O Jogo Começa

1331 Words
No dia seguinte, acordei com o quarto inundado por uma luz suave, filtrada pelas cortinas de linho. Estiquei o braço por instinto, mas o espaço ao meu lado estava vazio. O lençol ainda morno denunciava que ela havia saído há pouco. Levantei-me e vesti meu robe. A casa estava silenciosa. Por um instante, pensei que ela tivesse saído. Mas então ouvi o som de uma música suave vindo do andar de baixo, seguida por um leve tilintar de porcelana. Desci as escadas devagar, encontrando uma cena que paralisou meus passos. Helena, com o cabelo preso de forma despretensiosa e vestindo apenas um vestido leve de algodão branco, estava na cozinha, preparando café. Havia uma calma quase doméstica naquela imagem, uma beleza simples e absurda. Por um segundo, desejei que aquilo fosse real. Que ela estivesse ali por vontade. Mas era tudo um teatro. Um jogo. E eu também jogava. — Está domesticando a fera? — perguntei com um tom sarcástico, encostando no batente da porta. Ela se virou devagar, segurando a xícara com as duas mãos. Os olhos azuis estavam menos inflamados, mas ainda carregavam aquele brilho desafiador. — Não. Só estou tentando sobreviver à jaula com alguma dignidade. — E acha que café vai te ajudar com isso? Ela deu de ombros, virando-se de costas para mim. — Pelo menos o café é quente. Diferente de certas pessoas por aqui. Me aproximei por trás, devagar, até encostar minha mão na cintura dela. Ela enrijeceu no ato, mas não se afastou. — Você pode fugir o quanto quiser, Helena. Pode odiar meu nome, minha vida, minha forma de dominar tudo... Mas seu corpo não mente. Deslizei meus dedos pela lateral de sua cintura até sua nuca, puxando seu cabelo suavemente para o lado. A pele do pescoço arrepiou sob meu toque. Ela prendeu a respiração. — Por que faz isso? — ela sussurrou. — Por que não me deixa ir, Nicolas? Minha voz saiu baixa, próxima ao ouvido dela. — Porque você é a única coisa que não posso comprar, Helena. A única que não se curva. E isso... me enlouquece. Ela se virou de repente, o rosto colado ao meu. Estávamos perigosamente perto, como fogo e pólvora. — Então é isso? Vai me manter aqui, presa, só porque o seu ego não suporta a ideia de não ser desejado? — Não é meu ego que precisa de você. É algo muito mais sombrio do que isso. Ela se calou. Pela primeira vez, não tinha resposta. E talvez por isso eu tenha me aproximado ainda mais, prestes a beijá-la… até ela virar o rosto no último segundo. — Não sou um brinquedo, Nicolas. E o dia que você perceber isso pode ser tarde demais. Antes que eu dissesse algo, ela saiu, com a xícara ainda nas mãos, e me deixou ali, sozinho. De novo. No escritório, mais tarde, observei as câmeras de segurança instaladas discretamente na cobertura. Eu via tudo. Cada passo dela. Cada canto onde ela buscava respirar. Mas não era controle. Era obsessão. E eu sabia disso. Recebi uma ligação de Bianca, minha assistente pessoal. — Senhor Vilar, o senhor pediu para ser informado sobre qualquer movimentação do doutor Arthur Almeida. Franzi o cenho. — Fale. — Ele entrou com um pedido de investigação contra o grupo VilarTech. Alega que a venda das ações da família Costa foi forçada. Ele está reabrindo o caso do acidente. Meu sangue ferveu. Arthur Almeida. Primo de Helena. Advogado. Ambicioso. Eu sabia que esse nome voltaria a assombrar. — Mantenha olhos e ouvidos em tudo o que ele fizer. Quero relatórios diários. Se ele se aproximar da Helena, eu quero saber antes mesmo de ele pensar em fazer isso. — Sim, senhor. Desliguei o telefone e olhei para a imagem congelada no monitor. Helena sentada na varanda, com o olhar distante, acariciando o anel que eu coloquei em seu dedo. O jogo estava apenas começando. E se havia alguém que ousaria desafiar meu reinado por ela, estava