Dulce Maria
Nós fomos para a boate no carro de Derick. Eu fui atrás sendo obrigada a ser apenas uma plateia para a conversa dos dois à minha frente. Enquanto eles sentiam estar a sós, eu aproveitei para observar as estrelas. Elas pareciam brilhar muito mais naquela noite e eu sentia algo apertar em meu peito, como se tivesse alguma coisa errada.
— Alguma coisa vai acontecer. — falei olhando para Maite.
— Como assim? — Derick perguntou.
— Não é nada. — May disse olhando para ele. — Dulce só está meio desanimada porque teve problemas no banco.
— O banco é um saco, pisam nos clientes porque sabem que precisamos deles. — Derick disse.
— Não, não é o banco. — falei. — Eu estou tendo um pressentimento.
— Dulce... — Maite me olhou com repreensão. Eu sabia que ela gostava de Derick e certamente não queria que eu bancasse a doida na frente dele.
— Tudo bem, eu sei que a Dulce é... — ele hesitou antes de continuar. — ...diferente. — ele ia dizer que eu era maluca. O encarei pelo retrovisor com os olhos cerrados.
— Dulce é iluminada. — May disse em tom de defesa, o encarando com irritação. Ela sempre sentia a necessidade de me proteger, mesmo que não acreditasse nas mesmas coisas que eu.
— Claro, é claro. — ele balançou a cabeça positivamente de maneira nervosa.
Me afundei no banco de trás e observei a paisagem passar pela janela até chegarmos à boate. Derick estacionou e nós entramos no lugar que estava lotado.
— Bebe alguma coisa para se animar. — May disse perto do meu ouvido. — Parece que você não quer estar aqui.
— Talvez eu... — ela me interrompeu.
— Não diga que quer ir embora. — me olhou seriamente.
— Talvez eu deva beber um martini. — completei.
Derick saiu na frente e Maite foi logo atrás me puxando pela mão. Paramos no bar e pedimos as nossas bebidas. Os dois voltaram a conversar e até tentavam me puxar para o assunto, mas eu não estava com tanta vontade de falar sobre o trabalho ou política. Eram assuntos sérios demais para mim.
Dei um gole em minha bebida e olhei em volta, parando o olhar na garota que acabara de entrar. Aquele lugar não era para maiores de idade? Quem p***a deixou ela entrar?
— Eu sabia que alguma coisa iria acontecer! — bati no balcão animadamente, chamando a atenção de Derick e Maite.
— O que foi? — May perguntou.
— Ali. Adolescente em apuros. — apontei na direção da entrada.
— Ué? — ela franziu a testa. — Merda, ela está sozinha. — como se esquecesse que estava acompanhada, May se deixou guiar pelo seu instinto protetor e começou a ir em direção à garota. Eu pedi para que Derick esperasse e a segui. — É melhor você ter uma boa razão para estar aqui, Bela.
— Q-que? — Bela arregalou os olhos ao notar a presença de uma Maite a olhando com repreensão. — Dulce! — ela relaxou o olhar ao me ver.
— Por que está aqui? — perguntei sem conseguir esconder que estava animada. Eu senti que alguma coisa iria acontecer e se a noite saísse como o planejado eu ficaria desapontada.
— Eu venho aqui escondida às vezes. — Bela olhou os próprios pés. — O segurança me conhece, ele me deixa entrar por duzentos dólares.
— Mas que filho da p**a! — May esbravejou. — E agora eu estou falando palavrão na frente de uma aluna. — deu um tapa na própria testa.
— Duzentos dólares? Sua mesada é tão gorda! — arqueei as sobrancelhas. — Deve ser muito bom nascer rica.
— Dulce, foco! — May gritou.
— Foque-se você que está xingando na frente de uma adolescente. — retruquei e ela me olhou furiosa. — Desculpe. Eu a levo para casa.
— Não, eu não posso ir para casa! Minha mãe sabe que eu fugi, já me ligou várias vezes, vai estar furiosa quando eu chegar lá.
— Querida, uma hora você terá que ir para casa. — May disse.
— Ou eu posso levar ela para o nosso apartamento. Lá a gente resolve o que fazer. — Maite me olhou como se aquilo não fosse uma boa ideia. — Confie em mim, o universo está tentando me dizer alguma coisa e eu sinto que devo ouvir. Além disso, não podemos deixar uma adolescente de quinze anos numa boate para maiores.
— Ok. Mas eu vou com vocês. Talvez você se concentre demais no universo e esqueça de vigiar a adolescente. Vamos pagar nossas bebidas e sair.
Nós três fomos em direção ao bar e enquanto Maite explicava ao Derick que iria embora, eu olhava a ficha com o valor do martini.
— Seis dólares. — li. — Intrigante. — enfiei a mão em minha bolsa e tirei de lá a primeira nota que apareceu. — Cinquenta dólares.
— Por que está falando valores? — Bela franziu a testa.
