09 - filosofia de vida

2258 Words
Dulce Maria Comecei o meu dia sendo chamada na sala da diretora e pela expressão da secretária que foi atrás de mim, o assunto não era nada bom. Apertei meu colar de mandala durante todo o trajeto até estar diante da porta da diretoria.  Ouvi uma discussão, uma outra mulher cuja voz eu desconhecia parecia bastante descontente com alguma coisa. Aliás, descontente era apelido, ela estava furiosa.  — Com licença. — eu disse abrindo apenas uma fresta.  — Você. — a mulher que eu reconheci logo de cara resmungou. Belinda cerrou os olhos para mim e se manteve quieta agora que eu estava presente.  — Algum problema? — perguntei para a diretora.  — Você presenteou a Isabela Peregrín com esses cristais? — a diretora me perguntou calmamente. Sobre a mesa, estavam os cristais que eu havia dado para Bela.  — Sim. — respondi um pouco incerta.  — Não deveria ter feito isso.  — Não entendo. Por que não?  — Porque não pode doutrinar alunos com a sua religião! — Belinda vociferou.  — Não é uma doutrina e muito menos uma religião. — a encarei.  — Agora a minha filha fala sobre universo, medita e acende aquelas varetas fedorentas pela casa! Eu não pago uma fortuna aqui para vocês enfiarem ideologias goela a baixo da minha filha! — seu rosto estava vermelho e ela me encarava como se quisesse me bater.  — Não é ideologia. — tentei manter o tom calmo. — É uma filosofia de vida.  — Achei que você fosse professora de artes!  — Eu só estava tentando fazer com que a Bela ficasse mais relaxada, só isso. Deve ter noção de que a sua filha anda com a cabeça cheia de coisas, ela faz coisas que não deveria. Os cristais e a meditação podem acalma-la.  — E quem você pensa que é pra opinar sobre como a minha filha se sente? — ela caminhou até mim e parou em minha frente. — Os outros pais não vão gostar muito de saber que temos uma professora maluca tentando manipular as crenças dos nossos filhos.  — Eu não sou maluca. — não costumava me importar quando alguém tinha essas opiniões sobre mim, mas o jeito desprezível com o qual ela me olhou me fez sentir ferida.  — Espero que vocês sejam responsáveis e não permitam mais isso. Se quiserem demiti-la, será até melhor. — Não é necessário demitir ninguém, senhorita Peregrín. — senhorita? Ela não era casada? Droga, eu estava prestes a me dar m*l e mesmo assim deixava minha curiosidade aguçar. — Dulce, a partir de hoje não quero que passe nenhuma das suas crenças ou nada do tipo para os alunos. Também não quero saber de cristais, incensos ou semelhantes no meu colégio.  — Espera, eu não posso carregar cristais nos MEUS bolsos? — fiquei boquiaberta. — Isso é discriminação, você sabe.  — Dulce, não dificulte as coisas. — ela suspirou. Não parecia que ela queria mesmo fazer aquilo comigo, era só um jeito de deixar Belinda tranquila. — Também não utilize nenhum apetrecho que possa ser ligado à sua filosofia de vida. — olhou para os meus acessórios.  — São só acessórios.  — E eles não tem nenhum significado especial? — arqueou a sobrancelha.  Eu soltei um longo suspiro, retirei o meu colar de mandala, retirei as pulseiras que representavam a tríplice lua e também retirei meus anéis que continham símbolos ligados à bruxaria natural. Os guardei no bolso do meu casaco e depois ergui a cabeça e engoli o bolo que se formou em minha garganta. Eu não podia ser fraca e chorar na frente delas.  Não, ninguém nunca havia me repreendido por ser quem eu sou e eu jamais tive que abdicar da minha personalidade só porque não agradava aos outros. Nunca tive problemas com isso e nunca fui tratada como uma ameaça ideológica. Eu nunca quis enfiar as minhas crenças em ninguém, eu só as usava para ajudar.  — Espero que se controle daqui pra frente. — Belinda disse de forma fria. A olhei de canto rapidamente e depois tornei a olhar para a diretora.  — Vou ter que me vestir de outro jeito também? — eu usava roupas coloridas bem estilo hippie do século XXI.  — Você poderia usar roupas mais neutras. — ela disse. — Mas não vou exigir isso de você, é só uma sugestão.  — Eu posso ir? — estava a um passo de desabar e não queria fazer isso na frente delas. Algo me dizia que Belinda adoraria me ver chorar.  — Pode, Dulce.  Assenti e dei as costas para sair logo daquela sala sufocante. Meus olhos se enchiam de lágrimas a medida que eu me aproximava da porta. Assim que a abri e fui para o corredor acabei esbarrando em alguém que vinha em minha direção. Eu olhei para cima e encontrei aqueles olhos frios me encarando, mas ele relaxou quando olhou para mim.  — Você... — Christopher começou. — Você está bem? — aquilo era preocupação ou eu era mesmo maluca?  — Sim. — minha voz saiu mais embargada do que eu gostaria. — Com licença. — passei por ele esbarrando bruscamente em seu ombro e caminhei quase correndo para longe dali. Mantive minha cabeça baixa enquanto passava pelos corredores para que ninguém visse as minhas lágrimas silenciosas. Quando finalmente curvei em um corredor vazio, eu sentei em um dos bancos próximo aos armários e afundei meu rosto em minhas mãos, me deixando chorar.  Eu me sentia patética por estar me sentindo tão m*l, mas aquela mulher me fez sentir desencaixada, como se tivesse algo de muito errado comigo e que deveria ser corrigido. Apesar de aguentar piadinhas e comentários inconvenientes o tempo todo, ninguém jamais me tratou como se eu estivesse no lugar errado, fazendo coisas erradas.  — Dulce? — limpei meu rosto rapidamente quando ouvi alguém me chamar.  — Você não deveria estar em aula? — perguntei para Amber sem olhar para ela.  — E você não deveria estar sorrindo? — me permiti olhar para ela e meus olhos se encheram de lágrimas de novo. — Dulce... — ela sentou ao meu lado e me abraçou.  Apertei meus olhos e mais lágrimas queimaram, descendo por meu rosto enquanto soluços saíam de minha garganta. Amber me apertava contra si enquanto passava a mão por minhas costas como um meio de me deixar mais confortável.  — Sinto muito. — ela disse. — Não imaginamos que a tia Belinda agiria dessa maneira com algo que parecia ser tão inofensivo.  — Não é culpa de vocês. — me afastei quando meu choro diminuiu. — Eu deveria ter sido mais cuidadosa.  — Dul, ninguém imaginou que isso seria visto como algo r**m. A tia Bel só não sabe muito sobre o assunto. A gente tende a ter medo do que não conhece, não é?  — É... — suspirei. — Como a Bela está?  — Um pouco envergonhada pela mãe, mas ela irá falar com você. — acariciou meu rosto. — Não importa o que a Belinda disse, não há nada de r**m em você. Eu nunca me senti tão confortável perto de uma adulta antes e nunca gostei de alguém tão rápido. Todo mundo sente essa energia boa que você traz e é impossível não gostar da sua companhia, de conversar com você e ouvir você falar sobre todas as coisas em que acredita. Eu te ouviria o dia inteiro. — sorriu carinhosamente.  — Eu também te ouviria o dia inteiro, principalmente quando você canta.  — Você quer que eu cante pra você agora?  — Isso me faria sentir muito melhor, mas você não tem aula?  — Eu prefiro ficar com você.  — Não deveria dizer isso, eu sou sua professora. — rimos.  — Mas também é minha amiga. — ela ficou de pé e me ofereceu sua mão. — Vamos até a sala de música, eu quero que você toque piano.  Eu sorri, segurei a mão dela e nós começamos a andar juntas até a sala de música. Nós sentamos uma ao lado da outra no banco e eu comecei a tocar enquanto ela cantava. A acompanhei apenas como segunda voz, prestando atenção em cada palavra dela. Amber era encantadora e soube muito bem como me fazer sentir melhor.  [•••] Christopher Von Uckermann Fiquei parado no corredor ainda olhando para a direção onde Dulce havia ido. Eu não deveria sentir aquilo, mas meu peito se apertou quando ela olhou para mim com seus olhos cheios de lágrimas. p***a, por que ela tinha que me lembrar tanto do passado? Por que eu tinha que me importar se ela estava chorando ou não? Isso não deveria ser da minha conta, mas mesmo assim eu quis socar a pessoa que a deixou assim. A porta da diretoria foi aberta e Belinda saiu de lá com um olhar satisfeito e eu já imaginava o porquê. Ela pareceu bem confusa em me ver ali.  — O que faz aqui? — perguntou.  — Você fez a Dulce chorar?  — Ela chorou? — riu. — Ótimo, sinal de que não vai se meter comigo.  — Do que p***a você está falando? Eram só pedras! — alterei minha voz involuntariamente. — Eu decido como cuidar da minha filha.  — A gente sabe que não é bem assim.  — Tanto faz. — deu de ombros.  — Eu custo a acreditar que você é adulta, porque se comporta como uma adolescente louca! É pior do que a Bela.  — Quanto drama por causa de uma professorinha. — me encarou com desconfiança. — O que está acontecendo, Christopher?  — A minha filha adora a Dulce e eu não vou deixar que você transforme a vida dessa mulher num inferno.  — Tarde demais. A diretora barrou todas as maluquices dela dentro desse colégio.  — Então ela terá que voltar atrás. — passei por ela prestes a entrar na sala.  — Ei! — segurou meu braço. — Você não pode simplesmente passar por cima do que eu quero!  — Eu faço o que eu quiser! — me desvencilhei da mão dela e segurei seus dois braços, a encarando seriamente. Eu sabia que ela temia esse meu lado. — A Amber está feliz e eu não vou deixar que você estrague isso. Acho melhor fazer a minha vontade dessa vez.  — Sabe, às vezes eu tenho vontade de me livrar de você. — falou entredentes. — Quero ver você tentando. — a larguei bruscamente.  Belinda me olhava com raiva e uma parte de mim queria que ela parasse e simplesmente aceitasse. Eu sabia que ela se irritava quando eu exigia algo dela, mas eu tinha esse direito, assim como ela também tinha o direito de exigir coisas de mim. Por que agora ela estava tão relutante em aceitar?  — Ela é só a droga de uma professora de ensino médio! — esbravejou. Era isso. Puro ego. Belinda já havia humilhado Dulce, me deixar desfazer a sua maldade a faria se sentir i****a.  — Bel... — respirei fundo e baixei o tom de voz. — Depois eu te dou o que quiser, um colar, sapatos, até dinheiro vivo, f**a-se! Só deixe a Dulce em paz.  — Tem certeza que isso é só pela Amber?  — Por quem mais seria? — ela relaxou os ombros e assentiu lentamente.  — Ok. Salve a maluca. Só não esqueça os meus sapatos. — forçou um sorriso e depois deu as costas para mim e se retirou. Era fácil dobra-la com presentes.  Se eu poderia simplesmente deixar a Belinda brava sem tentar reparar isso? Na verdade, não era tão simples assim. Minha ligação com ela não era amorosa, eu custava até a acreditar que éramos amigos. Eu estava ligado à ela por algo ainda mais complexo. Devíamos muito um ao outro. Por mais que eu não gostasse de algumas de suas ações, também não gostava de vê-la de mau humor comigo.  Conversei com a diretora sobre a situação de Dulce e garanti que se ela não tivesse total liberdade de ser quem é dentro do colégio, eu cancelaria todas as minhas contribuições financeiras me limitando apenas a pagar a mensalidade de minha filha. Isso bastou para ela voltar atrás na decisão.  Depois de sair dali, eu pensei em ir embora. Eu já havia feito a minha parte, já estava tudo certo, não tinha por que eu continuar no colégio. E mesmo assim eu me vi caminhando pelos corredores só para ter certeza de que ela estava bem. E se eu a encontrasse? O que diabos eu diria? Daria a boa notícia? Perguntaria se ela estava mais calma? Se precisava de ajuda? Merda, eu deveria ficar longe!  Ok, eu só precisaria ter certeza de que ela estava bem e poderia ir embora logo em seguida, evitando qualquer contato futuro. Seria rápido e fácil.  Passei pela sala de música e reconheci a voz da minha filha. Me aproximei e abri a porta devagar. Dulce estava tocando piano enquanto Amber cantava. Nenhuma das duas me viu ali, tendo em vista que se concentravam uma na outra e eu estava atrás da porta, as observando por uma pequena fresta.  Quando vi Dulce pela primeira vez, ela estava sentada em frente ao mesmo piano, mas não cheguei a ouvi-la tocar. Agora que presenciava isso eu estava começando a me arrepender de não ter ido embora. Os dedos dela passeavam pelas teclas como se aquilo fosse a coisa mais fácil do mundo. Era fascinante. E eu não podia deixar que esse fascínio me dominasse, mas me sentia um animal agindo por puro instinto, cercando sua presa pouco a pouco.
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