Dulce Maria
Nós terminamos a música e eu não conseguia evitar de manter um sorriso largo em meu rosto. Foi como se tudo de r**m tivesse desaparecido. Olhei para Amber e vi que ela sorria da mesma maneira, o que me deixou ainda mais feliz. Eu acreditava em energia de cristais e tudo o que viesse da natureza, mas não havia nada mais forte do que a energia humana. Amber poderia ser o meu cristal agora.
— Obrigada por isso. — eu disse. — Me sinto muito melhor.
— Isso me deixa muito feliz. — sorriu. — Você faz parecer que tocar piano é fácil. — tocou as teclas com as pontas dos dedos. — Eu adoraria ter um desse. Você pode me ensinar?
— Eu darei aula de piano para vocês. Não vai ser sempre e talvez não aprendam muitas coisas porque a turma é grande, é difícil dar tanta atenção a cada um. Mas mesmo assim, eu farei o que posso.
— Tudo bem, é o suficiente. — ela olhou por cima do meu ombro na direção da porta.
Virei-me para olhar e vi Christopher em pé olhando para nós duas. Se eu já havia tido problemas com uma mãe, agora também teria com ele. Amber estava em horário de aula e eu estava aqui tomando o tempo dela.
— Pai! — ela foi até ele. — Você resolveu?
— Sim. — ele olhou para mim. — Não tem que se preocupar com mais nada, eu falei com a diretora. Pode continuar usando as suas coisas e falando sobre o que quiser.
— V-você fez isso por mim? — era um pouco difícil de acreditar.
— Pela Amber, obviamente.
— Claro. — olhei para as teclas do piano para que ele não visse o meu rosto ruborizado. É lógico que aquilo foi pela filha dele. Por que ele faria alguma coisa por mim?
— Você deveria estar na aula. — ele disse para ela, não em tom de repreensão, o que era uma surpresa.
— Eu já estava indo. Ah, o tio Poncho chega hoje, certo? Eu estou louca para ele me mostrar o que já escreveu. — ela animou-se. — Dulce, você deve conhecê-lo, eu já vi você carregando um dos livros dele. Alfonso Herrera, sabe?
— Você conhece Alfonso Herrera? — meu queixo caiu. — E o chama de tio Poncho?
— É. — deu de ombros e sorriu. — Você podia conhecê-lo! — ficou animada. — Podia, não podia? — olhou para o pai.
— Não sei se isso seria uma boa ideia. Alfonso está aqui porque quer ficar em um ambiente tranquilo.
— Mas a Dulce é tranquila... às vezes.
— Depois falamos sobre isso, está bem? Vá para a aula. — dessa vez ele foi um pouco mais firme.
— Ok. — ela beijou a bochecha dele e depois se retirou.
Certo, eu estava sozinha com o homem que me fazia tremer em lugares que eu nem sabia que tremiam. Ele me encarou por alguns instantes e depois bufou desviando o olhar de mim. Ele estava irritado com alguma coisa. Era comigo? Por que ele estava sempre tão raivoso?
— Obrigada. — falei chamando a sua atenção de volta para mim. — Mesmo que isso tenha sido pela Amber, foi muito gentil da sua parte intervir.
— Você dá aulas de piano particulares? — ele perguntou depois de alguns segundos em silêncio. Ele podia não ter ignorado a minha gratidão, certo? Isso foi muito grosseiro.
— Nunca fiz isso, mas eu sou professora, então eu meio que poderia.
— Está livre sábado à tarde?
— Sim.
— Pode se comprometer a dar aulas para a Amber todos os sábados?
— Posso.
— Certo, eu vou comprar um piano agora mesmo. — ele tirou o celular do bolso e começou a digitar. — Duas horas todos os sábados, acha que cinco mil dólares mensais são o suficiente? — perguntou sem levantar o olhar.
— O-o que? — levantei bruscamente e acabei esbarrando nos pratos da bateria ao lado, que caíram no chão fazendo a sala silenciosa se encher com o eco daquele barulho insuportável.
Christopher olhou para os pratos e depois para mim com a mesma carranca de sempre.
— Acha que cinco mil é pouco? — aquele era um questionamento genuíno, ele estava pronto para negociar.
— Não! Isso é mais do que eu ganho aqui.
— Nossa, você ganha muito pouco. — voltou a olhar o celular. — Pronto. Já estão cuidando disso para mim. — guardou o celular. — Tudo certo?
— Sim. Muito certo! Mais que certo! Totalmente certo! — caramba, mulher! Cale a boca!
— Deveria recolher isso do chão, alguém pode tropeçar. — acenou com a cabeça para os pratos ainda no chão.
— Tem razão. — e foi só eu dar o primeiro passo que eu mesma tropecei.
Meu corpo foi projetado para a frente e eu fechei os olhos esperando ter um doloroso encontro com o chão, mas ao invés da dureza daquele piso, eu caí sobre a dureza de braços musculosos e firmes.
