14 - amada consciência

2732 Words
Christopher Von Uckermann  Eu cometi um grande erro! Me deixei levar pela forma como Dulce estava bonita aquela noite e não me controlei quando ela gritou comigo, mostrando um lado dela que eu sei que jamais me mostraria se não estivesse em seu limite. Eu vi os limites dela e gostei deles. Mas eu não deveria me sentir assim, eu não tinha o direito de fazer isso, de ser feliz de novo e de esquecer o que Darla um dia significou. Me odiava ainda mais agora por ter esquecido da existência dela enquanto beijava Dulce.  Saí daquela varanda e fui direto para o meu quarto. Sentei-me em minha cama e olhei para as minhas mãos que há poucos minutos atrás desenharam as curvas de Dulce, explorando cada traço de sua pele, tocando-a com desespero e ânsia. Não pensei em mais nada enquanto a tocava.  — Você gosta dela. — a voz de Darla ecoou em minha cabeça.  Eu sempre "conversava" com ela. Não, eu não via espíritos nem nada do tipo, sabia que só estava conversando com a minha consciência, a qual eu materializei como sendo a minha falecida esposa, já que ela sempre conseguia me guiar pelos melhores caminhos.  — Eu não a mereço.  — Mas quer merecer. Eu não estou mais com você, fui embora há muito tempo. Você deveria seguir em frente e parar de se culpar.  — Foi culpa minha. — esfreguei meus olhos e respirei fundo.  — Acidentes de carro acontecem o tempo inteiro.  — Foi o meu karma. Paguei pelo que fiz.  — O que fez também não foi culpa sua.  — Eu cometi erros naquele maldito exército. Eu feri pessoas inocentes, Darla. Matei pessoas e ninguém nunca me culpou porque eu estava apenas "servindo o meu país". E mesmo quando eu voltei, você estava aqui me esperando, perfeita como sempre, doce e amorosa. Me ajudou com os meus traumas, ficou ao meu lado em todas as noites que eu acordava de um pesadelo pós-traumático e nunca foi capaz de apontar o dedo e me dizer que o que fiz foi errado.  — Você não sabia o que esperar quando resolveu entrar para o exército. Estava lutando pelo seu país, seguia ordens.  — Se as pessoas soubessem como tudo isso é injusto.  — Guerras sempre são injustas. Você era só uma peça no tabuleiro do governo, não fazia ideia de onde estava se metendo e acreditou cegamente estar fazendo a coisa certa. Quando notou que não era bem assim, você voltou para mim. Desistiu de tudo aquilo.  — E por ainda ter você eu achei que jamais deveria rever as minhas ações, então eu errei de novo. Por causa desse erro, eu estou preso à Belinda pelo resto da vida.  — Você se importa com ela.  — Sim. Eu prometi que iria estar com ela para tudo, mesmo sem você aqui. Eu venho cumprindo essa promessa. O problema é que a Belinda é cheia de caprichos. Parece uma irmã mimada que eu nunca quis ter. — a risada de Darla ecoou em minha mente.  — Você só precisa entender que gosta da Dulce e que não vai conseguir ficar longe dela, já percebeu isso depois desta noite.  — Mesmo se eu tentasse, não posso jogar a minha bagagem sobre ela. Eu tenho picos de depressão o tempo todo, nunca sei quando vou estar totalmente disposto para alguém e Dulce merece uma pessoa que esteja cem por cento com ela. Ela é como um arco-íris em dia de chuva e eu sou como uma nuvem nebulosa que cobre esse arco-íris. Vejo nos olhos dela o quanto ela quer uma história com um final feliz e eu nunca vou poder prometer isso para ela. Eu não sei se um dia vou tirar você da cabeça, Darla. Eu não sei se consigo amar outra pessoa e não estou disposto a iludir a Dulce com falsas expectativas.  — Não pense que ela também não tem uma bagagem. Aquele rosto sorridente nem sempre foi feliz. Todo mundo tem uma história e Dulce parece ser o tipo de pessoa que foge da dela. Já você, se afunda na sua, prendendo-se a um passado que deveria ser esquecido. Vocês têm muito o que aprender um com o outro.  — Eu... — olhei a aliança em meu dedo e a girei com o polegar algumas vezes. — Eu não a mereço. Mas também não posso continuar tratando-a com indiferença, isso definitivamente não vai afastá-la. Não gosto que ela se aborreça comigo, por mais que tenha causado isso propositalmente.  — Diz isso porque hoje ela gritou com você e isso o atraiu ainda mais.  — Ela é diferente. — sorri. — É boa demais para mim. Eu não quero prometer o mundo para ela se eu não tenho certeza se sou capaz de cumprir essa promessa. Dulce merece alguém estável e eu sou um poço de emoções complicadas e desestabilizadas.  — Você deveria voltar a fazer terapia, isso te ajudou no passado.  — Eu mereço permanecer com as minhas dores. — agora eu não a ouvia mais. — Boa noite, minha amada consciência. Eu queria ficar em meu quarto para evitar de ver a Dulce. Não iria conseguir encara-la, mas tinha que voltar para o salão de festas. Meu pai não pararia de reclamar em meus ouvidos caso eu não estivesse presente quando ele anunciasse a sua candidatura.  E quando eu entrei lá, o homem já estava terminando o seu discurso, enquanto era cercado pelos convidados que o olhavam com muita expectativa. Aquelas eram as expressões de pessoas que viam em meu pai uma oportunidade de arrancar uma casquinha do governo.  Era para isso que aquela festa havia sido feita com nossa família e possíveis investidores que chamávamos de amigos da família. Meu pai teria sua campanha financiada por aquelas pessoas, desde os investimentos mais inocentes até as compras de voto e fraudes eleitorais. E em troca, ele lhes faria favores ao tomar posse da prefeitura. Victor sempre dava um jeito de ir pelo caminho mais fácil, por mais sujo que fosse.  Ao lado dele estava a minha filha, sorrindo gentilmente enquanto meu pai a usava como uma forma de deixar sua imagem mais carismática. Um avô carinhoso certamente derreteria muitos corações por aí. Não que ele não fosse um avô assim, eu só preferia quando ele fazia isso sem uma plateia para conquistar.  E depois dos aplausos, ele olhou diretamente para mim e começou a caminhar em minha direção enquanto segurava a mão de Amber.  — Onde estava? — perguntou sério.  — Precisava resolver um problema. — mantive meus braços cruzados para mostrar que não estava muito afim de ter aquela conversa.  — A Dulce foi embora, você tinha ido atrás dela? — Amber me perguntou com um olhar preocupado. — Ela saiu tão rápido que nem tive tempo de perguntar o que aconteceu.  — Ela foi embora? — aquilo me desapontou um pouco. A forma como eu a deixei na varanda não foi nada delicada e ao invés de tranquiliza-la, eu a estressei mais. — Quem é Dulce? — meu pai perguntou.  — É minha professora, a melhor de todas! — Amber sorriu. — Você iria adorar conhecê-la, vovô.  — Aposto que sim. — sorriu para ela. — Agora nós dois temos que falar sobre negócios. — tornou a me encarar. — Podemos ir ao escritório?  — Se eu disser que não, vai me obrigar a te ouvir aqui mesmo. — dei as costas e ouvi ele se despedir de Amber e me seguir.  Como eu imaginei, meu pai repetiu o que já havia me passado ao telefone. Ele iria continuar com as ações do banco, sendo o sócio majoritário, porém sua posição na presidência seria oficialmente minha, algo que eu nunca quis que acontecesse.  — Deixa eu ver se entendi... — me recostei contra a minha cadeira. — Você ainda será o sócio majoritário e eu deixarei de ser o seu CEO honorário para me tornar fixo. Um funcionário da sua empresa.  — Não me veja como um chefe, eu sou seu pai. Tudo o que é meu, é seu e da sua irmã também. — Eu sei onde isso termina. Vai começar a ter mais controle sobre mim e eu vou me ver sufocado por você, tendo que andar conforme as suas ordens.  — Por que você sempre tem que ser tão negativo?  — Por que você não pode ser só um pai comum que aceita que seus filhos não querem o mesmo que você? Eu estou bem trabalhando em casa, tenho ações em várias empresas, manipulo o mercado com maestria, faturo uma fortuna por mês, fortuna essa que não está vinculada com você e seu dinheiro sujo.  — O meu dinheiro sujo te deu muitas coisas. Coisas que te cercam e te afetam até hoje. — fiquei em silêncio. — Sabe exatamente como eu consegui deixar o governador Peregrín e sua filha insuportável em nossas mãos.  — Eu também estou nas mãos dela.  — Por uma promessa que não vai te prejudicar em nada se for quebrada. A Darla cuidava da Belinda, mas ela não está mais aqui. — Você não sabe tudo sobre mim e Darla, papai. Belinda fez coisas por nós, também pode me f***r se quiser.  — Do que diabos está falando? — irritou-se.  — Estou falando que já devo coisas demais a uma pessoa só. Não vou me prender a você.  — Pode se arrepender disso. — ficou de pé. — Não precisa de mim, mas se não for nos meus termos, juro que Anahi não terá mais nenhum centavo meu.  — Annie mora comigo desde que eu concluí o ensino médio. Sempre cuidei dela e agora posso fazer isso com o meu próprio dinheiro. Se depender de mim, ela sempre será tratada como uma rainha. — ele estava sem munições contra mim. Me livrei do meu pai da melhor forma: me tornando independente. — Sugiro que o senhor promova um novo diretor executivo. Não estou mais com vontade de dirigir aquele banco. Ele começou a me dar prejuízo.  — Que tipo de prejuízo? — franziu a testa.  — Na minha última semana de trabalho por lá, eu perdi cinquenta dólares. — fui sarcástico ao relembrar o evento com Dulce. Meu pai pareceu não entender e eu não estava com vontade de explicar. — Acabamos?  Ele assentiu uma única vez e deu as costas para mim, saindo do escritório. Me livrar do meu pai era uma coisa que eu deveria ter feito há anos, mas foi bom esperar um momento como aquele para acabar com aquilo. Ele estaria ocupado demais com sua candidatura para ter tempo de maquinar um meio de me puxar de volta para o negócio da família. Não haviam mais motivos para aguentar aquela festa, então eu subi para o meu quarto depois de sair do escritório. Eu sabia que demoraria para dormir, se é que realmente pegaria no sono naquela noite. Já não costumava dormir bem normalmente e agora minha cabeça estava ainda mais cheia de coisas.  Quando estava começando a pegar no sono, ouvi a porta do quarto ser aberta e observei Amber entrar apoiando-se em suas muletas. Ela já estava de pijama e eu me perguntei quantas horas fiquei apenas olhando o teto.  — Algum problema, raio de sol? — perguntei.  — Te acordei?  — Não.  — Eu tive um pesadelo e agora não consigo dormir. Posso passar a noite aqui?  — Claro! — dei espaço na cama para ela. Amber deitou-se e se aconchegou em meus braços. — Quer conversar?  — Pode me falar sobre a mamãe? — eu já havia falado sobre Darla várias vezes, mas a Amber adorava ouvir.  — Sua mãe era a melhor pessoa que eu já conheci nesse mundo. Ela não era só linda por fora, mas por dentro também. E mesmo tendo nascido em família rica, ela preferia as coisas mais simples, passava o seu tempo preocupada com o próximo e vivia fazendo trabalhos voluntários. Ela tinha o coração mais puro do mundo.  — O que você mais gostava nela? — sorriu levantando a cabeça para me olhar melhor.  — O jeito como ela via o lado bom de tudo, independente do quão r**m as coisas estivessem.  — Parece a Dulce. — respirei fundo, ficando tenso com aquela comparação. Parece que eu não era o único a notar isso. — Desculpe, eu sei que a mamãe era única.  — Tudo bem, raio de sol. Existem muitas pessoas tão boas quanto a sua mãe foi. Dulce pode ser uma delas. — e era a primeira vez que eu admitia isso em voz alta.  — Não vejo a hora de ter a minha aula de música amanhã. — bocejou começando a fechar os olhos.  Perdi totalmente o pouco de sono que tinha e fiquei observando a minha filha dormir por horas, até o sol começar a nascer e eu me sentir cansado o suficiente para um cochilo. Mas dormi por pouco mais de duas horas, deixei Amber descansar mais um pouco e desci para preparar o café da manhã.  Apesar da casa ser grande, eu não tinha empregados fixos. Algumas diaristas vinham uma vez na semana para fazer a faxina, mas só. Eu e Annie preferíamos cozinhar nós mesmos.  — Madrugou? — Alfonso perguntou entrando na cozinha e me vendo passar o café.  — Eu acordo cedo sempre. E você? Por que está de pé?  — Não tive muito sucesso ontem à noite, dormi sozinho.  — Eu preferia que você não transformasse minha casa em um bordel.  — Relaxe, homem. Meu plano é levar apenas a sua irmã para o meu quarto.  — É melhor ficar quieto se não quer que eu arremesse essa cafeteira na sua cabeça.  — Isso com certeza doeria. — riu. — Me diz, qual o lance com a professora de música?  — Como assim? — o encarei.  — Eu a vi indo embora ontem, se esgueirando pelos cantos como se não quisesse ser vista. Sou perito nessas coisas e sim, ela cheirava a sexo. Mas sexo m*l resolvido. O engraçado é que foi você a ir atrás dela no andar de cima.  — Você sabe cuidar da sua vida ou fica só assistindo a dos outros? — meu tom saiu mais grosseiro do que eu pretendia.  — Parece que eu toquei em algo. — sorriu de canto. — Eu não quis ir até a Dulce e perguntar se ela estava bem, ela parecia querer sair daqui o mais rápido possível e eu tenho certeza que não foi só pelo veneno da Belinda. O que você fez com a Dulce?  — Eu não fiz nada. — falei sem encara-lo, dando minha atenção apenas para o meu café da manhã.  — Isso. Você não fez nada. — riu. — Instigou a garota e não fez nada. — meus ombros ficaram tensos e eu me mantive em silêncio. — Parece que eu acertei.  — Não vou falar sobre isso.  — Tudo bem. Eu sei que você tem questões com a Darla e respeito isso. Mas não custa nada tentar de novo, Christopher. Se a Dulce mexe tanto com você ao ponto de te deixar tenso só por alguém mencionar o nome dela, você deveria tentar. — não, eu não iria tentar, mas não entraria nessa discussão com Alfonso.  — Você quer bacon? — desconversei. Ele entendeu o recado e mudou de assunto logo em seguida.  [•••] Eu estava em uma das varandas da frente tomando uma cerveja. Alfonso tinha saído faziam poucos minutos para trabalhar mais em seu livro. Eu gostava de observar o céu da tarde enquanto sentia o vento bater em meu rosto. Era uma das poucas coisas naquela casa que me deixava tranquilo.  Vi uma picape vermelha entrar pelos portões e parar no estacionamento, logo depois Dulce saiu de lá. Caramba, ela não se livrou daquela armadilha móvel? Eu teria que falar com ela sobre isso. Não gostava nada de saber que ela andava pelas ruas de Nova York dirigindo aquela coisa.  Eu ri quando a observei sair do carro, bater a porta e ficar presa nela pelo casaco. E ao invés de simplesmente abrir, ela deu um puxão forte e caiu sentada no chão. Eu ri ainda mais quando ela levantou depressa, limpou suas calças e olhou assustada em volta para ter certeza de que ninguém havia visto aquilo. Bom, eu vi e foi maravilhoso.
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