Dulce Maria
Depois da longa segunda-feira, eu precisei ir comprar algumas ervas naturais que estavam em falta. Estava voltando para casa com o rádio ligado enquanto batucava e cantarolava animadamente. Dei uma olhada pelo meu retrovisor e avistei um carro preto logo atrás de mim, o mesmo carro que vi há umas cinco quadras atrás.
Acelerei um pouco e peguei outro caminho que não costumava seguir, só para tentar ver se estava sendo seguida ou se eu só estava sendo maluca como sempre. Minhas mãos começaram a suar quando percebi que o motorista do carro preto veio na mesma direção, sempre mantendo seus faróis no máximo, me impedindo de ver quem dirigia.
Pisei fundo no acelerador e entrei em ruas que não tinham nada a ver com o meu caminho para casa. Se eu estava mesmo sendo seguida, não era bom deixar escancarado onde eu morava. Foram mais umas oito quadras, fiz o retorno umas duas vezes, eu estava andando praticamente em círculos por Manhattan e continuei sendo seguida. Não, eu não estava sendo maluca.
Praguejei a minha picape quando ela enguiçou e o motor morreu. Assim que meu carro parou, o meu perseguidor também parou, bem na esquina daquela rua que estava pouco movimentada. Fiquei dentro da caminhonete tentando fazê-la ligar novamente, mas não tive sucesso.
— Vamos, querida, eu nunca desisti de você, não pode me deixar na mão agora! — choraminguei.
Foram uma, duas, três, várias tentativas, mas a picape simplesmente não ligou.
— Sua filha da p**a! — esmurrei o volante. — Ok... — respirei fundo. — Paz de espírito, Dulce. Surtar não ajuda ninguém em nenhuma situação.
Coloquei a mão na maçaneta da porta e abri lentamente, colocando o primeiro pé para fora. O universo estava sendo bem sacana comigo ultimamente e faltava muito para se redimir. Ele não deixaria eu ser atacada agora, deixaria? Se eu não saísse daquele carro para olhar o motor, não sairia do lugar e ficar parada era bem pior.
Olhei para o carro preto na esquina, engoli em seco e fui até a frente da minha picape. Subi o capô e tive que cobrir o nariz devido ao vapor que saiu de lá. O problema era pior do que imaginei.
— Eu não pretendia morrer no meio de uma avenida vazia. — olhei para o céu. — Isso é uma lição por eu não ter trocado de carro? — bufei. Dei a volta e comecei a chutar o pneu. — Droga de picape velha, desgraçada, fodida, filha de uma puta... — eu xingava a cada chute.
— Ei, para! — alguém disse ao colocar a mão em meu ombro.
— AAAAHHH! — eu me assustei e sem pensar duas vezes me virei e dei um soco no peito da pessoa.
— c****e! — Christopher se afastou e tossiu com a mão no peito. — Você é pequena, mas tem a mão tão pesada!
— Não pode chegar nas pessoas assim! — falei ofegante.
— Você dá um murro em todo mundo que te aborda na rua?
— Não. — só quando estou sendo seguida, o que não acontece com frequência. — Desculpe.
— Tudo bem, Rocky Balboa. — sorriu. — Problemas com a lata velha?
— Não chama ela assim! — fiz cara de tédio e cruzei os braços.
— Você estava literalmente cobrindo ela de porrada. — riu. Não sei se me acostumaria a ouvir a risada dele, já que meu coração saltitava ainda mais à medida que isso acontecia.
— É que eu estou um pouco longe de casa, já está tarde. — relaxei.
— Nunca é tarde na cidade que não dorme. — ele foi até o capô aberto e começou a dar uma olhada. — A água do radiador ferveu, se andasse mais alguns quilômetros o motor pegaria fogo e você morreria em uma explosão.
— Mas eu levei ela na manutenção essa semana. — reclamei.
— Mandei se livrar dela, não tentar consertar. — me olhou com repreensão.
— Você tem uma estranha mania de tentar me dar ordens.
— Eu sou seu chefe.
— Mas não pode se meter na minha vida pessoal.
— Posso se eu não quiser que o seu carro exploda no estacionamento da minha casa. — puxou o celular do bolso e ligou para alguém. — Oi, então, vocês podem vir guinchar um carro? — vi ele dar o endereço e logo depois desligar.
— Um guincho? Não seria melhor chamar um mecânico?
— Você ainda quer andar nessa ratoeira? — franziu a testa. — Ela vai direto para o ferro velho.
— Não pode fazer isso! — fiquei boquiaberta.
— No sábado vamos até uma concessionária, vou dar entrada em um carro para você pessoalmente, já que se eu te der dinheiro você vai tentar salvar essa coisa. — ele fechou o capô e a lataria rangeu.