Christopher estava com seus braços em torno de mim enquanto eu apoiava minhas mãos em seus ombros. Abri meus olhos e encontrei aqueles olhos cor de mel me encarando fixamente, quase como se ele pudesse enxergar o meu interior. E nós ficamos daquele jeito por segundos que mais pareceram horas.
Ele estava perto demais, eu sentia sua respiração bater em meus lábios enquanto eu mesma ofegava constantemente, sentindo-me anestesiada pelo toque repentino e por aquela visão. Meu corpo inteiro estava fora dos meus comandos e se ele me largasse eu terminaria aquela queda ao chão.
Seus ombros ficaram tensos sob o meu toque e ele pressionou os lábios um no outro como se estivesse incomodado. Foi então que ele me ergueu tão bruscamente que eu tive que me apoiar no piano atrás de mim. O vi afastar-se ainda me encarando com incômodo e só por isso eu desejei sumir daquela sala.
— Deveria tentar ser menos desastrada. — sua voz saiu quase como um sermão. Ele ficou bravo por que eu caí?
— Desculpe... eu acho. — franzi a testa.
— Espero que não quebre nada em minha casa.
— Não vou. — não me surpreenderia se ele dissesse que pareço um tomate de tão vermelha agora.
— Tenha um bom dia, senhorita Saviñon. — após dizer isso, ele saiu pela porta andando apressadamente. Quando ele aprenderia a me chamar pelo meu nome?
Tirei do meu bolso todos os meus acessórios e beijei cada um deles antes de colocá-los em seus devidos lugares. Eu com toda certeza desestabilizaria todos os meus chacras se abdicasse dos meus objetos. Bastou eu retirar tudo por alguns minutos para virar uma louca desastrada que m*l consegue dar um passo direito.
Maite voltou para casa mais cedo do que eu, então eu tive que pegar o transporte público o que foi extremamente desconfortável. Ser uma pessoa sensível às energias alheias tornava-se algo muito cansativo quando eu estava em um ambiente aglomerado.
Assim que abri a porta de casa senti um cheiro forte de tinta vindo do único quarto vago que ainda tínhamos. Fui direto para lá e avistei Maite pintando as paredes de azul. Ela estava usando roupas velhas, estava descalça e bem suja.
— Por que não contratou alguém? — perguntei.
— Porque eu sei pintar uma parede e estava com tempo livre. Além disso, a gente não pode se dar ao luxo de gastar, usamos nossas economias neste apartamento. E é por isso que vou colocar esse quarto para alugar.
— Não precisa, eu arrumei outro emprego.
— Que? — franziu a testa.
— Vou dar aulas particulares de piano para a Amber todos os sábados. Vão ser cinco mil dólares a mais. — sorri animada.
— Tudo isso por quatro dias ao mês? — arregalou os olhos. — Mesmo assim, Dulce, não é um trabalho fixo, você não sabe se ele vai te dar um contrato ou algo assim. O melhor é que a gente arranje alguém para o aluguel.
— E como tem certeza que nosso hóspede vai gostar de paredes azuis?
— Todo mundo gosta de azul.
— Sabia que é a cor favorita da maioria dos doentes mentais? — ela cerrou os olhos para mim. — Eu só citei uma curiosidade. — dei de ombros.
— Sabe o que seria curioso? — ela me ofereceu um outro pincel. — Se você me ajudasse.
— A gente tem que tomar cuidado em quem vai colocar dentro de casa porque... — eu dizia andando de costas em direção à porta. — ...nunca se sabe os pesos que uma pessoa pode trazer para perto de nós. O melhor é que eu participe dessas entrevistas.
— Você está tentando sair de fininho? — cruzou os braços.
— Não? — coloquei um pé para fora do quarto e depois fechei a porta.
— Vai me ajudar a limpar depois! — gritou lá de dentro.
Preparei alguns sanduíches para nós e depois de ser obrigada a limpar o quarto, nós lançamos um anúncio na internet sobre um quarto vago. Nossa preferência foi hospedar uma mulher, assim seria mais confortável.
Ao longo das semanas, entrevistamos diversas pessoas que estavam interessadas e todas elas sempre inventavam uma desculpa para ir embora quando eu começava a fazer perguntas ligadas ao lado espiritual. Não era surpresa que me olhassem como se eu fosse maluca.
— E então, Molly, o que você pode me dizer sobre a sua áurea? — perguntei para a última entrevistada da sexta-feira. Maite soltou um longo suspiro ao meu lado.
— Minha o que? — a mulher franziu a testa.
— Sabe, eu não quero dividir meu espaço com alguém que possa ter uma energia pesada. O que você acha sobre lavar seu quarto com sal grosso todos os domingos?
— Eu... — ela começou a levantar da cadeira. — Isso foi ótimo, mas... mas eu tenho que ir. Obrigada pela atenção, meninas. — sorriu sem jeito e logo ela já estava atravessando a porta da frente.
— Por que você fica fazendo isso? — May me olhou com repreensão. — Você quer alguém que seja igual a você?
