O sol estava baixo no horizonte, tingindo o céu com tons de laranja e dourado. Matheus se sentou no canto da laje, de onde tinha uma visão privilegiada do morro. Lá embaixo, as vielas agitadas pareciam respirar vida, com crianças correndo, moradores conversando e vendedores ambulantes tentando a sorte.
Ele puxou o baseado, sentindo a fumaça quente preencher seus pulmões enquanto relaxava os ombros. Tudo parecia calmo demais, e isso não o tranquilizava como deveria. Pelo contrário, era nas calmarias que ele sentia o perigo se aproximar de mansinho, como uma cobra esperando para dar o bote.
Enquanto olhava para o movimento, sua mente estava a mil. Tudo andava quieto demais nos últimos dias, algo que Matheus sabia que não era boa coisa. Elias não era do tipo que gostava de calmaria; ele vivia da confusão, das intrigas que colocavam gente contra gente. "Um bode velho que nunca muda", pensou Matheus, enquanto dava mais um trago, soltando a fumaça lentamente.
Ele ficou ali por mais alguns minutos, com a mente dividida. Por um lado, tudo parecia sob controle; por outro, ele sentia que algo estava prestes a acontecer. Talvez fosse só paranoia, ou talvez fosse aquele instinto de sobrevivência que nunca o abandonara.
Enquanto ainda observava o movimento, ouviu passos na escada. Virou-se, já preparado para qualquer coisa, mas relaxou ao ver Dudu, um dos meninos de sua confiança, surgir com um semblante sério.
— Fala, chefe. Tá de boa?
Matheus assentiu, apagando o baseado na parede ao seu lado.
— E aí, moleque? Alguma novidade?
— Nada de muito importante, só gente perguntando umas coisas na comunidade. Tavam querendo saber onde tu tava ontem à noite.
— Quem? — A voz de Matheus endureceu.
— Uns caras que nunca vi antes. Tão se fazendo de vendedor, mas não colou. Fiquei de olho e mandei os moleques seguir.
Matheus passou a mão no rosto, frustrado. Sempre havia alguém tentando infiltrar ou descobrir algo que não devia. Essa era a regra no mundo em que vivia.
— Certo. Dá o papo pros caras de sempre. Qualquer movimento estranho, me avisa.
Dudu assentiu e desceu rapidamente, deixando Matheus sozinho de novo na laje. Ele se levantou e caminhou até a beira, cruzando os braços e olhando mais uma vez para o movimento lá embaixo.
Ele gostava de tranquilidade, sim, mas estava começando a perceber que a calmaria no morro muitas vezes era a maior ameaça. No silêncio, os inimigos se mexiam, as conspirações cresciam, e as traições surgiam. E Matheus sabia que, se quisesse manter seu nome e seu lugar no morro, precisava estar um passo à frente de tudo e de todos.
Enquanto Matheus descia a rua que levava à boca, as conversas e risos baixos dos moradores lhe eram familiares. Ele mantinha a postura firme, o olhar atento. Cada rosto, cada movimento era analisado por instinto. Seu semblante era frio, não entregava cansaço ou preocupação, mesmo que essas emoções fossem constantes em sua rotina.
De repente, ele viu Lara. Ela estava parada ao lado da mãe, Dona Iraci, conversando com uma vizinha próxima. Lara tinha um sorriso discreto, mas algo em seus olhos sempre carregava uma certa melancolia, um reflexo do que tinha vivido. Ao perceber sua presença, ela automaticamente desviou o olhar, como se temesse a atenção.
Matheus, por outro lado, manteve sua postura neutra. Ele acenou levemente com a cabeça, um gesto curto, quase imperceptível, que poderia ser entendido como um cumprimento ou simplesmente como um reconhecimento. Ele sabia que os olhos no morro sempre estavam nele, e a última coisa que queria era dar mais motivos para burburinhos.
Dona Iraci notou a troca silenciosa e franziu a testa. Matheus era uma figura conhecida e temida no morro, mas também era o responsável por encontrar Lara. Era complicado decidir como se sentir em relação a ele. Já Lara, mesmo tentando manter a aparência tranquila, sentiu o coração acelerar. Havia algo no jeito dele que a atraía e a assustava ao mesmo tempo, uma contradição que ela não conseguia controlar.
Matheus continuou andando, sem olhar para trás. Seus passos eram seguros, mas sua mente estava em outro lugar. Ele sentia o peso dos olhares, das opiniões que surgiam toda vez que seu nome era pronunciado. Conversar abertamente com Lara era algo que ele evitava na frente dos outros. Ele sabia que bastava uma palavra para transformar cuidado em boato, e no morro, boatos tinham força para virar problema.
"Tem coisa que não dá pra expor", pensou ele enquanto seguia em frente.
Lara continuou observando Matheus até que ele desaparecesse na próxima esquina. Sua mãe percebeu o silêncio da filha, mas preferiu não dizer nada. Dona Iraci não confiava nele e temia qualquer tipo de envolvimento que pudesse surgir, mas decidiu guardar sua preocupação para outro momento. Por enquanto, tudo o que ela queria era proteger Lara de novos infortúnios e evitar que qualquer sombra do passado voltasse a assombrá-las.
Já Matheus, ao chegar na boca, acendeu um cigarro e olhou para os meninos que estavam à sua volta. Ele sabia que não podia se distrair com nada além de seus objetivos. No entanto, por mais que tentasse manter distância de Lara, a imagem dela com o sorriso tímido e o olhar distante permanecia em sua mente.