— Ela já sabe que eu vou abandoná-la, está até reclamando. — suspirei.
— É. Tá bom. — me olhou divertido. — O que fazia aqui à essa hora? Está muito longe do seu bairro.
— Eu... — olhei de canto na direção do carro preto ainda parado na esquina. — Eu só me perdi. — menti. — Faz pouco tempo que eu me mudei para Nova York, a cidade é grande.
— Deveria usar o GPS até se acostumar.
— Tem razão. — forcei um sorriso. — E você?
— Eu vim fazer um favor para a Belinda, nada demais. — deu de ombros. — Eu preciso entrar nesse prédio, mas volto bem rápido. Você quer ficar aqui ou prefere esperar dentro do meu carro? — apontou para trás, onde ele havia estacionado sua Range Rover.
Tornei a olhar para o carro que me seguia e detestei a ideia de ficar ali fora sozinha, mesmo dentro de um carro blindado.
— Eu posso subir com você? Prometo que não vou atrapalhar, seja lá o que você pretende fazer.
— Não sei, Dulce, isso é meio particular. — coçou a nuca.
— Por favor. — segurei o braço dele com as duas mãos e o olhei com súplica. Christopher relaxou sua expressão e soltou um longo suspiro.
— Ok, mas não faça nenhuma pergunta. Eu sei que você é curiosa, mas sem querer ser grosso, isso realmente não é da sua conta.
— Só me leve com você! — falei impaciente.
— Certo. — ele franziu levemente a testa, estranhando o meu comportamento, mas não fez nenhuma pergunta, talvez porque eu já fosse estranha para ele em meu estado normal.
Christopher foi andando em minha frente e eu fui logo atrás, quase grudada nele, mas sem deixar que nossos corpos se tocassem. Ele tocou o interfone de um dos apartamentos e um homem atendeu.
— É o Christopher Von Uckermann. Belinda avisou que eu viria.
— Ok. Pode subir.
O morador acionou a a******a da porta e nós entramos no prédio, indo direto para o elevador. Christopher pareceu tenso o tempo inteiro, ficando sério e em silêncio, sem nem ao menos olhar para mim. Eu não gostava disso, era assim que ele ficava quando queria se manter distante.
Saímos do elevador e Christopher bateu na porta do apartamento em questão, que foi aberto por um homem que parecia ter uns cinquenta anos, era calvo, tinha uma barriga de chop e aquela mancha de molho na camisa dele parecia estar lá há dias. Sem contar que assim que ele abriu a porta um cheiro de nicotina barata invadiu minhas narinas. O que Belinda Peregrín teria a tratar com alguém como ele?
— Belinda disse que você viria sozinho. — sua voz de fumante soou rígida quando ele me analisou de cima a baixo.
— Não tem que se preocupar com ela. — Christopher se pôs em minha frente, me afastando para trás dele com o braço como se estivesse me protegendo. — Aqui está. — do bolso interno de seu casaco, ele retirou um envelope branco e entregou ao homem, que abriu revelando algumas notas de cem.
— Ok. Tudo aqui. — ele disse depois de contar o dinheiro. — Ela também está incluída no pacote? — riu, me olhando de uma forma que me deu nojo.
— É melhor você tomar cuidado com o que diz se não quiser que eu te faça engolir todos os seus dentes podres. — Christopher disse entredentes, olhando para o homem como se fosse realmente avançar a qualquer momento.
— Vamos embora. — sussurrei apertando o braço dele.
— Vai na minha frente.
Ele segurou minha cintura e me colocou na frente dele, apoiando-se em mim enquanto andava atrás, olhando para o homem que não desgrudou os olhos de nós até entrarmos novamente no elevador.
— Desculpe por isso. Você não deveria ter subido. — Christopher parecia seriamente irritado.
— Eu não achei que você iria ver algum cara nojento e sinistro. E pela Belinda? Sabe, eu fico cada vez mais confusa sobre vocês dois.
— Você disse que não ia fazer nenhuma pergunta. — foi firme.
— Eu não perguntei nada.
Nos mantivemos em silêncio, o clima pesando como se tivéssemos retrocedido cem passos para trás na nossa tentativa de amizade. Agora eu só queria sair daquele prédio e poder voltar para casa sem carros me seguindo e sem homens com idade para serem meus pais se achando no direito de me assediarem.
O elevador deu um tranco e as luzes piscaram. Olhei assustada para Christopher e ele pareceu confuso com o que acontecera. O elevador travou de vez e eu apertei os botões, mas nada aconteceu. Estávamos oficialmente presos.
— Não, não, não! — resmunguei.
— c*****o! — ele apertou o botão de emergência algumas vezes. O técnico responsável pelo elevador tentou se comunicar pelo sistema de som, mas sua voz saiu falha e só ouvimos ruídos.
