Dulce Maria
Meu primeiro instinto ao acordar foi passar meu braço no lado da cama onde Christopher estivera, notando assim que ele não estava mais lá. Esfreguei meus olhos, sentei e olhei em volta no quarto. Ele foi embora no meio da noite enquanto eu dormia. Pensar em por que ele havia feito isso me fez ficar preocupada. Ele fugiu? Arrependeu-se do que aconteceu?
Levantei da cama, me vesti e saí do quarto indo até a cozinha. Maite e Christian estavam tomando café da manhã e estavam vestidos para ir ao trabalho.
— Que horas são? — perguntei.
— Você tem quinze minutos até o próximo metrô sair. — May disse.
— Metrô? — fiz uma careta.
— Você quem deixou o seu amante se livrar da vermelhinha.
— Ele não é...
— Francamente, Dulce Maria. — Christian me interrompeu. — Você ainda se acha no direito de nos julgar? Nós estávamos só a alguns metros de vocês!
— Eu... — era a primeira vez que eu não sabia o que dizer para eles. — Ok.
— Ok? — Maite riu. — Vamos criar a nossa primeira regra de convivência: é proibido t*****r na sala a partir de hoje.
— E na cozinha? — Christian perguntou fazendo graça.
— Não! — arregalei os olhos. — Que nojo.
— Enfim, eu sabia que isso ia acabar acontecendo. — Maite ficou de pé. — E agora que já transou com o Christopher, esqueça isso.
— O que? — franzi a testa.
— Dulce, ele ainda é pai de uma aluna. Eu relevei você t*****r com ele porque nunca vi você desejar tanto um homem e isso estava te deixando ainda mais doida do que você já é. Mas ainda vai contra o decoro do colégio uma professora sair com o pai de um aluno.
— Tudo bem, Maite. Eu acho que isso não vai mesmo se repetir. — falei com desânimo. — Ele saiu no meio da noite sem se despedir.
— c*****o, que mancada. — Christian disse.
— Foi melhor assim. — May colocou a mão em meu ombro. — Dez minutos, te espero na portaria. — começou a andar até a saída da cozinha.
— Metrô!? — gritei para que ela ouvisse.
— Dez minutos! — gritou de volta antes de bater a porta da frente.
— Prende a respiração, aí não vai sentir a energia nem o cc de ninguém. — Christian falou também levantando.
— Haha. — forcei um sorriso.
Coloquei cristais nos bolsos da minha jaqueta e também na minha bolsa. Além de acrescentar mais dois amuletos em meu pescoço. Maite soltou um suspiro tedioso quando me viu se aproximar dela, mas preferiu não reclamar. Eu não podia arriscar que tanta energia humana me atingisse. Era por isso que detestava aglomerações.
Nós pegamos o metrô e eu pude respirar tranquilamente quando saímos de lá. Caminhamos mais um pouco até chegar ao colégio e eu logo avistei Christopher acompanhando Amber até a entrada. Quando me viu ele falou algo para ela e se despediu, ficando sozinho ali, me encarando.
Parei de andar no mesmo instante e o encarei de volta. Maite olhou para mim como se estivesse repetindo as palavras de mais cedo então afastou-se, cumprimentou Christopher com um aceno de cabeça ao passar por ele e enfim entrou.
Ao ver que eu não me aproximaria, ele começou a caminhar em minha direção, mantendo uma expressão firme, porém suave. Continuei imóvel até que ele estivesse bem na minha frente.
— Pode vir até o meu carro comigo? Eu tenho uma coisa lá pra você. — ele disse.
— Que coisa? — franzi a testa.
— Vem. — foi andando na frente.
Demorei alguns segundos para começar a andar, mas preferi acompanhá-lo e ver do que se tratava. O estacionamento estava vazio e assim que paramos ao lado de sua Range Rover, Christopher virou-se de frente para mim, segurou meu rosto entre suas mãos e me puxou para um beijo que me pegou de surpresa.
Relaxei todo o meu corpo e o beijei de volta, sentindo um alívio me percorrer enquanto nossos lábios se mesclavam. Quando ele me soltou, eu estava sorrindo.
— Era isso que tinha pra mim? — perguntei.
— É, eu sei que você não pode ser vista comigo por causa das normas do colégio, mas eu queria muito te beijar. — abraçou-me pela cintura.
— Você saiu no meio da noite, eu achei que tinha se arrependido.
— Desculpe por te fazer pensar assim, eu tinha um compromisso logo cedo. Fiquei esperando você adormecer e te vi dormir por algum tempo antes de ter que ir embora. — acariciou meu rosto.
— Olha, isso é aliviador. — fiquei na ponta dos pés e encostei nossos lábios de novo. Já estava ficando viciada em beija-lo. — Droga, eu tenho mesmo que ir trabalhar? — falei durante uma pausa.
— Não vou reclamar se você entrar em meu carro agora. — falou maliciosamente.
— Isso é tentador, mas dessa vez eu vou ouvir o meu lado maduro.
