Dulce Maria
Trocamos as janelas no dia seguinte e eu tratei de correr atrás de um seguro para o apartamento. Não podia mais correr o risco de perder o único imóvel que eu tinha. Eu e Maite conversamos sobre o carro novo e ela insistiu que iria querer pagar uma parte da entrada já que ela também usaria. E depois de tanta discussão, resolvemos fazer a manutenção da picape e deixar o carro novo para depois.
— Aquela coisa em que vocês andam está caindo aos pedaços. — Christian disse enquanto nós nos servíamos no café da manhã da sexta-feira. — Não pode estacionar a sua picape no meio dos carros chiques da mansão Von Uckermann.
— E o que sugere que eu faça? — perguntei.
— Pegue um metrô. Considerando o fluxo do trânsito de Nova York, principalmente numa sexta à noite, o metrô é muito mais prático do que um carro.
— Dulce detesta transporte público. — May explicou.
— Dulce, nós somos a classe média. Não tem essa de gostar ou não gostar.
— Tem muita gente, eu fico cansada em ter que sentir tantas energias ao mesmo tempo. É sufocante.
— Ponha os pés no chão e a cabeça no lugar. — ele era muito cético, eu entendia isso.
— Eu acho que a gente te deu i********e demais. — May disse.
— Você um pouco mais que eu. — sussurrei ao lado dela e levei uma cotovelada.
— O que disse? — Christian perguntou.
— Eu...
— Ela disse que vai alugar um carro. — May me interrompeu.
Christian sorriu sugestivamente intercalando o olhar entre nós duas. Ele era inteligente, percebia tudo o que acontecia.
À tarde, eu fui escolher o meu carro alugado e usei uma parte do dinheiro dado por Christopher para aquilo. É claro que eu iria aproveitar para dirigir um carro realmente bom pelo menos uma vez na vida. Não era super chique, mas era de se admirar.
Amber havia me dito que eu poderia vestir o que me deixasse mais confortável, não existia um traje específico para esses eventos. Mesmo assim, eu preferi ser um pouco mais ousada e escolhi um vestido preto que se colava ao meu corpo e ia até a metade das minhas coxas. Usei o único batom vermelho que tinha e fiz um delineado preto em meus olhos.
Em meu pescoço, eu coloquei um colar de turmalina n***a, algo para afastar as pessoas com energia pesada que pudessem estar por lá. O Cristal era preto e discreto, aparentando ser apenas um acessório comum que qualquer pessoa usaria.
Calcei meus saltos pretos que já estavam guardados há um tempo, digamos que desde que me casei há dois anos. Achei que nunca mais fosse usá-los, mas cá estava eu indo para um lugar no qual com certeza eu não me encaixava. A verdade era que eu não sabia ao certo o porquê de ter aceitado o convite, talvez eu estivesse agido com base na minha curiosidade.
Quando saí do quarto, Maite e Christian estavam vendo televisão na sala. Ele assobiou alto quando me viu e May abriu um largo sorriso ao me analisar de cima a baixo.
— Vai chamar muita atenção. — ela disse.
— Sério? Você acha que eu deveria vestir algo mais normal?
— Não! Você está um arraso! — ela me garantiu.
— Se arranjar algum rico que queira te bancar, não se esqueça que precisa de um carro novo. — Christian brincou.
— Não vou esquecer. — eu ri.
— Por favor, não tropece na frente dessas pessoas. — May olhou para meus sapatos com preocupação.
— Eu sei caminhar, Maite. — e com sorte, mais braços fortes me segurariam se eu trocasse as pernas. — Não vai sair com o Derick hoje?
— Não. — ela olhou de relance para Christian e deu um gole em sua xícara de chá.
— Ok. — eu ri. — Até mais tarde.
[•••]
Certo, ao menos o meu carro alugado parecia pertencer ao mundo daquelas pessoas. Comemorei ao encontrar uma vaga no enorme estacionamento da propriedade e comecei a caminhar em direção à mansão. Um homem muito bem vestido estava na entrada com uma prancheta em mãos. Ele ouvia os nomes das pessoas, procurava pelas folhas e depois permitia a entrada. De cada lado das portas, seguranças estavam a postos.
— Dulce Maria Saviñon. — falei temendo que meu nome não estivesse lá. Christopher poderia simplesmente ter decidido não me querer ali e dane-se o mico que eu pagaria.