disposto a afundar reinos inteiros para impedir. Helena podia me odiar. Podia fugir. Mas ela não fazia ideia do quanto eu estava disposto a fazer… para que ela nunca mais escapasse. A chuva caía pesada naquela noite, tamborilando contra os enormes vidros da cobertura como se quisesse invadir meu mundo, me lembrar de algo que eu insistia em ignorar: Helena estava cada vez mais presente na minha vida. Presente demais. E isso estava me tirando do controle. Depois da ligação sobre Arthur Almeida, eu já sabia que as coisas não seriam mais tão simples. Helena era uma peça importante em um tabuleiro onde todos queriam algo — poder, justiça, vingança. Mas eu… eu só queria ela. Por inteiro. Corpo, alma e ódio. Entrei no quarto em silêncio. Ela estava deitada na cama, lendo um livro qualquer. As pernas dobradas, os cabelos loiros soltos em ondas. A luz suave do abajur iluminava seus traços, e por um segundo desejei que ela olhasse para mim diferente. Mas, ao notar minha presença, seus olhos azuis se estreitaram como lâminas afiadas. — Não sabe bater antes de entrar? — ela disparou, marcando a página do livro com os dedos. — Já invadi coisa muito mais protegida do que um quarto, Helena. Ela soltou um riso baixo, irônico. — Claro. Deve estar acostumado a tomar tudo que quer. — Inclusive você. — Eu não sou sua. — Já se olhou no espelho hoje? Está usando o meu anel, dormindo na minha cama, vivendo na minha casa. Que outro nome você daria para isso, senão posse? Ela se levantou bruscamente. Estava com uma camisola fina de cetim azul que delineava seu corpo de forma quase c***l. Mas o que mais chamava atenção era o fogo nos olhos dela. — Você pode me manter aqui, Nicolas. Pode me ameaçar, comprar minha paz, me cercar com seguranças e grades invisíveis. Mas nunca terá o que realmente quer. Me aproximei devagar, até nossos corpos quase se tocarem. A voz saiu baixa, rouca. — E o que eu realmente quero? — A minha rendição. — Errado. Minha mão deslizou até o queixo dela, forçando-a a olhar dentro dos meus olhos. — Eu quero o seu amor, Helena. Quero que me odeie até que me deseje. Quero que lute até que se canse. E quando não restar mais nada… aí sim, eu terei vencido. Ela se soltou bruscamente, andando até a porta. — Você é doente. — E você é minha cura. Ela parou por um segundo, sem se virar. A respiração dela estava acelerada, e mesmo sem ver seu rosto, eu sabia que minhas palavras a afetavam. — Só que eu não fui feita para curar ninguém, Nicolas. E se continuar insistindo nisso… vai acabar se matando. Assim que a porta se fechou, a raiva me invadiu como uma tempestade. Varri os papéis da escrivaninha com um golpe seco. Helena não sabia com quem estava lidando. Eu podia ser arrogante, controlador, perigoso — mas era também um homem com cicatrizes profundas. Ela mexia com partes de mim que estavam trancadas há anos. Peguei o celular e liguei para Leonardo, meu melhor advogado. — Preciso que encontre tudo sobre o Arthur Almeida. Quero cada passo, cada ligação, cada conta bancária. Se ele cavar demais, quero que caia na própria cova. — Vai ser feito. Desliguei e fui até o cofre embutido na parede. Digitei a senha e puxei uma pasta antiga. Ali estavam os documentos do passado… da falência dos Costa, do acidente que destruiu aquela família, das manipulações que eu mesmo fiz para chegar até Helena. Ela não fazia ideia do quanto eu tinha destruído para chegar até ela. Ou talvez soubesse. E mesmo assim… ela continuava ali. O problema era que, quanto mais ela resistia, mais eu me afundava. Helena achava que era minha prisioneira. Mas a verdade é que, desde o primeiro momento em que olhei para ela, foi a minha alma que se trancou atrás das grades. E agora... não havia mais chave.
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