— É que o universo anda me arrastando para lugares onde talvez eu não queira estar. — entreguei o dinheiro ao barman e ele me deu o troco.
— Isso não faz nenhum sentido. — ela riu.
— O Derick vai nos levar. — May disse se voltando para nós.
Durante o caminho, ouvimos um longo discurso de Maite sobre como era perigoso e irresponsável o que Bela fez. A garota fazia cara de tédio ao meu lado e eu dava risada toda vez que ela revirava os olhos.
Já no nosso apartamento, a menina estava sentada no sofá enquanto eu e May estávamos paradas em pé em sua frente. Maite com a cara emburrada e os braços cruzados e eu encarando Bela como se esperasse que algo mais de intrigante fosse acontecer.
— Eu sei que estraguei sua noite e sinto muito, Maite. — Bela disse.
— Não estou brava porque não tive a noite que esperava. Eu só estou preocupada agora que sei que você faz isso regularmente. Você é só uma menina.
— Já tomou álcool alguma vez? — perguntei curiosa.
— Não. O segurança me deixa entrar, mas o barman não me vende bebida alcoólica.
— Mas se vendesse você tomaria? — Maite perguntou e Bela deu de ombros. — Mas que... — conteve-se antes de dizer outro palavrão. — O que a gente faz agora?
— É fácil, eu só preciso ligar para o tio Christopher. Minha mãe fica menos brava quando ele conversa com ela sobre não ser tão dura comigo. Ele sempre está me salvando. — ela puxou o celular da bolsa e começou a procurar na agenda.
— Eu sabia. — murmurei para mim mesma. — O que você está tentando fazer? — olhei para cima, fazendo aquela pergunta para o cosmos.
— Bom, parece que você e o Uckermann terão a segunda conversa do dia. — deu dois tapinhas em meu ombro. — Vou tomar um banho e depois vou deitar. — olhou para Bela. — Se ela quiser acender algum incenso, não deixa.
— Eu não sou criança. — reclamei.
— Seria mais fácil se fosse. — saiu andando em direção ao quarto.
— Tudo bem, foi animador ver que estava recebendo uma mensagem do universo, mas isso não anula o fato de que é perigoso uma jovem ficar andando sozinha numa cidade como essa à noite.
— Acredite, eu sei cuidar de mim. Além disso, eu tenho isso aqui. — ela tirou um cristal da bolsa e me mostrou. — Isso vai me proteger, correto?
— Não é assim que funciona. — sorri fraco, soltei um suspiro e sentei ao seu lado. — Não pode colocar um cristal no bolso e depois se colocar em perigo propositalmente esperando que o destino salve você. O universo não está aqui para te servir, você precisa se proteger sempre.
— É que às vezes é mais fácil sair por aí sozinha em Manhattan do que ficar em casa com a minha mãe. Às vezes ela é tão... cansativa. — suspirou. — Sinto que não pertenço a esse lugar. Eu simplesmente não me encaixo.
— Deixar a sua mãe brava com você não vai melhorar as coisas. Você vai acabar se machucando ou a afastando ainda mais. Quando duas pessoas são difíceis de lidar, pelo menos uma delas tem que começar a ceder ou a relação nunca vai ficar positiva. Você é uma boa garota, Bela. — afaguei seus cabelos. — Precisa ser menos impulsiva e parar para pensar antes de tomar uma decisão.
— Obrigada por se preocupar comigo, Dulce. Eu vou mesmo pensar no que disse. — ela sorriu e me abraçou. Eu a abracei de volta feliz comigo mesma por conseguir ser responsável nos conselhos que dava à ela. — Agora eu tenho que fazer uma ligação.
Fiquei ouvindo enquanto ela falava com Christopher. Bela pediu desculpas algumas vezes e pela cara que fez, imaginei que estivesse tomando um sermão. E diferente dos sermões de Maite, ser repreendida por Christopher realmente deixou Bela incomodada. Eu conseguia entender, afinal, aquele homem era um poço de grosseria.
— Pronto. — ela desligou depois de dar o endereço para ele ir buscá-la. — Ele está vindo. — bocejou fechando um pouco os olhos.
— Pode deitar e descansar um pouco se quiser.
Ela assentiu e eu saí do sofá para que ela se deitasse. Em poucos minutos, Bela respirava devagar entregando-se ao sono profundo. Fiquei roendo as minhas unhas esperando o interfone tocar.
Eu iria vê-lo de novo e mais uma vez teria que sentir aquele peso negativo dele agir de uma maneira estranha em mim. O pior era que eu gostava daquela tensão, eu me perdia nos olhos sombrios dele e desejava que continuasse a me encarar mesmo sabendo que era uma péssima ideia me deixar levar por essas sensações.
Christopher me mostrou mais de uma vez que era o tipo de homem que eu deveria manter longe.
E enfim o interfone tocou e eu permiti que ele subisse. Um minuto depois e minha campainha tocava. Olhei para Bela que dormia de forma pesada e decidi crescer e agir como a adulta que eu era. Eu iria abrir aquela porta, deixá-lo levar a menina e tudo se resumiria a isso.
Mas foi só eu abrir que minhas pernas ameaçaram fraquejar. O perfume amadeirado que ele usava invadiu as minhas narinas e aquele olhar sonolento me deixou ainda mais rendida. Ele me observou da mesma maneira, mas dessa vez analisou meu corpo de cima a baixo. Eu usava uma roupa para sair, não estava nenhum pouco parecida com a professora assalariada que ele viu nas últimas vezes.
— Espero que ela não tenha dado trabalho. — ele disse depois que seu olhar caiu sobre o meu rosto novamente.
— A Bela é um doce.
— Com quem ela quer.
— Ela dormiu no sofá. — eu disse tentando ignorar o tom grosseiro dele.
— Posso entrar? — olhou para o interior do apartamento.
— Por que? — franzi a testa tentando manter minha voz calma.
— Para acorda-la, obviamente.
— Ah, claro! — saí do caminho dele e depois ele entrou, parando em minha frente. — Eu sei que isso não é da minha conta, mas a mãe dela deveria ter uma conversa com ela. Bela me disse que as coisas não são fáceis.
— Eu já tentei conversar com a Belinda, mas ela se recusa a diminuir o trabalho para ficar mais tempo com a Bela. É uma pena, mas as coisas são como são.
— Não tem ninguém que a Belinda sempre ouça?
— Tem. Eu. E se ela recusa algo a mim, pode ter certeza que ela não vai voltar atrás. — ele disse aquilo com tanta confiança que foi impossível eu não pensar nos dois agarradinhos em uma cama. Rolava algo ali.
Lembrei da estranha sensação de que algo deveria ser feito e me dei conta de que ainda não havia entendido o que o universo queria me dizer. Talvez ele estivesse ali porque eu precisava lhe devolver o que era dele.
— Antes que eu me esqueça... — fui até minha bolsa e tirei o troco do martini de lá, depois voltei para perto dele e o ofereci. — Quarenta e quatro dólares. — ele não pegou o dinheiro e apenas arqueou a sobrancelha. — Eu só queria o que era meu.
— Eu não preciso desse dinheiro.
— Olha, eu recebi sinais de que não deveria ficar com isso, então pegue o que é seu.
— Sinais?
— É, o universo me diz coisas... às vezes.
— E o universo não quer que você fique com o meu dinheiro? — ele poderia estar zombado de mim, mas era difícil dizer isso quando tudo o que ele dizia saía num tom neutro.
— Não. Não quer.
Ele desviou o olhar para o meu apartamento. Alguns potes ciganos estavam espalhados pela decoração, eu tinha filtros dos sonhos nas portas e janelas, desenhos de mandalas que eu havia pintado em telas estavam pendurados nas paredes e por fim, ele olhou para o tapete abaixo de seus pés que tinha os dizeres "deixe a negatividade lá fora".
— Sabe, senhorita Saviñon... — tornou a me olhar.
— Dulce. c****e, já disse pra me chamar de Dulce! — me alterei levemente.
— Senhorita Saviñon. — manteve-se firme e eu resolvi aceitar aquilo de uma vez. — Você é... — ele parou de falar como se procurasse as palavras.
— Doida? Estranha? "Especial"? — revirei os olhos.
— Interessante. — ok, isso era inesperado. Relaxei meus ombros e o encarei tentando entender o que ele queria dizer com aquilo. Eu era interessante para ele? Ou só o meu jeito esquisito de se viver que era?
Ele pegou os quarenta e quatro dólares da minha mão, apoiou sua mão na porta atrás de mim e chegou mais perto, praticamente me encurralando. Me senti pequena tendo o corpo dele tão junto ao meu, sentindo sua respiração quente bater em meu rosto enquanto ele me encarava como se fosse me atacar a qualquer momento. Engoli em seco e abri um pouco os lábios pois estava ofegante.
— Obrigado por cuidar da Bela. — ele levou sua mão livre até a minha cintura e eu congelei quando ele a deslizou pela minha b***a e enfiou o dinheiro no meu bolso. — Isso é seu.
Quando Christopher se afastou, eu respirei fundo tentando esconder que estava nervosa, mas ele sabia exatamente o que tinha feito comigo e isso era uma droga. Ele já havia me ameaçado uma vez, eu não precisava de um homem como ele achando que me tinha nas mãos só para que eu fechasse o bico.
Não sei se era possível sentir duas emoções opostas pela mesma coisa, mas eu odiava e gostava da forma como estremecia perto dele. Caramba, antes era só uma atração boba, qualquer homem bonito poderia me despertar isso. Mas Christopher não era só bonito, ele era magnético e me atraía como ninguém nunca fez. Se eu chegasse perto dele mais vezes, iria enlouquecer.
Por hora, eu me contentei com o meu alívio assim que ele saiu pela porta carregando Bela ainda dormindo em seu colo.