— Ok, senhorita Saviñon, espero que divirta-se. — ele sorriu gentilmente para mim e deu espaço para eu entrar.
Caminhei pelo hall de entrada que estava devidamente arrumado e passei pela sala de estar direto para o enorme salão para onde notei que o maior fluxo de pessoas estava. Eu não sabia que eles tinham um salão de festas, mas não era nenhuma surpresa tendo em vista o tamanho daquela casa.
Antes de chegar ao salão, eu avistei Anahi e Alfonso conversando, mas ele parecia bem mais interessado que ela.
— Dulce! — ela abriu um largo sorriso e veio até mim. — Que bom que veio. — Annie pareceu surpresa em me ter ali. — As meninas vão adorar te ver. — ela segurou meu pulso e me puxou para dentro do salão.
— Oi, você! — Alfonso disse quando passamos por ele.
— Olá! — foi a única coisa que consegui dizer antes de Anahi me tirar do campo de visão dele por completo.
— Dulce! — ouvi duas vozes gritarem em uníssono.
Bela e Amber correram até mim e me abraçaram ao mesmo tempo. As abracei de volta mantendo um sorriso no rosto. E quando elas me soltaram, eu notei que Amber usava uma saia, diferente de todas as outras vezes em que a vi. Agora eu podia ver claramente a sua perna mecânica e só o fato de eu me mostrar surpresa em vê-la assim fez com que a menina corasse.
— Você está linda. — segurei seu rosto entre minhas mãos. — Deveria usar saias mais vezes. — ela suspirou tranquila.
— Eu costumo não me importar de usar aqui porque todo mundo que vem sabe sobre a minha perna.
— Eu já disse que ela deveria deixar as outras pessoas saberem. — Bela disse. — Não há nada de errado com você.
— Não vamos fazer isso ser sobre mim. — Amber segurou minhas mãos. — Olha só a Dulce, está tão diferente! Uma dama de preto!
— Tão normal, não é? — cochichei mais perto delas e elas riram.
— Amber, querida, alguns de nossos primos chegaram, você pode deixar a Dulce com a Bela por um instante? — Anahi pediu.
— Ok, eu já volto. — elas se despediram de nós e se afastaram.
— Primeiras impressões? — Bela perguntou olhando em volta.
— Bem... — o salão era grande, tinha um bar ali dentro, tinha mesmo um bar! Haviam muitos adultos e pouquíssimos jovens, provavelmente os filhos de algumas daquelas pessoas e só agora eu notei que muitos olhavam para mim, homens principalmente. — Nem parece que estamos em uma casa.
— É normal termos esses espaços para quando fazemos algo especial.
— E o que é especial hoje?
— O avô da Amber, Victor Von Uckermann, vai anunciar sua candidatura à prefeitura de Nova York, mas ninguém além da família sabe. Vai ser tipo uma surpresa.
— Ele está aqui?
— Vai chegar daqui a pouco. A minha mãe disse que o tio Christopher está bem incomodado com isso, porque se o pai dele for prefeito, as responsabilidades do banco vão todas cair em cima dele, já que é o sucessor.
— E ele não gosta do que faz?
— Com certeza não. É só um jeito do Victor deixar ele em paz.
— Como assim?
— Você sabe como esses ricos são. Querem sempre que os filhos sigam o negócio da família. Minha mãe quer que eu seja médica, mas eu serei atriz. — jogou os cabelos para trás.
Tornei a olhar em volta e senti que alguém me observava tão intensamente que o peso dessa tensão fez doer os meus ombros. Olhei para o bar e vi Christopher encostado ao balcão com os braços cruzados e me encarando com uma leve surpresa em sua face, seguida de uma pontada de irritação. Ele não queria que eu estivesse ali?
E não dava nem para dizer que não estava me olhando, pois ele fazia questão de se esquivar toda vez que alguma pessoa ocupava seu campo de visão. Ele estava me secando com o olhar e nem se preocupava em tentar disfarçar.
— A que nível as festas do Christopher estão chegando? — uma voz bastante desagradável exclamou atrás de mim.
— Mãe, por favor! — Bela encarou sua mãe com repreensão quando ela parou em minha frente.
