Christopher Von Uckermann
Não foi nenhuma surpresa para mim ser acordado por uma ligação de Bela no meio da madrugada entre o sábado e o domingo. Esse era o momento em que ela mais gostava de irritar sua mãe e eu sempre ia resolver as coisas e impedir que Belinda gritasse com a filha até acordar a cidade inteira. O que me deixou surpreso foi saber onde ela estava.
Dulce tem se colocado demais no meu caminho e no começo eu comecei a ficar irritado com isso. Ela viu o que não deveria ver e tinha a cara de alguém que adorava fofocar por aí. Eu não podia correr o risco de Amber saber de algo assim e vir me questionar, porque eu detestava ter que mentir para a minha filha, mesmo que já tenha escondido coisas demais dela.
Depois do incidente com Dulce no banco, eu vi que ela era inofensiva, eu vi a inocência brilhar nos olhos dela desde o primeiro instante em que percebi que eu a abalava. Era comum que as mulheres se sentissem atraídas por mim, mas com ela era diferente. Dulce parecia querer correr de mim, mesmo não conseguindo tirar os olhos quando estava perto.
A inocência dela me lembrava Darla e isso me fazia ter raiva, não de Dulce, mas de mim. Em treze anos eu jamais fui capaz de comparar nenhuma outra mulher com Darla, ela era única, estava acima de qualquer outra e ninguém chegava aos seus pés. Mas aí Dulce apareceu com aquele brilho familiar nos olhos e aquela mania de sempre estar no meu caminho. Isso era típico da Darla e me dar conta dessa semelhança me deixava cheio de fúria. Não, ninguém é igual a ela! Ninguém pode ser igual! Ou pode?
Confesso que encurrala-la em seu apartamento foi apenas uma desculpa para chegar mais perto e tocar nela. Talvez eu me arrependesse disso depois, mas no momento eu só conseguia pensar no cheiro dela, tão doce quanto o seu nome, que eu me recusava a proferir. Eu vi ela tremer quando eu cheguei perto e estava até torcendo para que suas pernas vacilassem só para eu ter uma desculpa para segura-la.
Foda-se! Eu tinha que ficar longe de Dulce. Estar perto dela me lembrava de um passado que eu nunca mereci e acabei perdendo. Darla tinha ido embora desse mundo por minha culpa e eu nunca mais deveria ousar dar o meu amor para nenhuma mulher. Eu sempre amaria Darla e deveria manter isso assim em respeito à ela.
Quando parei em frente à casa de Belinda, a avistei na entrada do Hall, vestindo um roupão cinza, de braços cruzados, batendo o pé no chão e com uma expressão bem irritada. E lá vamos nós mais uma vez.
— Bela? — dei uma leve sacudida em Bela que estava deitada no banco de trás. — Nós chegamos, precisa acordar.
— Ah não, me leva com você, tio Christopher! Eu posso dormir com a Amber essa noite. — choramingou.
— Você não vai querer irritar ainda mais a sua mãe. Mas não se preocupe, eu não vou deixar que ela estoure os seus ouvidos com a gritaria. — ela riu.
— Ok. — suspirou.
Saímos do carro e começamos a andar até Belinda. Bela vinha atrás de mim como se quisesse me usar como escudo para um possível ataque, mas sua mãe jamais a machucaria. Se ela um dia fizesse isso, eu a mataria.
— Você acha correto me deixar preocupada desse jeito? Você podia ter morrido! — Belinda esbravejou.
— Não seja dramática! — Bela disse.
— Sua mãe estava preocupada. — a olhei com repreensão.
— Ok. — Bela encolheu os ombros. — Me desculpe, mamãe, o que eu fiz foi errado.
— Claro que foi! — Belinda continuou com o tom de voz alterado. — Foi para aquela boate de novo, não foi? Eu juro que vou processar aquele lugar!
— Bel, já chega. — falei e depois olhei para Bela. — Vá para dentro, tome um banho e durma. — ela assentiu e começou a andar. — Ei? — a chamei e ela olhou para mim por cima do ombro. — O celular. — estendi a mão.
— Mas...
— Uma semana sem celular. — ela se deu por vencida, tirou o aparelho da bolsa e depois de me entregar entrou na casa. — Não a deixe ir a nenhum lugar que não seja a escola e a minha casa durante essa semana. — entreguei o celular para Belinda. — Deve ser o suficiente.
— Tudo bem.
— Não grite com ela. Bela só está se rebelando contra você porque não dá toda a atenção que ela merece.
