11 - chá da tarde

2620 Words
Christopher Von Uckermann Receber Alfonso era sempre muito bom. Nós somos melhores amigos desde sempre e ele era uma das poucas pessoas fora da minha família em quem eu confiava cegamente. O único problema era quando ele e minha irmã ficavam no mesmo ambiente. Ele não se controlava quando queria dar em cima dela e ela, por sua vez, vivia irritada com a presença dele.  — Anahi, você fica linda sob a luz do sol. — Alfonso disse entrando na cozinha enquanto eu, Annie e Amber estávamos preparando o almoço.  — Ontem à noite você disse que eu ficava linda sob a luz da lua. — ela revirou os olhos.  — É divina sob qualquer luz. — ele retrucou.  — Então me lembre de sempre procurar uma sombra. — ela saiu batendo o pé.  — Uma hora você consegue, tio Poncho. — Amber riu.  — Sua tia é sempre um doce, não? — ele sorriu e começou a ajudar Amber a cortar os legumes. — Nunca vejo vocês cozinhando juntos, ocasião especial?  — Bem, você está aqui e é sábado. Como eu estou livre, achei que podíamos fazer algo diferente. — expliquei sem desviar minha atenção da panela.  — A gente podia ter convidado a Dulce para almoçar, daí ela aproveitava e já ficava para me dar aula. — Amber falou.  — Eu já disse que não. — eu disse. — Não sei se irei redigir um contrato, temos que ter algumas aulas testes antes de torná-la uma funcionária oficial. Se a convidássemos para almoçar, ela se sentiria em casa e essa ainda não é a intenção.  — Não liga, seu pai sempre é exigente demais, só sabe ser chato. — Alfonso sussurrou alto em tom de brincadeira, fazendo Amber rir. — E essa Dulce é bonita?  — Ela é maravilhosa! — Amber respondeu.  — Bom, se ela fizer o meu tipo...  — Fique longe dela. — o olhei seriamente.  — Então eu não posso ser gentil com ela? — franziu a testa.  — Não pode dar em cima dela, Alfonso. — só pensar nisso já me dava nos nervos, o que era totalmente inapropriado. — Não seja inconveniente, ela vai estar aqui para trabalhar, não quero que a incomode.  — Estou aqui para trabalhar também e um romance seria perfeito para me inspirar. — eu sabia que ele estava apenas brincando, mas eu não queria pensar nele colocando as mãos em Dulce. Isso não deveria importar, eu queria só ignorar, mas agora todos os meus sentidos estavam em alerta.  — Fique. Longe. Dela. — fiquei ainda mais sério.  — Uou, está bem, sem estresse. — ergueu as mãos em rendição.  Almoçamos todos juntos na nossa paz de sempre. Alfonso conseguiu comparar todas as frutas da mesa com a minha irmã. Eu tinha que admitir que ele era bastante criativo quando tentava flertar com alguém e isso o tornava um escritor de romances muito talentoso.  Depois do almoço, eu decidi que passaria o resto da tarde em meu escritório. Não queria correr o risco de esbarrar com Dulce por aí. O único motivo de ter oferecido aquele emprego era pela Amber. Eu ainda tinha que manter distância, por mais que ela estivesse a poucos metros de mim.  Eu não tinha controle dos meus pensamentos quando ela estava perto e ficava difícil ser ao menos gentil com ela. Ser rude a faria ficar longe e me lembraria do que ela representa. Eu não tinha o direito de me aproximar de outra mulher, pelo menos não movido pela forma como Dulce me atraía. Nunca mereci um final feliz e ter falhado na primeira tentativa foi dor o suficiente para uma vida inteira.  Além de tudo, Dulce era muito diferente de mim, não que Darla não fosse, mas essa professora de artes era totalmente fora da caixinha, o tipo de mulher que a gente não espera encontrar por aí. E isso tornava as coisas ainda mais difíceis. Talvez se ela fosse um pouco mais comum eu não ficasse tão curioso sobre ela, tão tentado a observá-la e ouvi-la falar sobre si mesma.  Ouvi a campainha tocar e me mantive onde estava, concentrando-me nos documentos nos quais trabalhava. O escritório ficava a poucos metros de onde ela ensinaria piano para a Amber. Eu ouviria a música, ouviria as conversas, ouviria a voz dela. Talvez isso fosse tortura, mas eu merecia sofrer um pouco ouvindo aquela voz macia sem poder me aproximar.  — Meu Deus, que piano lindo! — ouvi ela exclamar. — O seu pai gosta mesmo de jogar dinheiro fora. — riu.  Porra, por que ela tinha que rir? E se eu a proibisse de rir ali dentro? Não, não, isso seria doentio.  — Ele gosta de comprar sempre o melhor para mim. — Amber explicou.  — E... onde está o seu pai? — minhas mãos ficaram tensas quando ela me mencionou.  — Ele está trabalhando, pediu para não ser incomodado. Não se preocupe, vamos ser só nós.  — Ah, tudo bem. — identifiquei um leve desapontamento em sua voz. Ela queria me ver?  — Então essa é a professora maravilhosamente linda? — ouvi a voz galanteadora de Alfonso e respirei fundo dizendo a mim mesmo para continuar dentro do escritório.  — Ai, meu Deus! — Dulce exclamou. Com certeza ela era uma fã. — Muito prazer, eu sou a...  — Dulce. — eu podia visualizar ele beijando a mão dela agora. — Que olhos marcantes você tem, parece que foram desenhados pessoalmente pelas mãos de alguma divindade.  — Oh! Obrigada. — ela riu. — Eu não quero ser inconveniente, mas você poderia assinar o meu livro?  — Será um prazer! — um breve silêncio se formou lá fora até Alfonso começar a recitar o que escrevia. — Para a dona dos olhos mais lindos que eu já vi na vida. Com amor, Alfonso Herrera.  — Muito obrigada mesmo! Eu amo as suas obras, a sensibilidade que você tem é impressionante. Poucos homens conseguem abrir tanto assim o coração.  — Acho que agora eu encontrei a minha alma gêmea. — chega! Aquilo era demais.  Levantei e fui até a porta do escritório, depois abri e olhei seriamente na direção de Alfonso. Eu não queria encarar Dulce.  — Alfonso, já disse para não incomoda-la enquanto ela trabalha. — fui firme.  — Tudo bem, não está me incomodando. Eu queria mesmo conhecê-lo. — c****e! Por que ela tinha que ser sempre gentil?  — Eu prefiro que você não perca tempo conversando com meu hóspede. — agora eu olhei para ela e depois que eu disse isso, ela apertou a alça de sua bolsa e mordeu o lábio inferior como se estivesse tensa.  — Não seja grosso com a garota. — Alfonso falou e dessa vez ele parecia mais sério. — Eu vou deixá-la em paz agora, ok? Foi um prazer, Dulce. — piscou para ela antes de sair.  Fechei a porta do escritório e voltei para a minha mesa antes que Dulce tivesse a chance de me dizer qualquer coisa. Era só manter distância, não deveria ser tão difícil ficar longe dela.  [•••] Dulce Maria Depois de convidar Christian para almoçar e lhe oferecer o quarto vago em meu apartamento, eu passei o meu contato para que ele me ligasse no dia seguinte. Ele era um homem muito inteligente e ficou bastante curioso sobre mim e minha filosofia de vida. Com toda certeza ele me achou doida, mas agiu como se isso fosse algo ótimo. Conversamos sobre antigas religiões, cristais, rituais antigos e todo o conhecimento em comum que tínhamos.  E tudo bem que ele não acreditasse que as pessoas carregassem energias consigo ou nada do tipo, só o fato de ele conhecer o meu mundo e respeitá-lo apesar da descrença me fez querer que ele fosse meu amigo o mais rápido possível. O universo estava começando a me dar ótimos frutos. Eu fiquei encantada com cada detalhe da mansão Uckermann e não parei de arfar a cada passo que eu dava dentro da propriedade. O lugar era enorme e eu adoraria fazer uma tour por cada cômodo se não tivesse certeza de que o dono detestaria que eu saísse andando por aí em sua casa.  Fui recebida por Amber que me levou até uma segunda sala de estar onde se encontrava o seu piano da melhor qualidade possível. E eu não imaginei que conheceria Alfonso logo de cara, mas adorei tê-lo visto sem Christopher por perto, assim eu não teria que ficar nervosa sobre o que fazer ou falar.  Mas eu fui pega de surpresa quando a porta do escritório ao lado abriu e ele apareceu. Ele estava ali o tempo inteiro e ouvia tudo o que conversávamos. E ele foi bem rude, algo que eu já esperava que fizesse. Será que ele tinha algum problema comigo ou era assim o dia inteiro? Ele devia ser assim, afinal, o homem m*l me conhecia, então não tinha nenhum motivo para dedicar sua vida a desprezar apenas a mim. — Muito bem, vamos começar. — peguei algumas partituras que havia preparado especialmente para ela e comecei as explicações.  Assim como nas aulas, Amber prestava total atenção e aprendia muito rápido. Não demorou até ela conseguir decorar a primeira parte de uma das partituras.  Eu tentei ser o mais profissional e concentrada possível, mesmo com a minha mente lembrando a mim mesma que no escritório ao lado Christopher ouvia tudo. Será que ele estava trabalhando ali justo para me vigiar? Do jeito que era, eu não duvidava nada disso.  — Daqui a alguns dias vai ser você a me ensinar. — brinquei.  — Ah, já foram as duas horas. — lamentou. — Passou tão rápido!  — O tempo passa rápido quando nos divertimos. — sorri. — Você foi ótima hoje, Amber.  — Quer comer alguma coisa? Tomar um chá? — segurou meu braço. — Por favor, não vá embora agora.  — Mas... — olhei para a porta do escritório.  — O que? Seu expediente já acabou, agora eu estou te convidando para um chá.  — Não quero incomodar. — e não queria receber um sermão gratuito. — Você nunca incomoda. — isso não era bem verdade. — Vem. Tia Annie já deve estar terminando de preparar o chá.  