Diferente

1143 Words
Matheus sentou-se na beirada da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, enquanto pensava em tudo o que vinha acontecendo nos últimos dias. Lara era diferente. Diferente de tudo o que ele estava acostumado. As mulheres que cruzavam o caminho dele até então sempre faziam parte do caos que era sua vida: festas, confusão e uma rotina em que cada momento parecia fugaz, feito para não durar. Elas eram como faíscas em uma noite escura, brilhavam rápido, mas logo desapareciam. Lara, no entanto, era calma como um amanhecer. Não tinha pressa, não fazia barulho. E isso o intrigava. Quando estava com ela, parecia que o tempo desacelerava. O jeito como ela falava, sempre com cautela; como suas mãos moviam-se distraídas enquanto contava algo. Era como se ela carregasse um mundo totalmente oposto ao dele. E Matheus, pela primeira vez, estava gostando de explorar esse mundo. Ele lembrou-se da noite anterior, dos momentos que dividiram. O toque delicado de Lara, os sorrisos hesitantes, e o jeito que ela parecia se sentir segura ao lado dele. Matheus sabia o peso de carregar sua reputação, e ainda assim, Lara não parecia assustada com ele. Isso o fazia querer ser ainda mais cuidadoso com ela. Ao mesmo tempo, Matheus não conseguia ignorar uma verdade incômoda: sua vida era tudo menos tranquila. A liderança no morro vinha com problemas constantes, alianças frágeis e inimigos escondidos em cada esquina. Estar com Lara era quase como viver uma fantasia, e ele não sabia quanto tempo conseguiria manter isso longe da realidade dura que enfrentava todos os dias. Apesar disso, ele estava gostando de tudo. Lara o fazia se sentir diferente, mais leve, mais... humano. E isso era assustador e atraente ao mesmo tempo. Levantando-se, Matheus pegou o celular e digitou rapidamente uma mensagem para Lara: “Tô indo aí mais tarde, posso?” Ela respondeu quase que imediatamente: “Claro. Estarei aqui.” Aquelas palavras simples o fizeram sorrir, algo que poucos podiam testemunhar. No fundo, Matheus sabia que estar com Lara era um risco para ambos. Mas pela primeira vez na vida, ele queria correr esse risco. Queria ver até onde poderiam chegar, mesmo que o caminho fosse mais complicado do que ele desejava admitir. Enquanto Matheus se preparava para sair e ir ao encontro de Lara, um pensamento o incomodava: Dona Iraci. A mãe de Lara não era uma mulher fácil de convencer, e ele sabia que mais cedo ou mais tarde teria que enfrentá-la. Desde o que aconteceu com Lara, Iraci havia se tornado ainda mais protetora, como se quisesse construir um muro ao redor da filha para protegê-la do mundo. Matheus entendia aquilo. Era óbvio que a mãe de Lara não ia gostar da ideia de sua filha se envolvendo com um homem como ele. Quem era ele, afinal? Um homem com um nome pesado no morro, um passado sujo e um presente cheio de incertezas. Ele podia sentir o julgamento de Iraci toda vez que os dois trocavam olhares rápidos nas poucas vezes em que cruzaram caminhos. “Ela acha que sou mais um problema na vida da filha dela”, pensou Matheus, acendendo mais um baseado para tentar se distrair. Porém, apesar disso, ele não pensava em desistir. Gostava de Lara, de verdade. A maneira como ela o olhava sem medo, mesmo conhecendo a reputação dele, era diferente. Matheus sabia que, para conquistar Lara de verdade, teria que lidar com a mãe dela — e isso não seria fácil. Quando Matheus chegou, encontrou Lara o esperando no portão. Ela sorriu ao vê-lo, mas logo o sorriso sumiu quando olhou para a janela da sala. A sombra de Dona Iraci podia ser vista por trás da cortina, espiando. — Minha mãe tá em casa — avisou ela com um tom nervoso. Matheus deu de ombros, como se fosse normal. — Tá tranquilo. Só quero conversar com você. Eles se sentaram na pequena mureta ao lado do portão. Conversaram sobre coisas simples, mas havia um clima de tensão no ar. Lara parecia inquieta, como se esperasse que a qualquer momento sua mãe fosse surgir na porta e começar a falar algo. E, de fato, não demorou muito para Dona Iraci sair da casa, os braços cruzados e uma expressão dura no rosto. — Matheus, posso falar com você? — disse ela de forma educada, mas claramente incisiva. Matheus assentiu, levantando-se devagar. Olhou para Lara, que o encarava com preocupação, e seguiu Dona Iraci até o lado oposto do quintal, onde poderiam conversar a sós. — Não vou enrolar, Matheus — começou Iraci, com o olhar firme sobre ele. — Eu não acho que você é o tipo de homem para minha filha. Matheus esperou, ouvindo em silêncio. — Depois de tudo que aconteceu, Lara precisa de paz. Ela precisa de um homem que traga segurança pra vida dela, não... — Ela hesitou, mas deixou a insinuação no ar. — Eu entendo sua preocupação, Dona Iraci — respondeu Matheus, com a voz calma. — Sei que a senhora só quer proteger a Lara. — Exatamente. E eu vou proteger. Minha filha já passou por coisas demais. Não vou deixar ela entrar em outra confusão. Matheus a olhou nos olhos, sem desviar, mas o respeito estava claro em sua postura. — Dona Iraci, eu gosto da sua filha. Gosto mesmo. Não tô aqui pra brincar com os sentimentos dela nem pra trazer problema pra casa de vocês. Iraci riu sem humor, cruzando os braços. — Gosta? Matheus, com sua vida... como você pode achar que vai conseguir cuidar dela? Houve um momento de silêncio. Matheus sentiu o peso daquelas palavras, mas não deixou que isso o desmontasse. — Eu sei que minha vida é complicada, mas a senhora tem minha palavra: ninguém vai machucar a Lara enquanto eu estiver por perto. Nem eu, nem mais ninguém. Iraci o encarou por um longo tempo, avaliando cada palavra, cada gesto, cada expressão. Embora ela não dissesse nada, Matheus sabia que tinha muito trabalho pela frente se quisesse ganhar a confiança daquela mulher. Finalmente, ela balançou a cabeça e deu um suspiro. — Não vou te impedir de estar perto dela... mas te aviso: o primeiro sinal de confusão, eu tiro minha filha de perto de você. Não vou arriscar. Matheus assentiu. — Entendido, Dona Iraci. Quando voltou para onde Lara estava esperando, ele tentou manter a expressão relaxada, mas ela percebeu que algo havia acontecido. — O que minha mãe disse? — perguntou Lara, olhando diretamente para ele. — Nada que eu não esperasse — respondeu Matheus com um meio sorriso. — Mas tá tudo certo. Lara sabia que aquela resposta escondia mais do que ele estava dizendo, mas decidiu não insistir. No fundo, ela sentiu uma pontinha de esperança. Matheus estava disposto a lidar até mesmo com sua mãe — isso, para ela, dizia mais do que mil palavras.
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