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960 Words
Scarlett. — A qual organização você pertence? Romanov se inclina para frente, os olhos fixos em mim com a intensidade de uma cobra hipnotizando a presa. Eu encaro o oficial russo de volta, m*l registrando a pergunta. Não consigo decidir se os olhos dele são de um cinza amarelado ou um avelã pálido; seja qual for a cor, ela se mistura com o branco opaco ao redor, criando a ilusão perturbadora de que ele não tem cor alguma nos olhos. Na verdade, tudo em Konstantin Romanov parece ter esse tom doentio — da pele aos fios ralos de cabelo colados ao couro cabeludo brilhante. — A qual organização você pertence? — ele repete, o olhar perfurando o meu. — Quem enviou você? — Não sei do que está falando — respondo, incapaz de esconder o cansaço na voz. Já se passaram mais de vinte e quatro horas desde a minha captura. Não dormi, não comi, não bebi. Eles estão me desgastando. Quebrando minha resistência aos poucos. É uma técnica padrão. Os russos se consideram civilizados demais para recorrer à tortura explícita, então usam métodos mais “sutis” — coisas que corroem a mente em vez de deixar marcas visíveis no corpo. — Sabe, Scarlett — Valentine Romanov usa meu nome falso e o patronímico inventado — o governo ucraniano negou qualquer ligação com você. Ele se inclina ainda mais, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro de peixe salgado e batatas com alho chega até mim, nauseante. — A menos que alguma agência não oficial venha reivindicá-la, teremos que presumir que você é cidadã russa… como indica sua identidade falsa — continua. — Entende o que isso significa? Entendo. Se me acusarem de traição, serei executada. Mas isso não é motivo para falar. Petrov não vai me reivindicar. Nem mesmo se eu expuser a agência clandestina. Um agente não significa nada. Não no grande esquema. Quando permaneço em silêncio, Romanov suspira e se recosta na cadeira. — Muito bem, Scarlett Valentine. Se é assim que quer jogar… Ele estala os dedos em direção ao espelho que cobre toda a parede à minha esquerda. — Voltaremos a conversar em breve. Ele se levanta e caminha até a porta. Antes de sair, olha por cima do ombro. — Pense no que eu disse. Isso pode acabar muito m*l para você se não cooperar. Não respondo. Apenas baixo o olhar para minhas mãos, algemadas à mesa. Ouço a porta abrir e fechar. E então estou sozinha. Ou quase. Sempre há alguém observando do outro lado do espelho. As horas se arrastam. Cada segundo mais torturante que o anterior. A sede que me consome só perde para a fome que rasga meu estômago por dentro. Tento apoiar a cabeça na mesa para dormir, mas toda vez que faço isso, um alarme estridente explode pelos alto-falantes, me arrancando do torpor. O som é insuportável. Penetra no crânio como lâminas. Depois de algumas tentativas, desisto. Fico sentada, tentando desligar a mente por alguns instantes preciosos. Eu sei o que eles estão fazendo. Mas saber não torna nada mais fácil. Quem nunca passou por privação de sono não entende. Isso é tortura. Real. O corpo começa a falhar. A mente se fragmenta. Estou enjoada. Fria. Tudo dói. Meu estômago, meus músculos, minha pele… meus ossos. Até meus dentes latejam. A dor de cabeça que começou antes agora é um incêndio dentro do meu crânio, e meus lábios estão rachando pela falta de água. Quanto tempo já passou desde que Romanov saiu? Horas? Um dia inteiro? Eu não sei. E estou começando a não me importar. Se há algum lado “positivo”, é que não preciso usar o banheiro. Estou desidratada demais. Vazia demais. Mas isso não me poupou da humilhação. Assim que cheguei, me despiram. Revistaram cada centímetro do meu corpo. Até por dentro. Mesmo agora, vestindo esse macacão cinza de prisão, sinto como se estivesse nua. Minha pele se arrepia só de lembrar das mãos cobertas de látex. Fecho os olhos por um segundo. E o alarme grita de novo. Abro os olhos imediatamente, engolindo em seco, tentando reunir o pouco de saliva que ainda resta. É como se eu tivesse engolido areia. Engolir dói mais do que não engolir. Então eu paro. Só… respiro. Sobrevivo. Momento a momento. Eles não vão me deixar morrer assim. Não enquanto acharem que podem arrancar algo de mim. Tudo o que preciso fazer é aguentar. Até trazerem água. Até voltarem para me interrogar. Minha mente começa a vagar. Os últimos dias passam como fragmentos. E então… Christian. Não há motivo para evitá-lo agora. Deixo as memórias virem. Afiadas. Dolorosamente doces. Lembro do jeito que ele me beijou. Do jeito que seu corpo se encaixava no meu. Dentro de mim. Do gosto. Do cheiro. Da pele quente contra a minha. Ele me olhou enquanto me possuía… Um olhar que parecia me tomar por completo. Aquilo significou algo para ele? Ou fui só mais uma? Um corpo conveniente. Um momento passageiro em Moscou. Meus olhos secos ardem enquanto encaro a parede à minha frente, sem realmente vê-la. Não importa. Nunca importou. E agora importa menos ainda. Christian De Luca está morto. Provavelmente em pedaços. Explodido no céu. A sala à minha volta começa a oscilar, entrando e saindo de foco. Percebo que estou tremendo. Minha respiração fica curta. Rápida. Meu coração dispara, doloroso. Pode ser a desidratação. A falta de sono. Ou algo dentro de mim… quebrando. Uma pressão se fecha ao redor do meu peito, esmagadora. Eu queria me encolher. Desaparecer dentro de mim mesma. Mas não posso. Minhas mãos estão presas. Meus pés acorrentados ao chão. Tudo o que posso fazer… é ficar sentada ali… e lamentar algo que nunca tive. e que agora… nunca vou ter.
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