— Não, claro que não. Só quero alguém que não me julgue. Não tem que ser alguém que acredite nas mesmas coisas que eu ou que me ache normal. Pode me achar maluca à vontade, o problema vai ser se a pessoa quiser que eu me limite, se ficar incomodada ou não quiser se aproximar de mim.
— Por que está dizendo isso? — relaxou e me olhou preocupada. — O que aconteceu? Alguém te tratou m*l? Pode me dizer quem foi, eu juro que essa pessoa vai se arrepender de ter aprendido a falar!
— Não, tudo bem. — segurei a mão dela. — Foi a mãe da Bela. Ela queria que a diretora me impedisse de usar ou falar sobre as minhas coisas no colégio. Ela acha que estou tentando doutrinar os alunos com alguma espécie de religião. — May apertou a minha mão contra a dela. — Eu não costumo me incomodar quando alguém zomba ou diz que eu sou doida, mas ela realmente parece desprezar isso. Eu me senti deslocada.
— Você não está deslocada, você pertence a qualquer lugar onde queira estar. Dulce, você é bem diferente das outras pessoas e é isso que te torna especial. Eu também sou alguém que os outros julgam porque você sabe... — riu.
— É um poço de sinceridade com qualquer um. — ri junto.
— Sim. A primeira coisa que eu te disse foi "não fui com a sua cara". Qualquer um se afastaria, mas você insistiu porque achou que eu deveria estar perto de alguém com uma energia positiva que pudesse cuidar da minha áurea. E você cuida. — levou sua mão até meu rosto. — Nós cuidamos uma da outra.
— Você estaria perdida sem os meus cristais.
— Sim, estaria. — ela me deu um abraço apertado. — Vamos achar alguém que te aceite como você é, eu prometo.
— Obrigada por entender.
— Agora eu vou preparar um chá de camomila para nós. O dia foi estressante. — ficou de pé.
— Se o nosso hóspede tiver algum problema mental, ele com certeza vai gostar das suas paredes azuis.
— Tá bom, amanhã a gente procura num hospital psiquiátrico. Mas temos que ter cuidado, eles podem não deixar você sair de lá. — deu dois tapinhas no topo da minha cabeça.
May era especial, ela me protegia e aceitava o meu estilo de vida. Mesmo nós sendo polos opostos, eu sentia como se ela me completasse. Acho que não sobreviveria um só dia em Nova York se ela não estivesse comigo.
[•••]
Já era sábado e eu tinha que ir até a mansão Uckermann no período da tarde. Recebi uma ligação assim que acordei e uma voz feminina que se apresentou como Anahi, tia da Amber, me perguntou se tudo estava confirmado e se eu tinha alguma exigência antes que o contrato fosse redigido. Diferente de seu irmão, ela foi extremamente gentil e atenciosa, senti que iria gostar da presença dela.
Acabei lembrando que Alfonso Herrera estaria hospedado lá e corri até uma livraria para garantir o último livro que ele havia lançado e que eu estava louca para ter em mãos. Seria uma oportunidade de ter um exemplar autografado, isso se Christopher não achasse que eu estaria incomodando o seu hóspede, o que era bem provável.
Procurei um pouco pelas prateleiras e folheei alguns outros livros antes de ir pagar pelo que eu levaria. Estava distraída lendo a introdução de um livro de ficção científica quando senti alguém cutucar o meu ombro.
Virei-me no mesmo instante e encontrei um homem olhando para mim. Ele vestia uma jaqueta de couro marrom, calças jeans surradas e botas marrons, além de estar com uma bolsa tiracolo enorme que parecia cheia de coisas. Em sua mão, ele segurava um saquinho preto que se parecia muito com o que eu carregava no bolso interno do meu casaco.
— Você deixou cair. — ele disse. Tateei o meu casaco e realmente notei que não estava mais com o saquinho. — Turmalina n***a. Desculpe, tomei a liberdade de olhar, sou muito curioso. — peguei o saquinho e o guardei no mesmo lugar de antes.
— Obrigada. Não sei como foi cair. — sorri. — Você conhece cristais? — fiquei curiosa.
— Eu sou historiador, costumo trabalhar principalmente em escavações, então sim, eu sei muito sobre cristais e o que eles significam em algumas crenças.
— Legal! — me animei. — Sou a Dulce. — estendi a mão para ele.
— Christian. — ele apertou minha mão com firmeza.
— E o que sabe sobre a turmalina n***a?
— Sei que é um cristal usado para proteção, para afastar energias e pessoas negativas. Surgem principalmente de forma magmática, com a fusão de alguns tipos específicos de metais derretidos.
— Eu adoraria saber mais sobre a origem de alguns cristais. — enlacei meu braço ao dele e ele me olhou com curiosidade, porque é claro que ele não estava esperando que uma estranha agisse assim. — Por favor, me diga que tem tempo para uma mulher bem doida.
— Bom, eu posso procurar um apartamento depois. — riu.
— Está procurando apartamento?
— Acabei de mudar para a cidade. Vou trabalhar no museu de história natural.
Não segurei o meu sorriso enorme com a grande ideia que tive.
— Você gosta de azul? — perguntei.
— É minha cor preferida.