— Onde comprou essa coisa? Num brechó? — olhou-me de cima a baixo com um sorrisinho debochado de canto.
— Na verdade, foi num shopping. — tentei parecer o mais pacífica possível. Não iria deixar que aquela mulher conseguisse me ver abalada.
— Não sei o que pensa que está fazendo aqui, mas você não se encaixa. Percebeu todos te olhando? Estão se perguntando o porquê de uma funcionária se achar no direito de entrar aqui de queixo erguido como se fosse igual a nós.
— Mãe... — Belinda colocou o dedo indicador sobre os lábios da filha.
— Essa é a sua professora preferida? Olha a pedra esquisita que ela está usando no pescoço! — riu.
Da minha visão periférica, eu notei Christopher caminhando até nós, esbarrando nas pessoas pelo caminho. Eu só queria sair correndo dali e me afastar de todos eles. Belinda tinha razão, estavam me olhando porque meu vestido era barato, eu não tinha a pose de uma mulher fina e não era tão bonita quanto elas. Aquele não era o meu lugar.
— Belinda. — Alfonso surgiu ao nosso lado e eu vi Christopher parar a alguns metros de distância, ainda nos observando. — Que tal parar de ser uma ogra com os convidados e vir dançar comigo? — seu tom foi sarcástico e a mão apoiada na cintura dela não era nada delicada.
— Claro. — ela forçou um sorriso. — Comporte-se, bonequinha. — ela apertou a bochecha de Bela e depois de me lançar um último olhar ameaçador, saiu acompanhada de Alfonso.
— Desculpa por isso, pelo amor de Deus, eu sinto muito! — Bela ia dizendo enquanto eu me afastava em direção à saída.
— Tudo bem, querida, a culpa não foi sua. — falei apressada quando notei que Christopher tornava a se aproximar.
— Onde você vai? — Bela franziu a testa.
— Só tomar um ar, está tudo bem.
Dei as costas para ela e caminhei para fora dali. Eu estava disposta a ir embora. Não queria falar com Christopher ou com nenhuma outra pessoa que pudesse me lembrar de que eu não me encaixava. No fundo, eu sabia que ir até ali era uma péssima ideia.
Na porta de entrada, eu avistei Anahi conversando com algumas pessoas e achei que não era uma boa ideia passar por ela apressada. Ela iria querer saber o que aconteceu e se Christopher ainda estava disposto a vir falar comigo, eu não queria lhe dar a chance de me alcançar. Minha única alternativa era o andar de cima, onde não havia ninguém.
— Só vou respirar um pouco e ir embora. — disse a mim mesma enquanto subia degrau por degrau.
A enorme escadaria dava para alguns corredores cheios de portas e com vários quadros de família nas paredes, além de arranjos de flores por todos os lados. O que eu fiz foi correr até a primeira varanda que avistei. Abri as portas de vidro e fui até a mureta, onde apoiei minhas mãos e respirei fundo. Lá embaixo, eu vi um jardim muito bonito que ficava na lateral da casa. Tudo era tranquilo e silencioso.
— O que está fazendo aqui? — tremi ao ouvir a voz dele atrás de mim. Ok, agora eu teria que ouvir seus resmungos sobre eu não poder subir sem sua autorização.
— Eu precisava respirar. — virei devagar para olhá-lo e notei que ele não estava com um semblante tão irritado quanto achei. Era mais como se estivesse preocupado.
— Eu não achei que você viria.
— Você me convidou. — falei um pouco irritada.
— Não achei que viria vestida assim. — ele ficou sério quando observou o meu vestido.
— Fala sério! — bufei. — Quer saber? Que se dane! — agora eu havia atingido o auge do meu estresse emocional. — Não, eu não tenho o senso de moda que essas mulheres no seu salão de festas têm! Eu não posso comprar o carro do ano, ou a moda do último verão, ou ter algo exclusivo de um estilista famoso! Eu gosto de cristais, uso roupas coloridas, p***o mandalas e passo a maior parte do meu tempo livre descalça. — retirei os meus saltos altos e os atirei no chão. — Então me desculpe se eu não consegui acertar na única vez em que tentei ser mais comum, em que vesti o vestido mais caro que tinha e fiz o esforço de arrebentar os meus pés com esse instrumento de tortura! E por que p***a eu estou pedindo desculpas? Eu não preciso agradar você e seus amigos ricos, eu não sou igual a vocês e que bom! Que bom que não sou superficial, porque eu estou pouco me fodendo para o exterior das pessoas e isso me faz sentir bem com quem EU sou.
