Lara sentou-se na pequena varanda de casa, observando a movimentação lenta da rua. O sol da tarde iluminava o morro, mas para ela parecia que tudo estava sempre envolto em uma nuvem cinza. Desde que havia voltado para casa, sua rotina era marcada pelos olhares carregados de pena, os sussurros que cessavam assim que ela aparecia, as perguntas constantes e sempre iguais: “Você está bem?”
Ela respirou fundo, tentando afastar o peso em seu peito. A verdade era que não estava bem. Cada pergunta, cada expressão de dó, a fazia lembrar de tudo o que aconteceu. Lara queria apenas que as pessoas esquecessem, que seguissem com suas vidas e parassem de tratá-la como se fosse uma sombra de quem ela era antes.
— Filha, quer um chá? — perguntou Dona Iraci, aparecendo na porta com uma expressão de preocupação que só piorava o estado de Lara.
— Não, mãe. Obrigada — respondeu, tentando soar normal, mas a voz saiu arrastada.
Iraci hesitou por um momento, mas acabou voltando para dentro de casa, deixando Lara sozinha.
Lara olhou para a rua novamente. Era um misto de desejo e pavor de sair e enfrentar as pessoas. Ela sentia saudade de como era antes, quando atravessava aquela mesma rua com confiança, acenando para os vizinhos sem precisar lidar com aquele peso sufocante.
Uma vizinha passou, uma senhora que sempre era carinhosa com ela. Lara acenou por educação, mas a mulher se aproximou rapidamente.
— Ô, Lara... Como você está hoje, minha filha? Precisando de alguma coisa?
Lara forçou um sorriso.
— Estou bem, dona Nilda. Obrigada.
— Ai, querida, você é tão forte! — disse a mulher, apertando levemente o braço dela antes de continuar caminhando, murmurando algo para si mesma.
Lara ficou paralisada por alguns segundos. Aquilo não parecia força. Para ela, sentia-se apenas sobrevivendo a cada dia.
A noite chegou lentamente, e com ela veio a sensação de alívio que Lara sentia quando o morro ficava mais silencioso. Ela se trancou no quarto, apagou a luz e sentou-se no chão, recostando-se contra a parede fria. As lágrimas vieram, como vinham todas as noites. Ela abraçou os próprios joelhos, tentando, mais uma vez, afastar os pensamentos sombrios que insistiam em invadir sua mente.
“Eu só quero esquecer,” pensou, enxugando o rosto com a manga da blusa. Mas, no fundo, sabia que não era tão simples. O morro inteiro a lembrava do que tinha passado. A própria casa, as pessoas ao redor, tudo parecia conspirar contra sua tentativa de seguir em frente.
Enquanto a noite avançava, Lara fez algo que não fazia há tempos. Pegou um caderno antigo e começou a escrever. Frases soltas, palavras sem sentido, mas aquilo trouxe um pouco de paz, ainda que momentânea. Talvez, escrever fosse a sua maneira de expulsar os demônios que a assombravam. E pela primeira vez, sentiu que era um pequeno passo para recuperar algo que achava que tinha perdido para sempre: si mesma.
A noite era quente e silenciosa, com apenas os sons ocasionais da vizinhança para quebrar a tranquilidade. Lara estava sozinha em casa, tentando se distrair no sofá com um livro. Sua mãe havia saído para encontrar algumas amigas, uma tentativa de se distrair da tensão que vinha pairando sobre a casa desde os acontecimentos recentes.
A campainha tocou, um som curto que tirou Lara de seus pensamentos. Ela fechou o livro e foi até a porta, sua curiosidade maior que qualquer cautela. Ao abrir, encontrou Matheus ali, em pé, com aquele olhar firme, mas sereno.
— Posso entrar? — ele perguntou, com a voz baixa.
Lara assentiu, recuando para dar espaço. Ele entrou e se acomodou no sofá com uma naturalidade que a fez sorrir de leve. Era engraçado como ele parecia ocupar qualquer espaço como se sempre pertencesse a ele.
— Vim ver se tá tudo bem com você — disse Matheus, tirando o boné e o deixando sobre o braço do sofá.
Lara o observou por um momento, sentando-se na poltrona em frente a ele.
— Tô bem — respondeu, mas havia um nervosismo evidente em sua voz.
Eles conversaram por alguns minutos, como sempre faziam. Ele a perguntava sobre o dia, falava sobre as novidades no morro, evitando qualquer detalhe que pudesse preocupá-la. Matheus parecia fazer questão de manter um tom leve, mesmo que sua presença sempre tivesse um peso.
Mas algo estava diferente naquela noite. Lara sentia seu coração acelerado toda vez que os olhos de Matheus cruzavam os dela. Ele parecia maior, mais próximo, mesmo que não tivesse se movido. Ela tentava ignorar, mas aquela sensação crescia, e suas mãos começaram a suar.
De repente, ela se levantou, sem pensar muito.
— Lara? — ele perguntou, confuso.
Ela se aproximou devagar, parando em frente a ele. Matheus a olhou, intrigado, mas não disse mais nada. Lara inclinou-se para frente e, antes que sua coragem a abandonasse, encostou os lábios nos dele.
Foi um beijo breve, tímido. Quando ela se afastou, os olhos dele brilhavam com uma mistura de surpresa e algo mais, algo que a fez estremecer.
— O que foi isso? — ele perguntou, com um leve sorriso no canto dos lábios.
— Eu... Não sei. Só senti vontade — ela confessou, sua voz quase um sussurro.
Antes que ele pudesse responder, Lara o beijou novamente. Desta vez, o beijo foi mais intenso, mais profundo. Era como se algo tivesse se libertado dentro dela, algo que vinha sendo reprimido desde que tudo aconteceu.
Matheus retribuiu, suas mãos segurando levemente a cintura dela, mas sem pressionar. Ele parecia medir cada movimento, como se quisesse ter certeza de que aquilo era realmente o que ela queria.
Quando finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes. Lara desviou o olhar, sentindo as bochechas queimarem.
— Eu... Desculpa — ela murmurou, sem saber o que mais dizer.
— Não tem que pedir desculpa, Lara — respondeu Matheus, levantando-se e a olhando com intensidade. — Mas eu preciso saber: você tá pronta pra isso? Pra mim?
A pergunta o pegou desprevenida. Ela mordeu o lábio inferior, encarando o chão.
— Eu não sei... Mas sei que quero tentar.
Matheus a puxou para um abraço, algo raro vindo dele, mas cheio de significado. Eles ficaram assim por alguns segundos, como se aquele momento fosse só deles, alheios a qualquer coisa que pudesse estar acontecendo lá fora.
Lara não sabia como seria o futuro com Matheus. Não sabia se conseguiria superar seus medos, nem se a vida dele era algo que ela realmente podia suportar. Mas, naquele instante, ao sentir os braços dele ao seu redor, decidiu que queria tentar descobrir.