— Não, não, não! — apertei os botões novamente, sentindo o ar em meus pulmões se esvair, tornando muito difícil respirar.
Comecei a andar de um lado para o outro no elevador e Christopher me observava com uma expressão indecifrável em seu rosto. Ar, eu preciso de ar! Ficar presa naquele cubículo me deixou em pânico, respirar se tornou uma tarefa impossível e eu arfava descontroladamente enquanto meu rosto se avermelhava cada vez mais.
— Dulce, se acalma! — Christopher segurou meus braços e me olhou preocupado. — Respira devagar, puxa pelo nariz e solta pela boca.
— Eu... eu não... não consigo... — meus olhos se encheram de lágrimas e tudo ao meu redor ficou turvo, comecei a ouvir um zumbido em meu ouvido, me deixando sem tanta noção do ambiente ao meu redor.
— p**a que pariu! — ele bateu a mão na cabeça e apertou novamente o botão de emergência.
Me apoiei no corrimão na parede do fundo do elevador e continuei com a minha incapacidade de respirar me levando a um estado de fraqueza pouco a pouco. Fechei meus olhos e continuei tentando trazer o ar para mim.
— "Pretty woman, walking down the street, pretty woman, the kind I'd like to meet..."
O que? O que é isso?
Abri meus olhos novamente e observei Christopher mover os lábios e só então notei que ele acompanhava a música que tocava no sistema de som do elevador. Coincidentemente, a música de "uma linda mulher", a mesma que ele cantarolou para mim em sua cozinha.
— "Pretty woman, I don't believe you, you're not the truth..."
O que ele estava fazendo?
De repente eu passei a prestar atenção na voz dele, minha respiração foi se normalizando, respirar voltava a ser uma tarefa fácil.
— "No one could look as good as you. Mercy!..."
Ar. Eu posso respirar.
Christopher sorriu aliviado ao notar que eu estava bem e começou a se aproximar sem parar de cantar.
— "Pretty woman, won't you pardon me? Pretty woman, I couldn't help but see..."
Ele fechou sua mão em um punho como se estivesse com um microfone imaginário e então aproximou sua mão da minha boca, convidando-me a cantar junto com ele.
— "Pretty woman, you look lovely as can be. Are you lonely just like me?..." — cantamos juntos.
Agora nós dois estávamos animados, cantando juntos e até começando a balançar nossos corpos enquanto andávamos pelo elevador, sorrindo um para o outro.
Ele pegou em minha mão e me girou, depois segurou minha cintura e com meu corpo colado ao dele, continuamos a cantar.
— "Pretty woman, stop a while. Pretty woman, talk a while. Pretty woman, give your smile to me..."
Christopher se afastou e começou a tocar uma guitarra imaginária, mexendo seu quadril de um jeito que nunca imaginei que o veria fazendo. Quem era aquele homem? Certamente não tinha nada a ver com o chefe rancoroso de poucos dias atrás. Era como se Christopher tivesse arrancado todas as suas amarras.
— "'Cause I need you, I'll treat you right. Come to me, baby, be mine tonight..."
Ele segurou minhas duas mãos e me puxou para perto de novo, agora tínhamos nossas testas coladas uma na outra, dançando no ritmo da música.
— "Pretty woman, don't walk on by, pretty..."
A música acabou e nós nos mantivemos daquele jeito por alguns minutos. Ambos de olhos fechados, nossas respirações se misturando por estarem tão próximas uma da outra. Eu não conseguia parar de sorrir. Dentre todas as coisas malucas que aconteciam comigo, aquela certamente foi a melhor.
— Roy Orbison estaria orgulhoso. — eu disse.
As mãos dele continuavam em minha cintura enquanto as minhas estavam em seus ombros. Christopher me olhava tão intensamente quanto eu fazia e um magnetismo se formou ao redor de nós. Naturalmente, fomos aproximando nossos rostos até eu sentir a ponta de seu nariz tocar a minha.
— É... desculpem. — a voz do técnico nos fez recuar. — Vi vocês se divertindo, não quis atrapalhar, mas já resolvemos o problema no sistema de som, podem nos ouvir agora. — ele nos viu cantar e dançar? p**a merda! Eu virei um tomate depois de lembrar da câmera de segurança. — Vamos tirar vocês daí, já sabemos qual o problema, só temos que esperar a chegada de uma peça específica. Infelizmente terão que esperar por no mínimo uma hora. Os manteremos informados.
— Que!? — exclamei.
— Se você ficar nervosa, a gente pode se distrair de novo. — Christopher disse calmamente.
— Ok. — assenti e respirei fundo tentando não surtar de novamente.
— E a propósito, você canta muito bem. — sorriu.
— Você também. — retribuí o sorriso.
Seria uma hora bem longa para se passar ao lado desse homem.