— Christopher, não comece! — revirou os olhos. — Eu amo a minha filha, mas preciso trabalhar.
— Seu pai é o governador, ele sempre te deu tudo o que queria. Essa casa luxuosa onde mora é dele, seu carro foi comprado com o dinheiro dele, ele paga a mensalidade do colégio da Bela, além de também pagar a mesada dela. Você não precisa trabalhar.
— Eu só não quero me sentir uma patricinha inútil. — deu de ombros.
— Então pare de aceitar as coisas que ele te dá.
— Lembre-se que ele também já te deu coisas, Christopher. — chegou mais perto. — E foi graças a mim.
— Não se sinta superior, Belinda. Sim, eu te devo muita coisa, mas você também me deve. — ela forçou um sorriso e deu um passo para trás. — E eu não faço isso por me sentir obrigado, faço porque amo a Bela como se fosse minha filha.
— É a única imagem de um pai que ela tem, então é bom saber que faz essas coisas por ela e não por mim.
— Tenho que ir. Se a Bela me disser que você gritou com ela...
— Eu vou deixá-la em paz, pelo menos até ela ferrar com a minha paciência de novo.
Me despedi dela e segui meu caminho de volta para casa. Às vezes eu tinha que tomar as rédeas da situação quando se tratava de Belinda e sua filha. Ela nunca soube ser uma mãe responsável, dava tudo o que a menina pedia, raramente passava um tempo com ela e só sabia surtar quando Bela era rebelde. Se eu não estivesse ali, aquela garota não saberia o que é certo ou errado, pois sua mãe jamais fez questão de ensinar.
Quando entrei em casa e cheguei à sala de estar, Amber estava com Anahi no sofá. Eu sabia que estavam me esperando e estavam preocupadas.
— Ela está bem? — Amber apoiou-se em suas muletas e ficou de pé. Ela não usava a perna mecânica à noite.
— Está sã e salva. — a tranquilizei. — Vai ficar de castigo por uma semana.
— E eu suponho que você colocou ela no castigo como sempre. — minha irmã deduziu.
— A Belinda não sabe como criar alguém, mesmo depois de tanto tempo. — eu disse.
— Se não fosse por você, Bela estaria perdida.
— Ela ainda pode vir aqui, não pode? — Amber perguntou.
— Sim, meu raio de sol. Ela pode. — sorri para ela. Amber era uma das poucas pessoas que arrancava um sorriso meu. — Agora você precisa dormir. Não deveria ter decido as escadas de muletas.
— Tia Annie me ajudou. A gente podia comer um pedaço de bolo antes, não? — ela olhou para Anahi. — Amanhã é domingo, não temos que acordar cedo.
— Não te faz bem dormir tão tarde. — Annie disse, mas aí Amber lançou o seu olhar de cão sem dono. — Isso é covardia. — minha irmã tinha o coração mole quando se tratava da sobrinha. — Só um pedaço de bolo.
— Obrigada! — Amber sorriu e deu um beijo na bochecha de Annie.
Amber acabou nos convencendo a ir até a sala de cinema e além do bolo, nós comemos pipoca também. Quando o filme chegou ao fim, eu olhei para a minha filha que dormia na poltrona com a boca levemente aberta. A cena estava engraçada e eu me permiti sorrir enquanto a observava.
— Ela é tão linda. — Anahi disse com os olhos brilhando.
— É a garota mais linda do mundo. — falei. — Esqueci de te dizer, mas o Alfonso vai estar aqui na segunda. Vai ficar aqui em casa por um tempo.
— Por que ele não pode ir para um hotel? — bufou.
— Porque ele é o meu melhor amigo e um quarto de hóspedes nessa casa enorme é muito mais confortável do que um quarto de hotel.
— Por mim ele dormiria na rua.
— Eu não permitiria. — Anahi sempre era um doce com todos, menos com Alfonso. — Precisa superar, Anahi.
— Eu superei, só não o quero perto.
— Ok, não irei discutir. — me pus de pé. — Só não o ignore.
— É impossível ignorar um homem recitando poemas para mim o tempo todo. — ela pegou as muletas de Amber e eu tomei cuidado para não acordar a minha filha enquanto a pegava no colo.
— As outras mulheres gostam quando ele faz isso. — ela me lançou um olhar de tédio. Sabia como ela se irritava quando eu a lembrava que Alfonso era romântico com qualquer mulher bonita. — Mas até que ele é bem sensível.
— Claro, tem um coração tão grande que cabe o mundo todo. — começou a andar em minha frente enquanto eu a acompanhava. — O que ele vem fazer aqui?
