas. Perdi toda a força que ainda tinha e caí de joelhos sobre a grama, soluçando desesperadamente.
Billy ajoelhou ao meu lado e me abraçou, apoiando seu queixo no topo de minha cabeça. Por mais raiva que eu tenha acumulado dele durante todos esses anos, era bom ter alguém para me segurar naquele momento, pois uma parte do meu mundo havia ruído. Passei todo esse tempo acreditando que havia feito a coisa certa, que ela estava feliz e saudável, mas já tinha deixado esse mundo há muito tempo.
— Dulce, preciso que saiba... — ele ergueu o meu rosto. — Minha busca parou aqui, mas ela ainda não acabou. Há mais coisas que descobri.
— C-como assim? — ofeguei.
— Eu queria que a Melissa tivesse os sobrenomes Jones e Saviñon incluídos em sua lápide, então eu corri atrás disso. Só era necessário desenterrar os restos mortais e provar por meio de um exame de DNA que eu era pai biológico dela. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o resultado deu negativo.
— Mas... o que?
— Eu não sei quem é esse bebê que foi enterrado com eles, mas não é a nossa filha. Só me resta descobrir onde ela foi parar.
— Isso é... — ofeguei, negando com a cabeça.
— Eu sei, parece loucura, mas eu estou investigando o hospital onde eles foram atendidos, algo me diz que as respostas estão lá e que nós vamos encontrar a nossa filha.
— Não. — fiquei de pé e cambaleei para trás. Billy tentou me segurar, mas eu me afastei dele. — Eu a abandonei por um motivo.
— Mas agora você pode cuidar dela. E se ela estiver sozinha? Se estiver num orfanato?
— Ela vai me odiar! — chorei mais.
— Dulce, precisamos apenas saber se ela está bem. Não quer entender o que aconteceu? Eu fico desesperado sempre que tento teorizar onde ela está.
— Ela pode estar em qualquer lugar... — esfreguei meu rosto.
— Eu vou achá-la, eu prometo. Você não tem que tomar nenhuma decisão agora, a única coisa que eu te ofereço é saber se ela está bem. Não estou te pedindo para conhecê-la ou para ficarmos com ela. Um passo de cada vez.
Tudo isso foi jogado sobre mim como um balde de água fria. Não fiquei com ela porque com certeza passaríamos fome, eu não teria tempo para estudar ou trabalhar e só tinha quinze anos, jamais saberia educar uma criança direito. Mas enquanto eu vivi a minha vida com toda a felicidade possível, minha filha estava perdida por aí, podendo ou não ter tido uma vida sofrida.
— Um passo de cada vez. — eu disse ao concordar com aquilo.
— Ótimo. — sorriu fraco. — Vou te manter informada de tudo sempre.
— Você já tem alguma pista?
— Comecei a investigar o hospital recentemente e acabo de receber uma lista dos médicos que trabalhavam na época. Só preciso achar o médico que cuidou do caso deles. — olhou para as lápides. — E depois terei uma conversa muito séria com esse cara ou essa mulher.
— Você quer conhecê-la? Quer que ela saiba quem você é?
— Sim, eu quero. Mas vou entender se você não quiser. — apenas assenti. — Melhor você ir pra casa, foi informação demais para apenas um dia.
Retornamos para o meu prédio e eu chorei em silêncio durante todo o caminho. Billy segurou a minha mão em alguns momentos e eu identifiquei o carinho dele ali. Ele parecia realmente se importar, como se suas escolhas do passado o tivessem afetado totalmente.
Trocamos nossos números de celular e mais uma vez ele prometeu me manter informada sobre tudo o que ele descobrisse, até os mínimos detalhes. Billy me acompanhou até a portaria e antes que eu entrasse ele me deu um abraço, depois segurou meu rosto e beijou minha testa.
Assim que as portas do elevador se abriram em meu andar, eu vi uma Maite nervosa segurando um taco de beisebol. Ela estava mesmo falando sério.
— Eu liguei pra você. — me olhou séria.
— Eu não podia atender. — passei por ela e fui em direção ao apartamento.
— O que aconteceu? Você não está com uma cara boa. — preocupou-se. — O que ele fez?
— Só me mostrou uma coisa. — abri a porta e nós entramos. — May... — meus olhos se encheram de lágrimas e eu me vi prestes a chorar de novo. — Eu vou te contar tudo sobre mim.
— Vai? — pareceu surpresa.
— Sim.
