17 - eu nunca

2560 Words
Christopher Von Uckermann  Tamanha foi a minha surpresa ao chegar ao meu destino e ver Dulce chutando seu carro constantemente com toda a raiva possível. Eu a avisei diversas vezes que aquilo um dia iria acontecer. Ela não percebeu que estacionei meu carro bem de frente à picape dela, talvez por estar com as energias a mil, dedicando toda a sua atenção a fazer aquele pneu desgastado implorar por misericórdia. Saí do meu carro já dando risada, pronto para me aproximar e dizer um bom e sonoro "eu avisei". Mas então ela me recebeu com um soco e um olhar de pânico bem esquisito.  Depois de analisar o carro dela e chamar um guincho, nós entramos no prédio. A princípio, eu não queria que ela me acompanhasse, mas Dulce parecia não querer mesmo ficar sozinha ali fora e uma parte de mim amoleceu quando ela me olhou com súplica.  Nós falamos com aquele cara e eu não gostei nada da forma como ele a olhou e falou sobre ela. O homem das cavernas que habita em mim se viu com muita vontade de saltar para fora e esganar aquele porco. Mas então a voz suave e assustada de Dulce me trouxe de volta à realidade e eu vi que o melhor era apenas tirar ela de lá.  O que eu não esperava era que ficaríamos presos no elevador e que eu teria a brilhante ideia de cantar uma música para acalma-la. Não achei que aquilo fosse dar certo, mas fiquei feliz pelo resultado final. Acho que nunca me diverti tanto com uma mulher desde que Darla se foi. Eu queria que aquele momento não acabasse, mas terminou quando a música também acabou. E eu queria beija-la, queria sentir o sabor dela de novo, mas infelizmente, ou felizmente, fomos interrompidos.  Depois de me afastar eu voltei para a minha racionalidade e agradeci mentalmente por não tê-la beijado. Eu não queria estragar as coisas, precisava manter Dulce como apenas uma amiga se eu não quisesse que as coisas acabassem m*l entre nós, porque eu com toda certeza destruiria tudo com todos os meus traumas m*l resolvidos.  — Merda... — ouvi ela resmungar enquanto olhava para o seu celular. — Sem sinal. A May vai ficar preocupada. — guardou o celular de volta na bolsa que estava no chão ao lado dela.  Nós estávamos sentados de frente um para o outro, encostados nas paredes. Ficamos em silêncio por muito tempo, mas aquilo não era r**m, pelo menos ela não estava tendo um ataque de pânico. — O tempo vai passar mais rápido se a gente se distrair. — ela disse. — Eu sou bem inquieta, então não é legal ficar em silêncio.  — Sobre o que quer conversar?  — Que tal a gente jogar "eu nunca"? — E como se joga isso? — franzi a testa.  — O que? — ficou boquiaberta. — Nunca jogou? — neguei com a cabeça. — Você é uma espécie em extinção. — riu. — Ok, funciona assim: nós levantamos todos os dedos das mãos. — ergueu suas mãos com as palmas abertas. — Daí um de nós diz algo que nunca fez e se o outro tiver feito, abaixa um dedo. Quem abaixar todos os dedos perde.  — Parece chato e infantil.  — Você que é chato. — revirou os olhos. — Pra ficar mais interessante, sempre que um de nós já tiver feito algo, o outro tem direito a fazer uma pergunta sobre o assunto.  — Hum... — talvez aquele fosse um meio de saber mais sobre todas as curiosas estranhezas dela. — Ok. — também ergui minhas mãos.  — Eu nunca saí do país.  — Isso é golpe baixo. — abaixei um dedo.  — Cada um joga com as armas que tem. — sorriu.  — Ah, é? Eu nunca toquei piano. — ela fez uma cara de aborrecida e abaixou um dedo.  — Isso está óbvio demais. Vamos proibir perguntas óbvias.  — Só por que isso se voltou para você? Que espertinha. — a olhei de canto, como se estivesse desconfiado.  — Eu nunca fiz algo ilegal. Mas não estou falando sobre multas no trânsito ou pequenas infrações, tem que ser algo que te deixaria preso por no mínimo cinco anos. — engoli em seco e abaixei outro dedo bem devagar, fazendo Dulce arregalar os olhos. — O que você fez?  — Eu... — precisava dar uma resposta curta, sem nenhuma informação grande. — Foi falsidade ideológica. — isso! Simples e nada explicativo.  — Como assim? Você fingiu ser outra pessoa? Quem?  — Você disse uma pergunta.  — Droga, eu adoraria perguntar se você foi preso! — eu ri da frustração dela.  — Minha vez. Eu nunca usei drogas ilícitas.  — Você acha que eu já usei drogas? — ficou boquiaberta. — Esse é o seu normal? — brinquei, fazendo uma expressão exagerada de choque.  — Você acha que eu estou drogada? Tipo agora? — irritou-se e eu me segurei para não rir da situação.  — Não está? — arqueei a sobrancelha.  — Ótimo! Assim você perde o jogo mais rápido. — forçou um sorriso. — Eu nunca matei alguém.  — Você disse sem perguntas óbvias. Sabe que eu servi numa guerra.  — Tá. — revirou os olhos. — Eu nunca matei um civil inocente.  — c****e. — murmurei abaixando outro dedo. Novamente Dulce pareceu surpresa e levemente preocupada.  — Ok, eu vou pensar melhor na minha pergunta sobre isso. — ela ficou me encarando enquanto pensava. — Você... — o olhar dela relaxou um pouco. — Isso afeta você? — a pergunta me surpreendeu, ela queria saber como eu me sentia, não quem eu havia matado ou onde e como. Dulce estava preocupada comigo.  — Sim. Foi isso que me fez sair do exército. Eu cometi um erro, mas eles não me penalizaram por isso porque eu estava a serviço e tecnicamente cumpria ordens. Então mesmo que eu tenha matado alguém que apenas não entendeu uma ordem de parada minha, eles disseram que estava tudo bem. Que foi só um acontecimento infeliz.  — Isso não é culpa sua. Eu sei que deve se martirizar por isso, mas você realmente só estava seguindo ordens e estava constantemente estressado com tanta pressão e desgraça ao seu redor. É normal que você tenha começado a agir no automático, seguindo as ordens como um soldado obediente, sem questionar. Guerras ferram com a cabeça de todos.  — A Darla sempre me dizia algo assim. — sorri fraco. — Continuando... — já que tudo ficou mais pessoal, eu queria entrar no mundo dela também. — Eu nunca fiquei brigado com meus pais por mais de um ano. — ela pareceu em dúvida sobre abaixar um dedo ou não, mas enfim decidiu que sim. — Qual foi o motivo da briga?  Dulce engoliu em seco, seus olhos se encheram de lágrimas e sua respiração se acelerou um pouco, o que me deixou preocupado. Estava prestes a me aproximar dela, quando ela respirou fundo, fechou os olhos e sorriu tristemente para mim.  — Nunca contei isso pra ninguém, então vai ser bem estranho. — esperei que ela continuasse em seu tempo. — Eu engravidei aos quinze anos. O meu pai era pastor, então de jeito nenhum ele aceitou aquilo. Eles me expulsaram de casa e desde então eu nunca mais os vi.  — Caramba, então faz uns dez anos que não vê os seus pais.  — Quinze anos. Valeu por achar que eu sou cinco anos mais nova. — riu como se quisesse cortar o clima pesado.  — O que aconteceu com o bebê?  — A regra diz que só podemos fazer uma pergunta. — ficou séria. — Eu nunca transei com Belinda Peregrín. — Que? — franzi a testa e depois comecei a rir. — Você acha que eu e Belinda temos um caso?  — Vocês têm? — arqueou a sobrancelha.  — Não. — fui parando de rir. — Não, eu nunca transei com a Bel. — eu entendia o porquê de ela pensar assim, mas ainda achei engraçado. Nunca me imaginei tocando em Belinda, ela era quase uma irmã.  — Ah! — arqueou as sobrancelhas e eu vi ela dar um sorrisinho de canto. — Sua vez.  Eu sabia que era um assunto delicado, mas eu queria mesmo saber: — Eu nunca abandonei um filho. — ela ficou pálida no mesmo instante e seu olhar se tornou sério e frio. Ela abaixou outro dedo e desviou o olhar para o chão. Vi o quanto aquilo a abalou e desejei voltar no tempo e desfazer a pergunta i****a.  — Faça a sua pergunta sobre isso. — ela disse ao notar que eu me calei.  — Não. Eu não quero saber nada sobre isso, a menos que você queira me contar. — Dulce negou com a cabeça.  — Eu nunca me senti culpada pela morte de alguém que eu amava. — aquilo me atingiu em cheio. Eu toquei em uma parte da vida dela que era difícil, então ela retrucou fazendo o mesmo comigo. Abaixei outro dedo e esperei que ela fizesse uma pergunta. — Foi um acidente, Christopher. O que te faz sentir culpado?  — Eu matei alguém inocente antes. Então a vida, sei lá, o universo no qual você acredita tirou a Darla de mim. — lutei para ter que dizer aquilo. — Uma pessoa não paga pelo karma da outra. Acidentes acontecem o tempo inteiro.  — Você não acredita que tudo tenha uma razão? Existe uma razão pela qual você abandonou o seu bebê, não existe? — a conversa me irritou e eu queria atacá-la também.  — E qual a razão por ter matado um inocente? A guerra te transformou num animal selvagem? — vi ela se irritar. Abaixamos nossas mãos, dando um fim naquela brincadeira e sentindo a grande necessidade de apenas nos atacar.  — Eu nunca me escondi atrás de uma crença i****a e maluca só pra ignorar a droga de um passado pesado e triste. — esbravejei.  — Eu nunca descontei nos outros o peso das merdas que eu fiz! — ela ficou de joelhos e se arrastou até mim, então eu fiz o mesmo.  — Mãe desmiolada e irresponsável! — a xinguei.  — Assassino primitivo! — me xingou de volta.  