X

804 Words
Dona Iraci fechou a porta com força, os olhos fixos na filha, que estava sentada no sofá. Lara sentiu a tensão no ar antes mesmo da mãe abrir a boca. — Eu posso saber o que está acontecendo entre você e Matheus? — a voz dela saiu firme, carregada de preocupação. Lara suspirou, já esperando aquela conversa. — Mãe… — Não me enrola, Lara! Eu vejo como vocês se olham, como você sorri quando ele aparece. Não precisa me dizer nada, eu já sei. Lara abaixou a cabeça, respirando fundo. — Ele tem sido bom pra mim, mãe. Eu me sinto segura com ele. — Segura? — Dona Iraci riu sem humor. — Você sabe a vida que ele leva, sabe os perigos que cercam esse rapaz. Como pode achar que está segura? — Porque ele nunca me fez m*l, nunca me tratou com grosseria, nunca me fez sentir medo. Ele esteve ao meu lado quando ninguém mais esteve, mãe. Dona Iraci se sentou ao lado da filha, pegando suas mãos. — Eu só não quero que você sofra mais, meu amor. Você passou por muita coisa… — Eu sei, mãe. Mas eu não posso deixar que o que aconteceu me defina pro resto da vida. Eu quero seguir em frente. Dona Iraci suspirou, sem saber o que dizer. Sabia que a filha era teimosa, mas temia que aquele envolvimento acabasse da pior forma. Enquanto isso, do outro lado do morro, Matheus estava sentado na laje, ouvindo as informações que um dos meninos do movimento trazia. — Tem gente falando que tão armando alguma coisa contra nós, chefe. Os caras do outro lado tão se reunindo demais, e tão dizendo que tão de olho na gente. Matheus estreitou os olhos, sentindo a preocupação crescer. — Quem tá por trás disso? — Parece que tem uns caras de fora chegando, não é só treta entre os morros. Matheus acendeu um baseado, pensando. Tranquilidade demais sempre o deixava desconfiado. Agora, tudo fazia sentido. — Fiquem atentos. Se tiver qualquer movimentação estranha, quero saber na hora. Ele sabia que, além de proteger o morro, agora também tinha outra preocupação: Lara. E ele não ia deixar que nada a atingisse. Matheus desceu a viela com passos firmes, a cabeça cheia de pensamentos. A tranquilidade que ele sentia ao lado de Lara contrastava com o turbilhão que era sua vida. Agora, com os boatos de que algo estava sendo armado contra ele, sabia que não poderia baixar a guarda. Ele atravessou a rua principal do morro e parou diante da casa de Lara. Precisava vê-la. Precisava saber que ela estava bem. Bateu na porta e esperou. Minutos depois, Lara apareceu, surpresa ao vê-lo ali. — Matheus? O que foi? — Ela olhou ao redor, como se procurasse alguém. — Nada. Só queria te ver. Ela hesitou por um segundo, mas abriu espaço para que ele entrasse. Assim que fechou a porta, sentiu o olhar intenso dele sobre si. — Minha mãe saiu pra ir na igreja. Matheus assentiu, observando a sala pequena e arrumada. Aquela casa era diferente do mundo dele. Era um lugar onde havia calma, onde ele não precisava estar sempre de olho por cima do ombro. Lara sentou-se no sofá, e ele fez o mesmo, ficando mais próximo do que deveria. O cheiro dela o atingiu, doce e suave. — Você tá bem? — Ele perguntou, analisando-a. Lara olhou para ele e suspirou. — Mais ou menos. Minha mãe não tá gostando muito da gente… você sabe. Matheus soltou uma risada baixa. — Isso eu já esperava. Ela tem razão de se preocupar. — E por que você veio, então? Ele passou a língua pelos lábios, pensando em como responder. — Porque eu quero ficar com você. Lara sentiu o coração disparar. A intensidade nos olhos dele a deixava nervosa, mas não de medo. — Matheus… minha vida já virou um caos. Você tem certeza de que quer isso? Ele segurou o rosto dela com delicadeza, obrigando-a a encará-lo. — Se eu não tivesse, eu não tava aqui. Lara engoliu seco. Algo dentro dela gritava para se afastar, mas outra parte queria se perder naquilo. Matheus aproximou-se devagar, roçando os lábios nos dela antes de finalmente beijá-la. Diferente do primeiro beijo, que ela havia pedido, esse veio com desejo, com uma necessidade crua que a fez se agarrar à camisa dele. Mas antes que pudessem se perder completamente um no outro, um barulho do lado de fora os fez se separarem. Matheus se levantou no mesmo instante, os sentidos em alerta. Caminhou até a janela e espiou. Do outro lado da rua, Elias observava a casa, um sorriso discreto nos lábios antes de virar a esquina e sumir na escuridão. Matheus fechou a cortina com força. Algo dentro dele dizia que aquela calmaria não ia durar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD