Matheus passou em casa para tomar um banho rápido antes de ir ver Lara. A noite estava abafada, o morro mais agitado do que o normal. Depois do que aconteceu mais cedo, ele sabia que os olhos estavam voltados para ele. Todo mundo queria saber qual seria seu próximo passo.
Quando chegou à casa de Lara, ela já o esperava no portão. Seu olhar denunciava preocupação.
— O que aconteceu? — ela perguntou assim que ele se aproximou.
Matheus sorriu de leve, tentando tranquilizá-la.
— Nada que eu não resolva.
Lara cruzou os braços, não parecia convencida.
— Eu ouvi uns comentários... Elias tá mexendo com você de novo, né?
Ele suspirou.
— Eu sabia que ele ia voltar, só não esperava que fosse tão rápido. Mas eu tô preparado, Lara.
Ela ficou em silêncio por um instante, mordendo o lábio inferior.
— Eu não quero que você se machuque.
Matheus passou os dedos pelo rosto dela, fazendo-a levantar o olhar.
— Eu sei me cuidar.
Lara queria acreditar nisso, mas no fundo algo lhe dizia que essa guerra não acabaria sem consequências.
Eles entraram. A casa estava silenciosa, a mãe de Lara já dormia. No sofá, Matheus puxou Lara para perto e a envolveu nos braços. Ela se aconchegou nele, respirando fundo.
— Queria que tudo fosse mais fácil — ela murmurou.
Ele beijou o topo de sua cabeça.
— Eu também.
Mas eles sabiam que a realidade era bem diferente.
A noite parecia calma, mas Matheus sentia no peito aquela inquietação que não o deixava relaxar. Ele ficou ali, com Lara nos braços, ouvindo sua respiração lenta e sentindo o perfume leve que vinha de seus cabelos. Era bom estar com ela, mas sua mente não parava.
Lara percebeu.
— Você tá pensando em quê?
Ele demorou um pouco para responder.
— No que vem depois.
— Depois do quê?
Matheus suspirou.
— Depois de Elias. Depois do que eu tiver que fazer.
Lara se afastou um pouco, olhando nos olhos dele.
— Você não precisa matar ele, Matheus.
Ele riu sem humor.
— Se eu não fizer, ele faz.
Ela ficou em silêncio. Sabia que era verdade, mas ainda assim odiava aquela realidade.
— Eu queria que você saísse disso — ela confessou.
Matheus não respondeu de imediato. Ele passou os dedos no rosto dela, pensativo.
— E se eu quisesse? Você sairia comigo?
Lara sentiu o coração acelerar.
— Eu... não sei.
Ele sorriu, mas havia algo melancólico ali.
— Então não faz sentido. Eu sou isso aqui, Lara. Esse morro, essa vida... é tudo que eu sei.
Ela baixou os olhos.
— Mas você pode ser mais.
Matheus segurou o queixo dela, fazendo-a olhar para ele.
— Você quer mesmo ficar comigo?
Lara assentiu, sem hesitar.
— Então aceita quem eu sou.
Aquelas palavras ficaram ecoando na cabeça dela, mesmo depois de Matheus ir embora naquela madrugada.
No caminho de volta para a boca, Matheus já sabia que a paz não duraria muito. Elias estava tramando algo. Ele sentia no ar.
Ao chegar, encontrou Binho e Pivete esperando por ele.
— A coisa tá estranha, Matheus — disse Binho, coçando a cabeça.
— Como assim?
Pivete respondeu:
— Tão dizendo que Elias conseguiu reforço. Que ele tá junto com os caras do morro vizinho e quer voltar.
Matheus sentiu o sangue ferver.
— Então vamos estar prontos pra receber ele.
A guerra estava prestes a começar.