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2137 Words
Cristian. — Eles fizeram o quê? Minha voz sai como um sussurro venenoso enquanto me ergo na cama, ignorando completamente as mãos aflitas da enfermeira tentando me forçar a deitar novamente. A raiva que explode dentro de mim é suficiente para queimar qualquer resquício do sedativo que ela enfiou nas minhas veias mais cedo. Não faço ideia de quanto tempo fiquei apagado — mas foi tempo demais. Tempo suficiente para tudo dar errado. — Os terroristas atacaram o hospital há algumas horas — Sharipov repete, o rosto tenso, marcado pelo cansaço. — Subestimamos as capacidades deles… e o quanto queriam chegar ao seu chefe. Como não encontramos o corpo entre os mortos, só podemos assumir que o levaram. — Levaram o Zaytsev? Cada músculo do meu corpo se contrai. É um milagre eu não saltar da cama e esmagar a garganta do coronel com as próprias mãos — mãos que, percebo vagamente, ainda estão livres. — Vocês deixaram levarem ele? — rosno. — Eu mandei colocar segurança ao redor dele. — Nós colocamos. Tínhamos alguns dos nossos melhores soldados de guarda. —Alguns? — minha voz explode, ecoando pelo quarto. — Deviam ser dezenas, seus incompetentes do c*****o! A enfermeira recua num salto, quase tropeçando nos próprios pés para sair do meu alcance. Inteligente. Nesse momento, eu estrangularia qualquer um que estivesse perto. A mandíbula de Sharipov se contrai. — Como eu disse, subestimamos essa organização. Não vamos cometer o mesmo erro novamente. Foi um m******e… Eles feriram dezenas de pacientes e funcionários… e mataram todos os soldados da guarda. — Merda. Meu punho desce contra o colchão com tanta força que o travesseiro salta. Minha cabeça lateja com o impacto, mas eu não dou a mínima. Zaytsev foi levado… enquanto eu estava aqui, dopado, inútil. Eu falhei. E falhei feio. — Vocês pelo menos conseguiram segui-los? — pergunto, forçando cada palavra a sair entre os dentes cerrados. Majid não seria burro o bastante para levá-lo direto ao complexo Al-Quadar, nas montanhas do Pamir… não depois de sabermos da localização. Sharipov dá um passo para trás, cauteloso. — Não. A polícia foi acionada imediatamente, enviamos reforços… mas eles desapareceram antes que conseguíssemos chegar. — Filhos da p**a… Se não fosse pelo gesso imobilizando minha perna, eu já estaria em pé, descarregando essa fúria na cara cansada dele. Em vez disso, soco o colchão outra vez, como um animal enjaulado. Meu peito arde. Minha mente ferve. — Me dá o telefone — digo, quando consigo recuperar o mínimo de controle. — Preciso falar com Peter Ivanovisk. Ele assente e me entrega o aparelho com cuidado. — Já falamos com ele… mas fique à vontade. Arranco o telefone da mão dele, lutando contra o impulso de quebrar seus dedos no processo. Digito o código para uma linha segura, passando por várias camadas de conexão. Nada. Tento de novo. E de novo. E de novo. Sharipov me observa por alguns segundos antes de falar: —Vou sair por alguns minutos. Fique à vontade para fazer suas ligações. Assim que ele sai, o silêncio do quarto parece mais pesado. Mais sufocante. Continuo tentando. Zaytsev desaparecido. Peter fora de alcance. Algo está muito errado. Uma possibilidade surge, fazendo meu sangue ferver ainda mais. Colômbia. E se o ataque não tivesse sido só aqui? E se… A chamada conecta. —Sim? A voz carregada de sotaque é inconfundível. — De Luca. — Christian? — ele soa surpreso. — Você está acordado? — Acordado pra c*****o. Onde você está? Por que não atendeu? Uma pausa. — Acabei de pousar em Chicago. — O quê? Isso não faz sentido. — Por quê? — A esposa do Zaytsev. Ela quer servir de isca para a Al-Quadar. Meu corpo inteiro fica rígido. —O quê? — Eu sei. Foi exatamente a minha reação. Mas parece que o Zaytsev… aquele bastardo obsessivo… implantou rastreadores nela. Se eles a levarem para usá-la como moeda de troca, vamos conseguir localizar a posição deles. Solto o ar lentamente. — p***a… Brilhante. E completamente suicida. Se encontrarem os rastreadores… ela vai implorar para