Dulce Maria
Chegando em casa, eu contei para Maite sobre Christian e ela me questionou se seria uma boa ideia deixar um cara morar com a gente, já que a ideia inicial era aceitar uma mulher. Consegui convencê-la e enfim ela cedeu e depois quis saber tudo sobre a mansão Uckermann.
— A gente mora em uma gaiola de hamster se for para usar uma comparação digna. — falei.
— Conheceu a casa?
— Claro que não. Eu toquei em um porta retratos e o Christopher só faltou me expulsar de lá pelos cabelos.
— Acha que vai dar certo ter ele como chefe? O cara não é muito legal.
— Eu não trabalho com ele, trabalho com a Amber. Só o vi duas vezes hoje e bem brevemente.
— Pelo menos ele está pagando muito bem.
— Não esperava que fosse ter uma renda tão boa morando aqui. — falei contente. — Enfim, os frutos!
— Você quer sair comigo e com o Derick hoje? Eu deixo você pagar a conta.
— Engraçadinha. — forcei uma risada. — Eu estou bem cansada, fiquei na rua o dia inteiro. Além disso, não estou com vontade de queimar vela.
— Você quis dizer segurar.
— Você quis dizer queimar.
— Cresceu em uma cidade do interior?
— Sim, nós... — parei de falar quando Maite ergueu as sobrancelhas por eu ter dito algo sobre o meu passado.
— Em que cidade?
— Você não tem que se arrumar para o seu encontro? — fui andando em direção ao meu quarto.
— Quando você vai confiar em mim? — parei de andar e me virei para encara-la.
— Você sabe que não é sobre confiança. — fiquei séria. — Eu só não quero lembrar dessa parte da minha vida. A minha vida é essa agora bem aqui com você, e eu estou muito feliz assim.
— Isso não apaga as suas origens, Dulce. Por mais mudanças que faça, por mais moradias que tenha, você não pode ignorar de onde veio.
— Eu fiz coisas, May. Coisas das quais talvez eu me arrependa ou talvez não. Se eu parar para lembrar o que aconteceu, eu posso acabar me sentindo culpada. Eu não quero lidar com isso depois de tanto tempo, porque a minha culpa não vai mudar nada. Me sinto mais confortável ignorando. — Maite apenas assentiu e me lançou um sorriso triste.
Fiquei em meu quarto pelo restante da noite e tentei dormir, mas por mais cansada que estivesse, simplesmente não conseguia pegar no sono. Levantei da minha cama no meio da madrugada e mexi em minhas coisas. Resolvi acender alguns incensos e meditar um pouco na sala ao som de um mantra.
Aquilo me ajudou a relaxar um pouco e eu decidi fazer uma leitura após acender algumas velas aromatizantes. Acabei pegando no sono ali mesmo no sofá e só acordei quando comecei a sentir um cheiro horrível de fumaça.
Abri os olhos e comecei a tossir enquanto tentava afastar a fumaça do meu rosto com as mãos. A cortina da sala estava em chamas graças às velas que eu esqueci acesas. Entrei em pânico no mesmo instante e saí correndo até a cozinha para pegar água. Eu ainda não havia feito o seguro do apartamento, então era bom que só as cortinas estivessem pegando fogo.
A minha tentativa de apagar o fogo jogando água não adiantou de nada. Meus olhos lacrimejavam e a minha garganta não parava de arder sempre que eu tentava respirar.
— p**a que pariu! — ouvi Maite gritar quando a porta da frente foi aberta.
— Dulce, sai daí! — Derick me afastou do fogo, depois correu até o banheiro e voltou com uma toalha encharcada.
Ele conseguiu derrubar as cortinas no chão e depois jogou a toalha molhada por cima, fazendo o fogo ser apagado. May veio até mim e me levou até a varanda para respirar ar puro.
— Você está bem? — perguntou preocupada.
— Sim, só inalei muita fumaça.
— Como isso aconteceu?
— Eu esqueci algumas velas acesas.
— Por que acendeu velas? A luz do prédio acabou?
— Eram velas aromatizantes, eu acabei dormindo antes de me lembrar de apagá-las.
— Eu disse que um dia você colocaria fogo na casa. — ela me abraçou. — E se eu não tivesse chegado, sua doida?
— Mas chegou. Eu estou bem.
— No final, você acabou queimando vela. — rimos.
Voltamos para a sala e começamos a limpar o estrago. A parede estava chamuscada e os vidros das janelas ficaram rachados, correndo o risco de se quebrarem a qualquer momento. Teríamos que gastar com a troca deles o mais rápido possível e isso iria apertar o nosso bolso, pelo menos até recebermos no final do mês.
Depois daquele susto, a única coisa que eu queria fazer era dormir o domingo inteiro, mas teria que receber Christian pela manhã. Ele estava pronto para se mudar e queria se apressar para não ter que pagar outra noite de estadia no hotel.