Eu estava tão alterada que nem notei que ele se aproximou à medida que eu falava, me olhando com atenção a cada palavra. E agora ele estava perto demais de mim, me encurralando totalmente, me fazendo notar um fio improvável de adoração em seus olhos.
— Caralho... — foi a única coisa que ele murmurou antes de avançar ainda mais.
Christopher colocou suas mãos em cada lado do meu corpo, me pressionando contra a mureta, sem me dar chance de raciocinar antes que seus lábios estivessem grudados nos meus. No primeiro momento, nós não tocamos um no outro. Ele manteve suas mãos na mureta e eu fiquei estática, ainda tentando processar se aquilo era mesmo real ou se eu havia de fato ficado louca.
Mas então as mãos dele tocaram a minha cintura e eu me dei conta de que sim, isso estava acontecendo. Christopher Von Uckermann, que sempre foi rude comigo, que me ameaçou em nossa primeira conversa a sós e que parecia se irritar com cada passo que eu dava, estava bem aqui me beijando. E ele começou aquele beijo, ele me deixou a mercê de suas vontades e eram as mãos dele que subiam minhas costas as segurando firmemente.
Me deixei levar por minhas emoções e enlacei meus braços em seus ombros, deixando minhas mãos brincarem por seus cabelos e seu rosto enquanto a língua dele passava por minha boca, me deixando sentir o leve gosto de uísque caro misturado ao hortelã.
Christopher enfiou uma de suas mãos em meus cabelos, enquanto usou seu braço livre para me abraçar, me apertando contra o seu corpo, me permitindo sentir os músculos de seu abdômen. Se ele não estivesse me segurando agora, eu certamente viria ao chão, pois a tensão entre minhas pernas estava me estremecendo de uma forma que nunca aconteceu antes.
Ele me ergueu em seu colo e eu envolvi sua cintura com minhas pernas, soltando um gemido em sua boca ao sentir a sua ereção palpitar contra o meu sexo, que agora estava exposto, tendo em vista que meu vestido apertado subiu até a altura de minha cintura.
O beijo foi ficando ainda mais intenso, minha concentração estava totalmente voltada para ele, aquele cheiro de perfume forte e amadeirado que tanto estava me excitando e principalmente a forma como ele apertava seu p*u contra o meu c******s. Se ele continuasse assim, eu gozaria só com aquela fricção.
E então Christopher foi me soltando aos poucos, sem parar de me beijar. Mas quando meus pés tocaram o chão, ele se afastou segurando meu rosto entre suas mãos e então olhou para baixo, direto para a minha calcinha de cetim encharcada. Ele mordeu o lábio inferior e ofegou ainda mais depressa, depois tornou a dar atenção aos meus olhos.
Christopher se afastou de mim, respirando de maneira descompassada e me olhando como se tivesse feito algo errado comigo, como se ele tivesse me machucado. Mas a expressão em meu rosto só mostrava o quanto eu havia me e******o com o momento e o quanto eu queria mais. Tentei dar um passo em sua direção, mas ele se afastou mais de mim, colocando suas mãos em minha frente, impedindo-me de chegar perto.
— p**a que pariu! — vociferou virando-se bruscamente e começando a andar em direção às portas da varanda. Ele as abriu e as bateu tão forte que eu fiquei com medo de que o vidro quebrasse.
E eu fiquei ali parada por alguns minutos, tentando assimilar o que aconteceu. Eu me olhei pelo reflexo dos vidros da porta e soltei um suspiro ao ver o estado selvagem e sexy que aquele homem me deixou. Não havia mais batom em meus lábios, eu estava descabelada, meu vestido estava amarrotado e entre minhas coxas uma umidade quente havia se formado. Mas depois de despertar a fera s****l dentro de mim, ele simplesmente voltou a parecer irritado e foi embora depois de proferir um palavrão. Qual o problema daquele homem?
O melhor que eu poderia fazer era ir embora daquele lugar e evitar ao máximo ser vista por algum conhecido. Eu precisava ficar sozinha e reorganizar os meus pensamentos.