— E ele existe? — brincou.
— Sim e é bem responsável, você se surpreenderia. — brinquei também. — Eu tenho que ir.
— Sábado à noite o meu pai vai realizar um baile para a campanha dele, eu quero que você seja o meu par.
— Eu? — arqueei as sobrancelhas.
— Você.
— Vai ser outra festa cheia de gente chique e bem vestida que se acha superior? — fiz uma careta.
— Sim e vai ser insuportável. Ter você lá vai tornar aquilo um ambiente muito mais agradável. Por favor, aceite ir comigo.
— É, parece que eu terei que fazer compras, porque já usei o meu vestido mais caro na sua última festa.
— Não gaste muito com roupas, no fim da noite elas serão rasgadas de qualquer forma. — sorriu.
— Eu adorei esse desfecho.
— Vou deixar você trabalhar agora. — beijou minha testa. — Tchau, Dulce.
— Tchau.
O vi entrar em seu carro e sair do estacionamento. Não sabia o que estava acontecendo entre nós, mas sentia que se eu parasse para perguntar poderia estragar tudo isso. Maite ficaria super preocupada com uma possível demissão minha, mas eu encararia esse risco e seguiria em frente, por mais complicado que Christopher fosse. Era uma corda bamba que eu queria atravessar.
Foi um longo dia de trabalho e eu ainda teria que enfrentar o inferno que era o metrô novamente. Eu e May estávamos caminhando em direção à estação mais próxima quando eu olhei sutilmente para trás e avistei um carro preto, o mesmo que me seguiu na noite anterior.
— Ah não... — murmurei.
— O que foi? — May perguntou.
— Continua andando e haja naturalmente. — falei forçando um sorriso. — Ontem um carro estava me seguindo e agora esse mesmo carro está bem atrás de nós, andando bem devagar.
— Que? — arregalou os olhos. — Vamos chamar a polícia! — colocou a mão dentro da bolsa e quando ela fez isso, o motorista parou o carro e aumentou os faróis.
— Não! — puxei o braço dela e continuamos a andar. — Só vamos até o metrô e depois para casa. Se ele ver você ligar para alguém pode fazer alguma coisa.
— Merda... quer saber? — ela parou e se virou na direção do carro.
— O que você está fazendo? — perguntei em pânico.
— Se esse i****a quisesse fazer alguma coisa, já teria feito. Ele só quer te assustar, então vamos mostrar que não conseguiu.
— Conseguiu sim! — tentei puxa-la para continuarmos o caminho, mas ela era forte.
— Vamos ver quem é esse o****o.
— Maite! — gritei ao vê-la caminhar em direção ao carro a passos firmes e com os punhos cerrados.
Eu estava com muito medo, minha mãos tremiam e meu instinto de sobrevivência me dizia para sair correndo, mas eu não podia deixar a Maite sozinha, eu queria protegê-la mesmo sabendo que ela era muito mais durona do que eu.
Corri atrás dela e parei atrás de suas costas quando ela encarou a porta do motorista. Os vidros eram fumê, tornando impossível vermos quem estava lá dentro.
— Olá? — May bateu no vidro. — Abaixa o vidro, mostra a cara! — bateu mais forte. — Vamos lá, seu i****a, deixa eu te ver! — gritou irritada.
Meu coração quase saiu do peito quando o vidro começou a descer, parecendo ser muito mais lento do que realmente era. E foi aí que aqueles olhos claros inconfundíveis me acertaram como um soco na cara. No primeiro momento, ele se manteve olhando para a frente, com uma expressão de calmaria que não condizia em nada com a situação.
— Quem p***a é você!? — Maite perguntou agressivamente e então ele olhou direto para mim, como se pedisse mentalmente para que eu respondesse.
— Billy? — minha voz quase falhou quando eu falei aquele nome.
Maite me encarou com uma expressão de pura confusão em sua face e então intercalou o olhar entre nós dois. Eu podia imaginar que ela estava bem atônita agora, tendo em vista que eu jamais lhe contei sobre nada que aconteceu comigo antes de ela entrar em minha vida.
[•••]
Christopher Von Uckermann
Minha noite com Dulce foi espetacular e diferente do que achei que sentiria, a culpa não me invadiu depois que nós relaxamos nos braços um do outro. Me senti sim um pouco apavorado quando observei ela dormir calmamente em meu peito. Por um momento pareceu que eu estava fazendo algo errado e isso me fez fugir. Não me permiti dormir com Dulce naquela noite porque meus fantasmas ainda sussurravam em meu ouvido.
Mas na manhã seguinte eu quis vê-la, então fiz questão de caminhar com Amber até a entrada do colégio, com a intenção de entrar lá e encontrar a Dulce, mas nem precisei fazer isso porque a vi chegando logo em seguida. Ela pareceu nervosa em me ver e ficou estranhamente séria. Aquilo me preocupou, então eu precisei mostrar para ela que estava tudo bem.