morrer. E se Zaytsev sobreviver… Peter vai desejar estar morto. — Foi ideia da Rayza? — Foi. — há um traço de admiração na voz dele. — Não sei que tipo de controle ele tem sobre ela… mas ela está determinada. Eu fui contra no começo. Ela me convenceu. Fecho os olhos por um segundo. Claro que convenceu. Seja lá o que existe entre eles… não é mais unilateral. — Qual é o plano? — pergunto. — Vai ficar em Chicago esperando eles morderem a isca? — Não. Estou indo direto para o Tajiquistão. A equipe de resgate já está a caminho. Assim que levarem ela… nós vamos atrás. — E se não levarem até ele? Um vídeo de tortura já serviria. — Eu sei. Claro que sabe. Homens como nós vivem disso. Apostar vidas como se fossem fichas. — Vocês descobriram o que aconteceu? — mudo de assunto. — Sharipov falou em erro. Do outro lado da linha, Peter solta um som de desprezo. — Erro? Mais como incompetência. Um dos oficiais deles estava vendido para os ucranianos há anos… e ninguém percebeu até ele disparar um míssil contra o seu avião. Meu estômago revira. — Ucrânia… Faz sentido. Mas rápido demais. Rápido demais para ser coincidência. — Foi a intérprete — Peter continua. — Mandei detê-la em Moscou assim que soube. Minha mão se fecha ao redor do telefone com tanta força que ele emite um bip estrangulado. — O quê? — Ela é espiã. Pelo menos metade da história dela é falsa. Sinto algo escuro se espalhando dentro de mim. Frio. Cortante. Mortal. — Entendi… Claro. Era por isso. O jeito hesitante. A falsa inocência. O olhar. Tudo calculado. — Foi assim que agiram tão rápido — Peter conclui. Sim. Foi assim. Porque eu contei. Eu praticamente entreguei tudo para ela. Aperto o telefone até meus dedos doerem. — Christian? — Tô aqui. Mas minha mente já não está mais no hospital. Está nela. Scarlett Romanova. Se esse for mesmo o nome dela. Cada detalhe, cada palavra, cada olhar… se reorganiza na minha cabeça como peças de um quebra-cabeça doentio. Ela não falhou em chegar até o Zaytsev. Ela simplesmente mudou de alvo. E eu… Eu fui burro o suficiente para deixar. Minha respiração se torna lenta. Controlada. Mas por dentro… Eu estou queimando. E quando eu colocar as mãos nela… Não vai sobrar nada além de arrependimento. — Tenho que ir agora — diz Peter. — Entrarei em contato quando pousarmos. Descanse e se recupere; não há mais nada que você possa fazer no momento. Vou mantê-lo informado sobre qualquer novidade. A ligação cai, e eu me forço a deitar novamente, embora a dor de cabeça piore com a fúria queimando dentro de mim. Se Scarlett Romanova cruzar o meu caminho outra vez… ela vai pagar. Ela vai pagar por tudo. Ainda estou consumido pela raiva quando Sharipov retorna para pegar o telefone. Assim que ele se aproxima da minha cama, eu me sento e o encaro com um olhar mortal. — Um erro da p***a, hein? O coronel esfrega a ponte do nariz, claramente exausto. — Estamos interrogando o oficial responsável neste momento. Ainda não está claro se… — Me leve até ele. Surpreso, Sharipov abaixa a mão. — Não posso fazer isso. Esse é um assunto do nosso exército. — O seu exército fez uma merda colossal. Vocês tinham um traidor cuidando do sistema de defesa antimíssil. Ele abre a boca para retrucar, mas eu o corto antes. — Me leve até ele — repito, minha voz fria e inegociável. — Eu mesmo vou interrogá-lo. Caso contrário, não teremos outra escolha a não ser assumir que há mais gente envolvida… no seu exército ou até no seu governo. Faço uma pausa, deixando o peso das palavras afundar. — Talvez até nesse ataque terrorista ao hospital. Os olhos de Sharipov se arregalam com a ameaça implícita. Se o governo uzbeque for ligado a uma organização como a Al-Quadar, as consequências seriam devastadoras. Tenho certeza de que ele sabe disso. E também sabe quem nós somos… e com quem temos conexões. — Preciso falar com meus superiores — ele diz, depois de alguns segundos. — Por favor, me devolva o telefone. Entrego o aparelho e observo enquanto ele sai, já discando. Espero, tranquilo, certo do resultado. E, como previsto, ele retorna minutos