[•••]
Christopher Von Uckermann
Fui até a casa de Dulce depois de redigir o contrato dela. Sei que havia lhe dado um mês, mas o que eu tinha mais certeza agora era de que queria ela perto e queria lhe garantir segurança enquanto trabalhasse para mim.
Dirigi até seu prédio e parei um pouco longe ao vê-la sair de um carro com um homem que eu nunca vi antes. Os dois andaram até a entrada, ele a abraçou por tempo demais, o que me fez estremecer. Mas a pior parte foi quando ele segurou o rosto dela de forma carinhosa e beijou sua testa. Foi como se meu sangue tivesse fervido. Apertei forte o volante e pressionei meus lábios um no outro tentando me segurar onde estava. Quem era ele e por que estava sendo carinhoso com ela?
Ao invés de ir atrás de Dulce, eu dei meia volta e retornei para casa. Não queria bancar o maluco possessivo, por mais que eu realmente fosse assim quando se tratava dela.
Quando entrei em casa, meus ouvidos foram agraciados pelo som suave de um piano que tocava na sala de estar. Caminhei até lá e vi minha filha tocando com toda a concentração possível. Fiquei atrás dela assistindo enquanto ela parecia fazer aquilo com muita facilidade e animação. Dulce era uma excelente professora, isso era inegável.
— Isso foi lindo, raio de sol. — sorri me aproximando dela.
— Estava aí o tempo todo, papai? — ficou vermelha.
— Sim e adorei. Você tem muito talento.
— A Dulce torna tudo mais fácil. E aí, ela assinou o contrato?
— Não. Ela estava meio ocupada e eu não quis atrapalhar. — desviei o olhar. — Mas me conta sobre essa música. O que mais gosta de tocar?
A assisti explicando com animação o quanto estava amando aprender a tocar piano. Eu daria a minha vida por ela, faria qualquer coisa por aquela garota e poderia ficar ouvindo ela falar por horas sem me cansar. Amber era a melhor coisa que aconteceu em minha vida desde Darla.
Já era tarde da noite, eu estava em meu quarto impaciente e não parava de andar de um lado para o outro ainda pensando sobre o homem que deixara Dulce em casa. Ela estaria saindo com ele? Bom, talvez ela estivesse, afinal não estipulamos nenhum compromisso.
— Vá atrás dela. Esclareça as coisas.
— Eu não tenho esse direito, Darla.
— Mas está incomodado, deixe ela saber.
— Hum... certo. — peguei minhas chaves, o contrato que ela deveria assinar e saí de lá.
Quando cheguei ao seu prédio, dei duzentos dólares ao porteiro que sempre se mostrava bem apto a me deixar entrar. Subi até o andar de Dulce e toquei a campainha. Ouvi alguém caminhar lá dentro e logo depois a porta foi aberta por um homem. Diabos, quantos caras estariam ao redor dela sem que eu soubesse?
— Posso ajudar? — ele estava com a cara cansada, de alguém que estava lutando para se manter acordado.
— Eu quero ver a Dulce. — falei.
— Espera, você é o Christopher? — de repente ele ficou em alerta. — Sou o Christian, moro aqui com elas.
— Mora aqui? — franzi a testa.
— Elas queriam uma renda extra, então eu aluguei o quarto vago. — deu de ombros. Eu continuei o olhando seriamente. — Bem... — ele pareceu desconfortável ao notar o meu incômodo. — Dulce dormiu bem cedo hoje. Eu sou o único acordado, estava trabalhando na minha pesquisa.
— Eu preciso ver a Dulce. — passei esbarrando nele, sem esperar que ele me impedisse nem nada do tipo.
— Ei, calma aí! Ela não estava bem quando foi dormir, não acho que deva acorda-la.
— O que aconteceu? — preocupei-me.
— Não sei bem, mas quando eu cheguei ela e Maite estavam bem emotivas. A May nem quis ficar comigo hoje, preferiu só ir dormir.
— Você e Maite? — relaxei os ombros.
— Você achou que eu e Dulce...? Oh, céus! — riu.
— Não importa, eu tenho que vê-la. — entrei em seu quarto e fechei a porta atrás de mim.
Ela dormia serenamente. Haviam vários lenços amassados sobre a cama e o rosto de Dulce estava vermelho. Ela chorou até dormir. Quem p***a fez isso com ela? Bom, não importa quem tenha sido, eu iria parti-lo em dois.
Sentei ao lado dela e corri meus dedos por seu braço, vendo sua pele se arrepiar com o contato. Dulce sempre estava tão feliz que era doloroso para mim pensar nela se sentindo triste.