Para me manter acordada, eu fiz um café bem forte e me alimentei muito bem. Ele foi bem pontual e chegou assim que o relógio marcou nove da manhã em ponto.
— O que aconteceu? — ele perguntou olhando a parede atingida pelo fogo.
— Dulce teve um pequeno acidente. — May explicou. — Não se preocupe, vamos mandar pintar e trocaremos os vidros danificados em breve.
— O importante é que ninguém se machucou. — sorriu gentilmente.
— O seu quarto fica por aqui. — eu disse e os dois me seguiram até o quarto vago. — O apartamento já veio mobiliado quando nós compramos, mas você pode trocar os móveis se quiser algo que tenha mais a sua cara.
— Está perfeito. — de sua bolsa tiracolo ele retirou um crânio minúsculo que parecia ser de um animal selvagem. — Acho que a minha decoração vai ficar ótima.
— O que é isso? — Maite perguntou.
— É a réplica de um fóssil de dinossauro.
— Você é tipo o Ross de friends? — May estava agindo na defensiva como sempre fazia com as pessoas novas.
— Bom, eu moro em Manhattan, trabalho num museu e tenho uma enorme coleção de réplicas de fósseis. Só falta ser paleontólogo. — Christian foi bem encantador e não levou para o lado pessoal o tom grosseiro usado por May.
— Pelo menos seus brinquedos não fedem e eu tenho certeza que você não vai querer enfiar isso nos nossos bolsos.
— Acho que isso é sobre você. — ele olhou para mim.
— É mais sobre ela. — dei de ombros.
— Você se veste como o Indiana Jones. — ela disse depois de olhá-lo de cima a baixo. Estava disposta mesmo a ofendê-lo.
— Obrigado? — ele riu e Maite sorriu de canto em resposta.
— Eu vou deixar você se instalar. — falei indo até a porta. — Talvez a Maite queira ajudar. — brinquei ao ver que ela não me acompanhou e continuou olhando para ele. — Derick que lute. — murmurei para mim mesma quando voltei para a sala.
Nós três conversamos bastante depois que Christian arrumou suas coisas no quarto. Ele era bem interessante, nos falou muito sobre o museu, coisas que ele estudava e suas recentes pesquisas que estava realizando para escrever um livro. Maite pareceu ainda mais interessada do que eu e o fato de ela ser professora de Geografia fez os dois terem muito o que debater.
Deixei de fazer parte daquela conversa me tornando apenas uma ouvinte e resolvi me despedir deles para tirar o cochilo que tanto desejei na noite anterior. Acabei dormindo o resto do dia e à noite não preguei o olho, mas aproveitei para preparar os próximos três dias de aula daquela semana.
[•••]
Terminada a minha aula com o primeiro ano, eu liguei para a vidraçaria para combinar o orçamento das janelas que estavam prestes a cair sobre nossas cabeças. Foi bem estressante ter que negociar a visita domiciliar e o valor do material com a melhor qualidade. Levando em conta que as janelas eram enormes, aquilo sairia bem salgado.
— Dulce? Tudo bem? — Bela começou a me acompanhar pelo corredor depois que eu passei bufando perto dela. — Parece irritada.
— Ontem eu quase coloquei fogo no apartamento e esqueci de fazer um seguro, então vou ter que gastar uma fortuna para reparar o estrago. — expliquei. — Não tem que ouvir essas coisas chatas, querida, é problema de adulto.
— É difícil imaginar você tendo que resolver um problema de adulto. — sorriu.
— Eu concordo. Não tenho a mínima paciência.
— Como conseguiu essa proeza?
— Eu acendi algumas velas e acabei esquecendo de apagar.
— Pense pelo lado bom, você não teve um arranhão.
— Mas a minha vidraça não pode dizer o mesmo. — ela riu e eu naturalmente me senti mais calma. Adorava a energia dela.
— Boa sorte com isso, pense positivo. — ela beijou minha bochecha e entrou em uma das salas do corredor para sua próxima aula.
— Vamos lá, universo, estou tentando ser positiva. — eu disse continuando a andar.
Quando eu e Maite chegamos em casa, encontramos a sala parecida com uma cena de crime. Christian estava isolando uma área com fita amarela bem em frente às janelas rachadas.
— Mas... que? — Maite franziu a testa totalmente confusa. — O que é tudo isso?
— Bom, vocês não têm um seguro do imóvel, então podem ter adiado um plano de saúde também. — por mais que isso parecesse absurdamente hilário, ele falava sério.
— Acha mesmo que não temos plano de saúde? — May o olhou com tédio.
— Eu desconfiaria da Dulce. — os dois olharam para mim.
— O que? Eu tenho plano desde os quinze!
— Viu?
— Mesmo assim. — ele tornou a se virar para as janelas. — Eu fiz uma equação básica e consegui prever onde cada um desses caquinhos cairia caso a pressão fizesse o vidro romper, o que ocasionalmente irá acontecer se isso não for trocado logo. Essa aérea que eu demarquei seria atingida, então eu a isolei para ninguém se machucar.