Não sabia o que pretendia ter com Dulce, mas era a primeira vez que uma mulher me fazia ter vontade de tentar. Eu não queria apenas uma noite, queria poder ter o direito de dormir com ela e beijar cada centímetro de sua pele quantas vezes eu quisesse. Ela era incrivelmente viciante e no fundo eu temia que isso pudesse acabar m*l.
E quando eu explodisse em um excesso de culpa? E quando minhas dores me abatessem novamente? Ela suportaria isso? Nós suportaríamos? Pensar sobre o assunto me assustava, mas no momento em que eu estava com ela, procurava não ter que lembrar das minhas complicadas confusões.
Assim que retornei para casa avistei Alfonso numa das mesas da varanda. Ele estava em seu notebook, provavelmente escrevendo algo para o seu livro.
— Está um pouco frio hoje. Por que está escrevendo aqui fora? — perguntei.
— Acredite, o clima na sua casa esfriou bastante depois que uma certa rainha do caos entrou.
— E você sabe o que a Belinda quer? — eu sabia bem de quem ele falava quando dramatizava daquela forma.
— Arrancar algo de você como sempre. Quanto tempo mais essa dívida vai durar?
— Até Amber e Bela viverem.
— As coisas estranhas que as pessoas fazem por seus filhos. — negou com a cabeça como se desaprovasse. — Se essas meninas soubessem...
— Não sabem e não vão saber. — o interrompi.
Alfonso se pôs em silêncio e tornou a digitar. Eu entrei em casa e Anahi, que estava no sofá da sala de estar, acenou com a cabeça em direção ao escritório e logo depois revirou os olhos. Eu era o único que realmente me importava e suportava a Belinda.
Quando entrei, a vi sentada em minha poltrona, tomando uma dose de uísque. Ela parecia tensa e se recostou contra o assento assim que entrei.
— Problemas? — perguntei calmamente.
— Preciso da sua ajuda. — falou tensa.
— De novo? A frequência dos favores está aumentando, não é? — reclamei.
— Isso é muito sério, eu preciso que você me proteja. Não posso pedir isso ao meu pai porque ele me mataria se soubesse o que fiz.
— Seu pai sabe muita merda de você e nunca fez nada.
— Isso é diferente. — cruzei os braços e a encarei. — Eu tenho feito algumas coisas ilegais.
— Isso não é nenhuma surpresa.
— Tem um agente federal na minha cola, ele chegou em Nova York há algumas semanas seguindo o meu rastro. Está quase me pegando.
— O que você fez?
— Você não precisa saber, só precisa me ajudar a me livrar dele.
— Não vou ajudar se não me disser. Essa é a minha condição.
— Você... — ela respirou fundo tentando manter a calma. — Ok. — olhou para baixo como se aquilo a envergonhasse. — Sabe o cara para quem eu pedi para você dar aquele dinheiro?
— Sei.
— Eu o contatei para transportar coisas para mim.
— Drogas?
— Bem pior. — voltou a olhar nos meus olhos. — Órgãos.
— Que!? — descruzei meus braços e a olhei incrédulo.
— Eu tenho roubado órgãos do banco de doação do hospital e estou vendendo no mercado n***o. Não sou a única nisso, outros médicos e enfermeiros também estão envolvidos.
— Belinda, você... meu Deus! — coloquei as mãos sobre a cabeça. — Você tem noção de que matou várias pessoas fazendo isso, não tem!? Que espécie de médica você é? p**a que pariu!
— Eu só estava tentando...
— Não! — gritei a interrompendo. — Não existem justificativas! Você me prometeu que não usaria a sua profissão para mais nada que fosse ilegal! Prometeu que aquela seria a última vez!
— Quando convinha a você, estava tudo bem, não é? — cerrou os olhos.
— Agora você está matando pessoas. É muito diferente!
— Christopher, eu posso ser presa!
— E como acha que eu poderia me livrar de um agente federal? Você ficou maluca? E se eles acharem você e chegarem até mim? Você colocou não só a si mesma em risco, p***a! — eu estava furioso.
— Eles não vão chegar até você se der cabo do agente, eu tenho o nome.
— Não vou machucar ninguém!
— Mas...
— Desde o início nós concordamos que nenhum dos nossos favores machucaria alguém.
— É diferente!
— Você procurou isso! c****e, não pensou na sua filha? Depois de tudo o que me fez fazer pela Bela, agora você vai simplesmente jogar a merda no ventilador? Nós podemos perder as nossas filhas!
— Não vamos! Fique calmo. — respirou fundo. — Se não vai se livrar dele, ok, eu dou um jeito. — ficou de pé. — Eu prometo que você vai ficar a salvo.
— Sai daqui antes que eu arremesse alguma coisa em você. — falei entredentes.
Belinda pegou sua bolsa, me lançou um último olhar frio e em seguida se retirou. Assim que eu fiquei sozinho, peguei um dos jarros da decoração e o joguei contra a parede movido pela fúria. Foi a primeira vez em que eu vi a verdade de tudo bem perto de um abismo.