Antes que eu pudesse protestar, ela agarrou firme o meu braço e me levou pelos corredores até a cozinha. Uma cozinha que me fez esquecer que eu não deveria estar ali. Olhei em volta boquiaberta, analisando todo o design da cozinha planejada que mais parecia ter sido tirada de um filme. Tudo naquela casa era tão exageradamente grande e luxuoso!  — Você deve ser a Dulce! — a voz da mulher com quem eu falei ao telefone pela manhã tirou minha atenção do ambiente direto para ela.  — E a senhorita deve ser a Anahi. — estendi minha mão e ela me cumprimentou com um belo sorriso no rosto. A beleza dela era de tirar o fôlego, tinha que admitir.  — Sem formalidades, sou apenas a Annie. — pois é, totalmente diferente de seu irmão. — Espero que goste de chá de alecrim.  — Por isso vocês são tão ricos. — falei meio que por impulso depois que ela citou a erva que usou para o chá.  — O que? — pareceu confusa.  — Ah... é que... — agora que começou, termina, minha filha! — Alecrim atrai dinheiro.  — Ah! — ela riu. — Curioso. É uma das minhas ervas favoritas, mas eu confesso que tenho um estranho gosto por hibisco.  — E é por isso que você é tão bonita. — sentei-me ao lado dela e me servi do chá em uma xícara de porcelana que eu teria que ter cuidado para não quebrar. Deveria custar mais que a minha picape.  — Eu adorei ela! — Anahi riu.  — Agora ela vai te fazer ficar para o chá da tarde todos os sábados. — Amber disse animada.  — Mas tem que me dizer qual erva afasta homens duvidosamente românticos. — Annie disse.  — Fácil, não precisa de uma erva. — tirei meu saquinho do casaco e entreguei uma das minhas turmalinas negras para ela. — Afasta qualquer pessoa negativa.  — Perfeito! Acho que daria um ótimo colar, não acha, Amber? — Sim, é muito bonito.  — Espero que goste do chá. — Anahi observou enquanto eu levava a xícara até minha boca dando um bom gole.  — Hum... — sorri em aprovação. — Namastê.  — Isso quer dizer que está muito bom. — Amber disse para a tia.  — Excelente! — riu. — Adorei. Namastê. — ergueu sua xícara para um brinde.  Nós tomamos chá e conversamos durante um bom tempo, tanto que nem notei o dia começando a ir embora. Tive que me despedir das duas e avisei que não precisavam me acompanhar até a saída. Eu tinha que me apressar pois já estava anoitecendo e eu prometi preparar o jantar naquela noite.  Quando passava sozinha pelo corredor, vi um porta retratos que me chamou a atenção. Nele estavam Christopher, uma mulher que eu deduzi ser a sua falecida esposa e um bebê que ela levava no braços, esta era a Amber. A mulher era belíssima, tinha longos cabelos loiros e olhos azuis que pareciam brilhar. O sorriso dela também era encantador.  Mas o que mais me chamou atenção era que Christopher estava sorrindo naquela foto. Eu nunca o vi sorrir antes e caramba, só por foto aquele sorriso fez o meu coração querer saltar do peito. Ele era ainda mais lindo com o rosto coberto de felicidade.  Peguei a foto para observá-lo mais de perto. Ele estava mais jovem na foto, mas o tempo não lhe tirou a beleza, só a acentuou ainda mais. Ele nem parecia um homem frio naquela foto. A morte de sua esposa deveria ser o motivo pelo qual ele se tornou tão rude.  — O que está fazendo? — me assustei com a voz  grave atrás de mim e coloquei a foto de volta no lugar rapidamente, tomando cuidado para não derrubar.  — É... eu só estava... estava indo embora. — virei-me de frente para ele e tentei não parecer nervosa.  — Deveria ter ido embora há três horas atrás. — conferiu no seu relógio.  — A Amber me convidou para o chá da tarde, espero que isso não seja um problema.  — O problema é você ficar bisbilhotando por aí.  — Desculpe. — desviei o olhar. Eu não queria ele me olhando desse jeito. — Não vai se repetir.  — Assim espero. Já é quase hora do jantar, melhor você ir embora. — caramba, só falta me expulsar a pontapés!  — Tem razão. — apressei meu passo em direção à saída e ouvi ele andando atrás de mim. Talvez estivesse me acompanhado para ter certeza de que eu não iria mexer em mais nada.  Atravessei as portas da frente e caminhei até a minha picape enquanto ele se mantinha em pé na frente da mansão olhando diretamente para mim, com sua testa levemente franzida, os olhos acompanhando cada passo meu. Ele olhou a minha picape de cabo a r**o e eu me incomodei com isso. Queria gritar com ele e dizer que não, eu não tinha dinheiro para um carro do ano, mas que mesmo assim ele não deveria olhar o meu veículo como uma lata velha, não que ele não fosse, mas era o que estava ao meu alcance.  Era estranho um homem me fazer ter vontade de gritar com ele e ao mesmo tempo, ficar quieta em sua presença. Na verdade eu quase nunca queria gritar com ninguém, mas ele me irritava o tanto quanto me deixava nervosa. Só fiquei tranquila quando finalmente saí da propriedade bem para longe daquele olhar que me estremecia.
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