Nós estávamos em fúria, eu queria muito xingar ela ainda mais, gritar que ela não sabia nada sobre mim, que eu podia achar aquilo sobre mim mesmo sozinho, sem precisar dela gritando o quanto eu era culpado pelos meus próprios demônios.  Mas ao invés de continuar brigando, como se o clima tenso e raivoso tivesse acendido algo em nós, nossas bocas se encontraram com urgência, num beijo tão furioso quanto as nossas emoções.  Fiquei de pé trazendo ela comigo e a empurrei até encontrar a parede. Segurei suas pernas e a peguei em meu colo, deixando nossos lábios ainda mais encaixados, sentindo o sabor doce da boca dela me inundar e viciar toda vez que sua língua se movimentava contra a minha.  Dulce enlaçou suas pernas ao redor da minha cintura e eu a pressionei contra aquela parede, deixando minhas mãos passearem por seu corpo, sentindo sua i********e quente contra a minha ereção. Nenhuma mulher nunca me deixou e******o apenas por beija-la. Era como se tudo de mais sexy que existisse no mundo fosse multiplicado quando se tratava de Dulce. Continuamos a nos beijar, ela passando suas mãos por meu rosto, me abraçando e vez ou outra soltando gemidos abafados que estavam me fazendo perder o controle. De repente o beijo foi ficando mais calmo, mais suave e lento. Explorei os lábios dela com cuidado, dando atenção a cada movimento. A soltei e o corpo dela deslizou pelo meu até seus pés tocarem o chão.  Segurei o rosto dela entre minhas mãos com cuidado, usando o polegar para fazer uma carícia em sua bochecha. Já não era mais algo totalmente s****l, era diferente e eu senti como se meu peito estivesse cheio de algo que eu já não sentia há anos.  E o elevador deu outro tranco, mas agora voltando a funcionar. Eu e Dulce nos afastamos no mesmo instante e ficamos nos encarando até o elevador chegar ao térreo e a porta ser aberta.  — É... vocês estão bem? — o homem que parecia nos esperar perguntou. Ele vestia um macacão azul de eletricista, então deduzi que fosse o técnico que se comunicou conosco mais cedo.  — Sim. — Dulce respondeu tão rápido quanto pegou sua bolsa do chão e saiu de lá.  — Desculpe, eu não queria atrapalhar. — o técnico disse um tanto quanto envergonhado. — É que já estavam presos há um tempo e...  — Não se explique. — falei. — Obrigado.  Me apressei para sair do prédio atrás de Dulce, que pareceu fugir de mim. No que será que ela estava pensando? Talvez ainda estivesse brava comigo e o beijo não fosse suficiente para ela esquecer. A vi ao lado do meu carro enquanto mexia em seu celular.  — Podemos ir agora. — falei apertando o botão em minha chave que destravava as portas.  — Eu chamei um uber. — ela disse sem erguer os olhos para mim.  — Por que? Eu posso te levar.  — Eu não quero ir com você. — a frieza em sua voz me acertou como um soco, muito mais forte do que o soco que ela me deu no peito.  — Eu sei que é meio contraditório nós compartilharmos nossos segredos e dez minutos depois usarmos isso um contra o outro. — agora ela me deu toda a sua atenção. — Me desculpa.  — Ok. — sua voz embargou. — Me desculpa também. — ela arfou estando prestes a chorar e eu dei um passo na direção dela, meu instinto me dizendo para abraçá-la, mas então ela se afastou e eu recuei. — O meu uber chegou.  Dulce não se despediu de mim, apenas deu meia volta e entrou no uber. Observei o carro sair e dobrar a esquina, então entrei em meu carro e antes de dar a partida, liguei para Belinda.  — Fiz o que pediu. — eu disse quando ela atendeu.  — Demorou demais, já estava achando que não tinha feito. — reclamou.  — Eu tive um incidente, mas isso não vem ao caso. Vai me dizer quem era aquele homem e por que deu dois mil dólares para ele?  — Eu disse para não contar o dinheiro. — eu podia imaginar ela revirando os olhos agora. — Christopher, quando eu não te conto os detalhes de algumas coisas é porque estou tentando protegê-lo. Seria muito mais difícil para você ter que me fazer esse favor se você soubesse o propósito disso.  — Está se metendo em coisas ilegais? — perguntei preocupado.  — É sério, Christopher, é melhor não saber.  Desliguei sem dizer mais nada, joguei o celular no banco do carona e dei um soco no volante, frustrado com o fato de provavelmente estar sendo puxado para o abismo de Belinda sem nem saber. Só esperava que ela não ferrasse com tudo, seja lá o que estava fazendo.  Enquanto dirigia para casa, fiquei pensando sobre o que aconteceu no elevador com Dulce e a forma como ela reagiu depois. Estava mais preocupado com o estado emocional dela do que com o fato de tê-la beijado sem nenhum pudor e em como isso não parecia mais tão errado depois de feito.
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