12 - queimar vela

2529 Words
Dulce Maria  Chegando em casa, eu contei para Maite sobre Christian e ela me questionou se seria uma boa ideia deixar um cara morar com a gente, já que a ideia inicial era aceitar uma mulher. Consegui convencê-la e enfim ela cedeu e depois quis saber tudo sobre a mansão Uckermann.  — A gente mora em uma gaiola de hamster se for para usar uma comparação digna. — falei.  — Conheceu a casa?  — Claro que não. Eu toquei em um porta retratos e o Christopher só faltou me expulsar de lá pelos cabelos.  — Acha que vai dar certo ter ele como chefe? O cara não é muito legal. — Eu não trabalho com ele, trabalho com a Amber. Só o vi duas vezes hoje e bem brevemente. — Pelo menos ele está pagando muito bem.  — Não esperava que fosse ter uma renda tão boa morando aqui. — falei contente. — Enfim, os frutos! — Você quer sair comigo e com o Derick hoje? Eu deixo você pagar a conta.  — Engraçadinha. — forcei uma risada. — Eu estou bem cansada, fiquei na rua o dia inteiro. Além disso, não estou com vontade de queimar vela.  — Você quis dizer segurar.  — Você quis dizer queimar.  — Cresceu em uma cidade do interior?  — Sim, nós... — parei de falar quando Maite ergueu as sobrancelhas por eu ter dito algo sobre o meu passado.  — Em que cidade?  — Você não tem que se arrumar para o seu encontro? — fui andando em direção ao meu quarto.  — Quando você vai confiar em mim? — parei de andar e me virei para encara-la.  — Você sabe que não é sobre confiança. — fiquei séria. — Eu só não quero lembrar dessa parte da minha vida. A minha vida é essa agora bem aqui com você, e eu estou muito feliz assim.  — Isso não apaga as suas origens, Dulce. Por mais mudanças que faça, por mais moradias que tenha, você não pode ignorar de onde veio.  — Eu fiz coisas, May. Coisas das quais talvez eu me arrependa ou talvez não. Se eu parar para lembrar o que aconteceu, eu posso acabar me sentindo culpada. Eu não quero lidar com isso depois de tanto tempo, porque a minha culpa não vai mudar nada. Me sinto mais confortável ignorando. — Maite apenas assentiu e me lançou um sorriso triste.  Fiquei em meu quarto pelo restante da noite e tentei dormir, mas por mais cansada que estivesse, simplesmente não conseguia pegar no sono. Levantei da minha cama no meio da madrugada e mexi em minhas coisas. Resolvi acender alguns incensos e meditar um pouco na sala ao som de um mantra.  Aquilo me ajudou a relaxar um pouco e eu decidi fazer uma leitura após acender algumas velas aromatizantes. Acabei pegando no sono ali mesmo no sofá e só acordei quando comecei a sentir um cheiro horrível de fumaça.  Abri os olhos e comecei a tossir enquanto tentava afastar a fumaça do meu rosto com as mãos. A cortina da sala estava em chamas graças às velas que eu esqueci acesas. Entrei em pânico no mesmo instante e saí correndo até a cozinha para pegar água. Eu ainda não havia feito o seguro do apartamento, então era bom que só as cortinas estivessem pegando fogo.  A minha tentativa de apagar o fogo jogando água não adiantou de nada. Meus olhos lacrimejavam e a minha garganta não parava de arder sempre que eu tentava respirar.  — p**a que pariu! — ouvi Maite gritar quando a porta da frente foi aberta.  — Dulce, sai daí! — Derick me afastou do fogo, depois correu até o banheiro e voltou com uma toalha encharcada.  Ele conseguiu derrubar as cortinas no chão e depois jogou a toalha molhada por cima, fazendo o fogo ser apagado. May veio até mim e me levou até a varanda para respirar ar puro.  — Você está bem? — perguntou preocupada.  — Sim, só inalei muita fumaça.  — Como isso aconteceu?  — Eu esqueci algumas velas acesas.  — Por que acendeu velas? A luz do prédio acabou?  — Eram velas aromatizantes, eu acabei dormindo antes de me lembrar de apagá-las.  — Eu disse que um dia você colocaria fogo na casa. — ela me abraçou. — E se eu não tivesse chegado, sua doida?  — Mas chegou. Eu estou bem.  — No final, você acabou queimando vela. — rimos.  Voltamos para a sala e começamos a limpar o estrago. A parede estava chamuscada e os vidros das janelas ficaram rachados, correndo o risco de se quebrarem a qualquer momento. Teríamos que gastar com a troca deles o mais rápido possível e isso iria apertar o nosso bolso, pelo menos até recebermos no final do mês.  Depois daquele susto, a única coisa que eu queria fazer era dormir o domingo inteiro, mas teria que receber Christian pela manhã. Ele estava pronto para se mudar e queria se apressar para não ter que pagar outra noite de estadia no hotel.  