depois. — Muito bem, Sr. De Luca. Vamos trazer o oficial até aqui dentro de uma hora. Você pode falar com ele… mas apenas isso. O resto será tratado pelo nosso exército. Lanço um olhar duro. A única coisa que o exército deles vai “tratar” é o cadáver do traidor. — Traga ele. Deito novamente e fecho os olhos, tentando ignorar a dor latejante na cabeça. Talvez eu não possa colocar as mãos na intérprete agora… Mas posso muito bem cobrar meu preço aqui. Quando o traidor chega, as enfermeiras me entregam muletas e me ajudam a ir até outro quarto. Levo alguns minutos para me acostumar a andar com aquela merda — a dor de cabeça não ajuda em nada — e, quando finalmente entro, o homem já está sentado na cama. Sharipov está ao lado dele, junto com um soldado armado com um M16. — Este é Anton Karimov, o oficial responsável pelo incidente com o seu avião — diz o coronel. — Pode fazer as perguntas que quiser. O inglês dele não é perfeito, mas ele vai entender. Uma das enfermeiras puxa uma cadeira para mim, e eu me sento, observando o homem à minha frente. Quarenta e poucos anos. Gordo. Bigode espesso. Entrada no cabelo. E completamente encharcado de suor. Não. Não apenas nervoso. Apavorado. — Quem pagou você? — pergunto assim que ficamos sozinhos. — Quem deu a ordem para derrubar o nosso avião? Karimov se encolhe. — N-ninguém… foi erro… eu limpava controles… Ergo uma das muletas e encosto a ponta entre as pernas dele. Apenas um leve toque. Mesmo assim, ele empalidece na hora. — Quem deu a ordem? — repito, olhando diretamente nos olhos dele. Aumentando lentamente a pressão. — N-ninguém… eu limpava. Avanço de repente. O grito agudo dele ecoa quando prendo suas bolas contra o colchão. — Não mente pra mim — rosno. — Quem pagou você? — Sr. De Luca, isso não é aceitável — Sharipov intervém, entrando no meio. — Nós deixamos claro, apenas perguntas. Nem deixo ele terminar. Já estou de pé. Com uma muleta me apoiando, uso a outra para atacar o soldado. Acerto o joelho dele com força, e ele cai antes mesmo de reagir. Arranco o M16 das mãos dele e, no segundo seguinte, a arma está apontada para Sharipov. — Sai. Faço um gesto com a cabeça em direção à porta. — Agora. O rosto dele fica vermelho. — Você não sabe o que está fazendo. Levanto a arma, mirando entre os olhos dele. — Sai. A mandíbula dele se contrai, mas ele obedece. O soldado manca para fora atrás dele, me lançando um olhar cheio de ódio. Eles vão voltar com reforços. Mas vai ser tarde demais. Assim que a porta se fecha, volto minha atenção para Karimov. — Agora… — digo, quase tranquilo, apontando a arma para ele. — Onde estávamos? Os olhos dele estão arregalados de puro terror. — E-eu disse… erro… ninguém me pagou. Aperto o gatilho. O tiro destrói o joelho dele. O grito que se segue é ensurdecedor — e só piora minha dor de cabeça. — Eu disse pra não mentir — rosno. — Quem pagou você? — E-eu não sei! — ele soluça, segurando o joelho ensanguentado. — Foi tudo por e-mail! Tudo por e-mail! — Que e-mail? — M-meu Yahoo! Eles mandavam dinheiro há anos… depois pediam favores… pequenos favores… nunca encontrei eles… nunca. —Você não sabe quem são? — N-não! Eu não sei! Eu não sei! Merda. Eu acredito. Covarde demais pra mentir até o fim. — Vamos acessar esse e-mail — murmuro. Mas já sei. Provavelmente não vai ter nada útil. Quando ouço passos correndo no corredor, encosto a arma na testa dele. — Última chance. Silêncio. — Quem são eles? — Eu não sei! E dessa vez… Eu sei que é verdade. Inútil. Completamente inútil. Respiro fundo. E puxo o gatilho. Os disparos ecoam pelo quarto, rasgando carne, osso, tudo. O corpo dele bate contra a parede, espalhando sangue e massa cinzenta por todo lado. Baixo a arma devagar. Respiro. Uma vez. Duas. Quando os soldados invadem o quarto segundos depois, estou sentado, a arma vazia aos meus pés. —Peço desculpas pela bagunça — digo, apoiando-me nas muletas para ficar de pé. — Nós pagamos pela limpeza. E, ignorando o horror estampado no rosto de todos… Saio mancando pela porta.
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