— Ele está escrevendo outro livro e acha que mudar os ares pode ajudar.
— Só vou suporta-lo porque a Amber o adora. — avisou enquanto subia as escadas.
Deixei Amber em seu quarto e lhe dei um beijo na testa antes de sair. Desejei boa noite à minha irmã e fui para o meu quarto. Anahi nem sempre odiou Alfonso. Ela costumava amá-lo. Os dois tiveram um envolvimento no passado, nada que parecesse ser sério, mas ele sempre pareceu ser o cara perfeito para se namorar. O problema era que, como ela havia dito, ele tinha o coração grande demais.
Ele nunca a traiu pelo que sabemos, mas não evitava flertar com suas fãs quando estava começando a fazer sucesso com a sua primeira trilogia. Ele dizia que só estava se divertindo, mas minha irmã se sentia desrespeitada e como eu tentava ter bom senso, concordei com ela. Agora ele fazia juras de amor sempre que estava por perto, o que a irritava, mas no fundo eu sabia que ela gostava disso.
Meu quarto parecia ser o lugar mais solitário da casa, talvez por ser grande demais, por eu sempre manter as cortinas fechadas ou muito mais provável que fosse por eu ainda manter as coisas da minha falecida esposa no closet. Não toquei em nada desde que ela se foi. Minha diarista apenas fazia uma limpeza uma vez ao mês para que as coisas não estragassem. Eu queria manter tudo intacto.
A mãe de Darla, Anahi e Belinda se ofereceram várias vezes para tirar as coisas dela de lá, reunir tudo o que estava em bom estado e mandar para doação, mas eu simplesmente não podia me desfazer daquilo que ainda me fazia sentir que a tinha por perto. Além disso, eu ainda usava a minha aliança. Era como se ela nunca tivesse ido embora.
Mas era só deitar na minha cama sozinho e notar que sim, ela não estava mais ali. Nunca mais estaria. Era culpa minha. Eu não a merecia e ela foi tirada de mim. Eu fiz isso com ela. Se o karma existisse, eu havia pagado o meu depois do erro que cometi. Um erro com uma consequência que me assombraria para sempre.
[•••]
Eu nunca dormia bem, mas uma boa xícara de café sempre me revigorava. Amber relutou para poder sair da cama de manhã, mas Annie a lembrou de que faríamos uma visita ao museu da música e ela saltou da cama logo em seguida. Minha filha amava tudo o que tinha relação com o assunto.
Foi um dia proveitoso em família e eu foquei totalmente nas duas mulheres da minha vida. Na segunda, receberia Alfonso no fim da tarde e depois de levar Amber até o colégio, passei o resto do dia em meu escritório, cuidando de alguns assuntos que meu pai havia direcionado a mim como uma maneira de me manter sendo responsável. Foi um alívio para ele quando eu aceitei entrar no negócio da família, mas não havia feito aquilo por mim e sim por Darla e Amber.
Não que eu quisesse depender do meu pai, eu mexia com mercado financeiro e podia muito bem largar aquele banco e deixar que ele se virasse sem mim. Meu estilo de vida não mudaria em nada, eu tinha a minha própria fortuna totalmente desvinculada do nome Victor Von Uckermann. O único motivo de continuar sendo seu funcionário honorário era para que ele me deixasse em paz.
Meu celular começou a tocar e eu atendi assim que vi o nome da minha filha na tela.
— Oi, raio de sol.
— Papai, não quero te atrapalhar, mas aconteceu uma coisa e você precisa resolver, por favor.
— O que foi? — me preocupei.
— A tia Belinda está na sala da diretora, parece furiosa e não para de gritar. Eu ouvi ela falar o nome da professora Dulce, acho que não gostou dos cristais que eu e Bela ganhamos dela. — fiquei tenso no mesmo instante. — Por favor, papai, não deixe que façam m*l à Dulce, ela é a melhor pessoa desse colégio, não quero que ela seja demitida só por causa do modo como vive.
— Estou a caminho. — falei depressa já levantando. — Não se preocupe, meu amor.
Mesmo que eu quisesse manter distância, a ideia de Belinda atacando Dulce gratuitamente enquanto desrespeitava as crenças dela me fez estremecer. Era louco, eu sei, essa mulher mexeu comigo de um jeito anormal e eu deveria ser mais racional antes de sair correndo para salvá-la das garras de Bel. Mas o instinto protetor me atravessou no mesmo instante, assim como acontecia quando Darla estava em apuros.
É, eu estava totalmente fodido.