Para me manter acordada, eu fiz um café bem forte e me alimentei muito bem. Ele foi bem pontual e chegou assim que o relógio marcou nove da manhã em ponto.  — O que aconteceu? — ele perguntou olhando a parede atingida pelo fogo.  — Dulce teve um pequeno acidente. — May explicou. — Não se preocupe, vamos mandar pintar e trocaremos os vidros danificados em breve.  — O importante é que ninguém se machucou. — sorriu gentilmente.  — O seu quarto fica por aqui. — eu disse e os dois me seguiram até o quarto vago. — O apartamento já veio mobiliado quando nós compramos, mas você pode trocar os móveis se quiser algo que tenha mais a sua cara.  — Está perfeito. — de sua bolsa tiracolo ele retirou um crânio minúsculo que parecia ser de um animal selvagem. — Acho que a minha decoração vai ficar ótima.  — O que é isso? — Maite perguntou.  — É a réplica de um fóssil de dinossauro.  — Você é tipo o Ross de friends? — May estava agindo na defensiva como sempre fazia com as pessoas novas.  — Bom, eu moro em Manhattan, trabalho num museu e tenho uma enorme coleção de réplicas de fósseis. Só falta ser paleontólogo. — Christian foi bem encantador e não levou para o lado pessoal o tom grosseiro usado por May.  — Pelo menos seus brinquedos não fedem e eu tenho certeza que você não vai querer enfiar isso nos nossos bolsos.  — Acho que isso é sobre você. — ele olhou para mim.  — É mais sobre ela. — dei de ombros.  — Você se veste como o Indiana Jones. — ela disse depois de olhá-lo de cima a baixo. Estava disposta mesmo a ofendê-lo.  — Obrigado? — ele riu e Maite sorriu de canto em resposta.  — Eu vou deixar você se instalar. — falei indo até a porta. — Talvez a Maite queira ajudar. — brinquei ao ver que ela não me acompanhou e continuou olhando para ele. — Derick que lute. — murmurei para mim mesma quando voltei para a sala.  Nós três conversamos bastante depois que Christian arrumou suas coisas no quarto. Ele era bem interessante, nos falou muito sobre o museu, coisas que ele estudava e suas recentes pesquisas que estava realizando para escrever um livro. Maite pareceu ainda mais interessada do que eu e o fato de ela ser professora de Geografia fez os dois terem muito o que debater.  Deixei de fazer parte daquela conversa me tornando apenas uma ouvinte e resolvi me despedir deles para tirar o cochilo que tanto desejei na noite anterior. Acabei dormindo o resto do dia e à noite não preguei o olho, mas aproveitei para preparar os próximos três dias de aula daquela semana.  [•••] Terminada a minha aula com o primeiro ano, eu liguei para a vidraçaria para combinar o orçamento das janelas que estavam prestes a cair sobre nossas cabeças. Foi bem estressante ter que negociar a visita domiciliar e o valor do material com a melhor qualidade. Levando em conta que as janelas eram enormes, aquilo sairia bem salgado.  — Dulce? Tudo bem? — Bela começou a me acompanhar pelo corredor depois que eu passei bufando perto dela. — Parece irritada.  — Ontem eu quase coloquei fogo no apartamento e esqueci de fazer um seguro, então vou ter que gastar uma fortuna para reparar o estrago. — expliquei. — Não tem que ouvir essas coisas chatas, querida, é problema de adulto.  — É difícil imaginar você tendo que resolver um problema de adulto. — sorriu.  — Eu concordo. Não tenho a mínima paciência.  — Como conseguiu essa proeza? — Eu acendi algumas velas e acabei esquecendo de apagar.  — Pense pelo lado bom, você não teve um arranhão.  — Mas a minha vidraça não pode dizer o mesmo. — ela riu e eu naturalmente me senti mais calma. Adorava a energia dela.  — Boa sorte com isso, pense positivo. — ela beijou minha bochecha e entrou em uma das salas do corredor para sua próxima aula.  — Vamos lá, universo, estou tentando ser positiva. — eu disse continuando a andar.  Quando eu e Maite chegamos em casa, encontramos a sala parecida com uma cena de crime. Christian estava isolando uma área com fita amarela bem em frente às janelas rachadas.  — Mas... que? — Maite franziu a testa totalmente confusa. — O que é tudo isso?  — Bom, vocês não têm um seguro do imóvel, então podem ter adiado um plano de saúde também. — por mais que isso parecesse absurdamente hilário, ele falava sério.  — Acha mesmo que não temos plano de saúde? — May o olhou com tédio.  — Eu desconfiaria da Dulce. — os dois olharam para mim.  — O que? Eu tenho plano desde os quinze!  — Viu?  — Mesmo assim. — ele tornou a se virar para as janelas. — Eu fiz uma equação básica e consegui prever onde cada um desses caquinhos cairia caso a pressão fizesse o vidro romper, o que ocasionalmente irá acontecer se isso não for trocado logo. Essa aérea que eu demarquei seria atingida, então eu a isolei para ninguém se machucar.  — Fez cálculos depois de trabalhar o dia todo? — arqueei as sobrancelhas. — Eu só penso em relaxar.  — Eu relaxo fazendo contas e aproveito para salvar as nossas vidas enquanto isso.  — Pelo menos você é um doido consciente. — Maite largou sua bolsa no sofá e foi andando até a cozinha.  — Você já feriu alguém com as suas palavras? — Christian perguntou um pouco mais alto para que ela ouvisse.  — Já e foi ótimo! — ela gritou lá de dentro. — De quem é essa torta?  — Não coma a minha torta! — dei risada quando Christian correu desesperado até a cozinha.  O interfone tocou e eu imaginei que fosse algum outro vizinho reclamando que nós espalhamos cinzas por todo o prédio, então eu apenas ignorei. Alguns minutos depois, a campainha da porta tocou, o que foi estranho.  Assim que eu atendi, meu corpo travou completamente e um sinal de interrogação pairou sobre mim.  — Christopher? Digo, senhor Von Uckermann?  — Você está bem? Por que não atendeu o interfone? — ele chegou perto demais para me analisar e eu dei um passo para trás o olhando confusa.  — Porque... Eu... Ora, por que você estava tocando o interfone?  — É isso que se faz quando se quer ir até o apartamento de alguém. — destacou o óbvio.  — Eu não atendi, então como o porteiro deixou você subir?  — Todo mundo tem um preço.  — Vou me lembrar de reclamar disso no sindicato de moradores! — falei com indignação.  — Você ferrou mesmo com a sua casa. — ele ignorou o que eu disse e entrou no apartamento sem ao menos eu convida-lo.  Fechei a porta e observei enquanto ele analisava o estrago com suas mãos enfiadas nos bolsos de sua jaqueta, mantendo um semblante sério e pensativo.  — Confesso que quando a Bela e a Amber me contaram do acontecido eu imaginei que tivesse sido pior. Mas mesmo assim, você precisa ter um seguro, poderia ter perdido o lugar, ou poderia ter morrido.  — Credo! — ele virou-se para olhar para mim. — Ainda não entendi o que está fazendo aqui. — eu não queria parecer grossa, mas não deu para fazer a frase sair de outra maneira. Ele praticamente invadiu a minha casa e nós nem podíamos dizer que nos dávamos bem.  — Sei como essas coisas podem sair caro. — ele tirou um envelope bem gordo de dentro da sua jaqueta e me ofereceu.  — O que é isso? — peguei o envelope com um pouco de desconfiança e observei o brasão da família Von Uckermann gravado nele.  — Seu salário deste mês.  — Mas o mês não acabou e eu ainda nem assinei um contrato! — fiquei boquiaberta. — Você não pode... — Eu posso fazer o que eu quiser. — aquilo me calou. — Arrume as janelas antes que machuquem alguém, faça um seguro para o apartamento e se possível, dê uma entrada em um carro novo. Aquela picape não é segura. Coloquei um pouco mais do que o salário combinado para que você possa fazer tudo isso.  — Eu não posso aceitar.  — Pode, porque isso não vai me fazer falta e você precisa. Não é questão de capricho, é uma necessidade básica.  — Por que está fazendo isso? — eu não entendia toda aquela situação e nada do que eu pudesse pensar explicaria aquela decisão vinda dele.  Christopher caminhou até mim sem parar de me olhar e eu engoli em seco sentindo os meus músculos ficarem tensos à medida que ele chegava mais perto. Ele parou bem em minha frente e abaixou seu rosto para próximo do meu como se fosse me contar um segredo.  — Porque eu quero. — seu sussurro saiu grave e eu suspirei involuntariamente ao ser tomada por um arrepio. Ele afastou apenas seu rosto, mas manteve o corpo perto do meu. — Vai haver uma festa em minha casa na sexta. É uma reunião familiar onde também convidamos alguns amigos próximos. Amber iria gostar que você fosse.  — Eu tenho certeza que eu não combino em nada com lugares assim. — sorri sem jeito.  — Eu também não. — não evitei de olhá-lo de cima a baixo. Apesar de ser um empreendedor, Christopher se vestia como um motoqueiro. — Começa às seis. Não se atrase. — ele passou por mim e foi até a porta. — Eu disse que você deveria ser menos desastrada. — e não seria o Christopher se ele não terminasse com uma grosseria.  — Obrigada. — falei me referindo ao dinheiro.  Ele acenou positivamente e depois saiu pela porta. Fiquei parada ainda olhando naquela direção, segurando o envelope em mãos e sentindo meu coração palpitar cada vez mais rápido em meu peito.  — Sabe, universo, quando eu pedi ajuda, eu não imaginei que você fosse ser tão radical. — ri comigo mesma. — O que p***a acabou de acontecer? 
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD