Cedo

571 Words
Matheus passou em casa para tomar um banho rápido antes de ir ver Lara. A noite estava abafada, o morro mais agitado do que o normal. Depois do que aconteceu mais cedo, ele sabia que os olhos estavam voltados para ele. Todo mundo queria saber qual seria seu próximo passo. Quando chegou à casa de Lara, ela já o esperava no portão. Seu olhar denunciava preocupação. — O que aconteceu? — ela perguntou assim que ele se aproximou. Matheus sorriu de leve, tentando tranquilizá-la. — Nada que eu não resolva. Lara cruzou os braços, não parecia convencida. — Eu ouvi uns comentários... Elias tá mexendo com você de novo, né? Ele suspirou. — Eu sabia que ele ia voltar, só não esperava que fosse tão rápido. Mas eu tô preparado, Lara. Ela ficou em silêncio por um instante, mordendo o lábio inferior. — Eu não quero que você se machuque. Matheus passou os dedos pelo rosto dela, fazendo-a levantar o olhar. — Eu sei me cuidar. Lara queria acreditar nisso, mas no fundo algo lhe dizia que essa guerra não acabaria sem consequências. Eles entraram. A casa estava silenciosa, a mãe de Lara já dormia. No sofá, Matheus puxou Lara para perto e a envolveu nos braços. Ela se aconchegou nele, respirando fundo. — Queria que tudo fosse mais fácil — ela murmurou. Ele beijou o topo de sua cabeça. — Eu também. Mas eles sabiam que a realidade era bem diferente. A noite parecia calma, mas Matheus sentia no peito aquela inquietação que não o deixava relaxar. Ele ficou ali, com Lara nos braços, ouvindo sua respiração lenta e sentindo o perfume leve que vinha de seus cabelos. Era bom estar com ela, mas sua mente não parava. Lara percebeu. — Você tá pensando em quê? Ele demorou um pouco para responder. — No que vem depois. — Depois do quê? Matheus suspirou. — Depois de Elias. Depois do que eu tiver que fazer. Lara se afastou um pouco, olhando nos olhos dele. — Você não precisa matar ele, Matheus. Ele riu sem humor. — Se eu não fizer, ele faz. Ela ficou em silêncio. Sabia que era verdade, mas ainda assim odiava aquela realidade. — Eu queria que você saísse disso — ela confessou. Matheus não respondeu de imediato. Ele passou os dedos no rosto dela, pensativo. — E se eu quisesse? Você sairia comigo? Lara sentiu o coração acelerar. — Eu... não sei. Ele sorriu, mas havia algo melancólico ali. — Então não faz sentido. Eu sou isso aqui, Lara. Esse morro, essa vida... é tudo que eu sei. Ela baixou os olhos. — Mas você pode ser mais. Matheus segurou o queixo dela, fazendo-a olhar para ele. — Você quer mesmo ficar comigo? Lara assentiu, sem hesitar. — Então aceita quem eu sou. Aquelas palavras ficaram ecoando na cabeça dela, mesmo depois de Matheus ir embora naquela madrugada. No caminho de volta para a boca, Matheus já sabia que a paz não duraria muito. Elias estava tramando algo. Ele sentia no ar. Ao chegar, encontrou Binho e Pivete esperando por ele. — A coisa tá estranha, Matheus — disse Binho, coçando a cabeça. — Como assim? Pivete respondeu: — Tão dizendo que Elias conseguiu reforço. Que ele tá junto com os caras do morro vizinho e quer voltar. Matheus sentiu o sangue ferver. — Então vamos estar prontos pra receber ele. A guerra estava prestes a começar.
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