— Fez cálculos depois de trabalhar o dia todo? — arqueei as sobrancelhas. — Eu só penso em relaxar.
— Eu relaxo fazendo contas e aproveito para salvar as nossas vidas enquanto isso.
— Pelo menos você é um doido consciente. — Maite largou sua bolsa no sofá e foi andando até a cozinha.
— Você já feriu alguém com as suas palavras? — Christian perguntou um pouco mais alto para que ela ouvisse.
— Já e foi ótimo! — ela gritou lá de dentro. — De quem é essa torta?
— Não coma a minha torta! — dei risada quando Christian correu desesperado até a cozinha.
O interfone tocou e eu imaginei que fosse algum outro vizinho reclamando que nós espalhamos cinzas por todo o prédio, então eu apenas ignorei. Alguns minutos depois, a campainha da porta tocou, o que foi estranho.
Assim que eu atendi, meu corpo travou completamente e um sinal de interrogação pairou sobre mim.
— Christopher? Digo, senhor Von Uckermann?
— Você está bem? Por que não atendeu o interfone? — ele chegou perto demais para me analisar e eu dei um passo para trás o olhando confusa.
— Porque... Eu... Ora, por que você estava tocando o interfone?
— É isso que se faz quando se quer ir até o apartamento de alguém. — destacou o óbvio.
— Eu não atendi, então como o porteiro deixou você subir?
— Todo mundo tem um preço.
— Vou me lembrar de reclamar disso no sindicato de moradores! — falei com indignação.
— Você ferrou mesmo com a sua casa. — ele ignorou o que eu disse e entrou no apartamento sem ao menos eu convida-lo.
Fechei a porta e observei enquanto ele analisava o estrago com suas mãos enfiadas nos bolsos de sua jaqueta, mantendo um semblante sério e pensativo.
— Confesso que quando a Bela e a Amber me contaram do acontecido eu imaginei que tivesse sido pior. Mas mesmo assim, você precisa ter um seguro, poderia ter perdido o lugar, ou poderia ter morrido.
— Credo! — ele virou-se para olhar para mim. — Ainda não entendi o que está fazendo aqui. — eu não queria parecer grossa, mas não deu para fazer a frase sair de outra maneira. Ele praticamente invadiu a minha casa e nós nem podíamos dizer que nos dávamos bem.
— Sei como essas coisas podem sair caro. — ele tirou um envelope bem gordo de dentro da sua jaqueta e me ofereceu.
— O que é isso? — peguei o envelope com um pouco de desconfiança e observei o brasão da família Von Uckermann gravado nele.
— Seu salário deste mês.
— Mas o mês não acabou e eu ainda nem assinei um contrato! — fiquei boquiaberta. — Você não pode...
— Eu posso fazer o que eu quiser. — aquilo me calou. — Arrume as janelas antes que machuquem alguém, faça um seguro para o apartamento e se possível, dê uma entrada em um carro novo. Aquela picape não é segura. Coloquei um pouco mais do que o salário combinado para que você possa fazer tudo isso.
— Eu não posso aceitar.
— Pode, porque isso não vai me fazer falta e você precisa. Não é questão de capricho, é uma necessidade básica.
— Por que está fazendo isso? — eu não entendia toda aquela situação e nada do que eu pudesse pensar explicaria aquela decisão vinda dele.
Christopher caminhou até mim sem parar de me olhar e eu engoli em seco sentindo os meus músculos ficarem tensos à medida que ele chegava mais perto. Ele parou bem em minha frente e abaixou seu rosto para próximo do meu como se fosse me contar um segredo.
— Porque eu quero. — seu sussurro saiu grave e eu suspirei involuntariamente ao ser tomada por um arrepio. Ele afastou apenas seu rosto, mas manteve o corpo perto do meu. — Vai haver uma festa em minha casa na sexta. É uma reunião familiar onde também convidamos alguns amigos próximos. Amber iria gostar que você fosse.
— Eu tenho certeza que eu não combino em nada com lugares assim. — sorri sem jeito.
— Eu também não. — não evitei de olhá-lo de cima a baixo. Apesar de ser um empreendedor, Christopher se vestia como um motoqueiro. — Começa às seis. Não se atrase. — ele passou por mim e foi até a porta. — Eu disse que você deveria ser menos desastrada. — e não seria o Christopher se ele não terminasse com uma grosseria.
— Obrigada. — falei me referindo ao dinheiro.
Ele acenou positivamente e depois saiu pela porta. Fiquei parada ainda olhando naquela direção, segurando o envelope em mãos e sentindo meu coração palpitar cada vez mais rápido em meu peito.
— Sabe, universo, quando eu pedi ajuda, eu não imaginei que você fosse ser tão radical. — ri comigo mesma. — O que p***a acabou de acontecer?